“Socorro! Meu filho não dorme a noite inteira!”

E nunca vai dormir.

Desculpe, mas essa é a mais pura verdade.

Se você é mãe ou pai e veio parar aqui depois de muitas noites mal ou não dormidas, e está buscando uma forma de fazer com que seu bebê deixe você pregar os olhos por umas horinhas, continue lendo. Não ofereço panacéia, mas uma opção que vale a tentativa.

Ninguém, absolutamente ninguém, dorme “a noite inteira”. Nem você. A grosso modo podemos explicar assim: O sono é dividido em fases e essas fases são entremeadas por momentos de desperte. O conjunto de fases forma um ciclo. A gente acorda, muda de posição, soca o travesseiro, puxa o cobertor, procura o companheiro(a), vai ao banheiro, bebe um copo d’água, ou simplesmente volta a dormir. O sono dos bebês é muito similar  ao sono dos adultos, mas as fases são mais curtas e eles devem se manter no sono leve tanto quanto possível. E os ciclos duram em média 45 minutos se me lembro bem. Para eles, os momentos de excitação, ou desperte, tem um componente preventivo: eles evitam a tão temida morte súbita.

Mas todo mundo fala em bebês que “dormem a noite inteira”. Sim, há bebês que cedo não acordam ninguém, apesar de terem os momentos de desperte. Mas esses são exceção, não regra. Quando o bebê acorda, outras necessidades podem se apresentar: fome, frio, sensação de humidade na fralda, medo, solidão, ou necessidade de reconexão com o cuidador entre outras. Se o bebê acorda e se vê sozinho, seu instinto é chamar o cuidador. Sua única garantia de sobrevivência. Logo, “abre o berreiro”, sua única forma de comunicação. Os pais, estando em outro cômodo, precisam despertar totalmente para atender ao chamado do bebê. E assim começa a saga dos pais exaustos e bebês idem.

Mas por quê cargas d’água a gente coloca os bebês para dormir sozinhos mesmo, hein? Bom, me parece que essa é uma idéia de jerico bem moderna. Coisa do individualismo ocidental. “Cada um por si, Deus por todos”, etc. Mas nós somos pais e queremos o melhor pros nossos guris. Bom, pais exaustos não se encaixam muito bem na minha idéia de “melhor pros filhos”. Pais precisam dormir. Claro que nem todo mundo consegue escapar de bebês com cólica, ou bebês com febre, resfriadinhos etc. Mas se o bebê está e é saudável, os pais devem buscar seu descanso para que estejam prontos pra aguentar o dia com uma criança pequena – e também as noites conturbadas por doenças, picos e saltos.

Mas e daí?

Eu sugiro que você durma! Durma! Mas durma com seu bebê! Isso mesmo! Dê uma de João-sem-braço, finja que nunca ouviu recomendações de colocar seu bebê pra dormir na caminha dele, no quartinho dele. A vida não é um comercial de margarina. Tanto o comercial quanto a margarina são falsos. No mundo real o buraco é muito mais embaixo. Mas você idealizou seu bebê, e junto idealizou o quartinho. Um berço lindo, paredes com cores frias e calmantes, guirlandas, lâmpadas, travesseirinhos, ursinhos… Tudo tão perfeito… Mas a vida não é perfeita e os bebês saem de dentro da gente sem manual de instruções. De que adianta um quartinho lindo e aconchegante e pais que não conseguem desfrutar da cria nem dos quartos? A exaustão também contribui para as separações dos casais.

Então, durma. Leve seu bebê para a sua cama. Ou para uma cama ao lado da sua. Ou coloque colchões pelo chão do quarto e durmam juntos. Compartilhe o sono com seu bebê. O sono compartilhado contribui e facilita a amamentação, que por sua vez, relaxa e induz mamãe e bebê ao sono. Dividir o mesmo quarto torna tanto a mãe quanto o bebê mais conectados. Segundo pesquisas, em 60% dos despertares noturnos, a mãe desperta + ou – 2 segundos depois que o bebê desperta; e nos outros 40%, o bebê desperta + ou – 2 segundos depois que a mãe desperta. Quando você virar para o lado esquerdo, seu bebê também virará. Essa sincronia foi descoberta pelo antropólogo James McKenna, especialista no sono mamãe-bebê da Universidade de Notre Dame. E a sincronia também acontece com o pai. Estando junto da mãe, o bebê se mantém no sono leve por mais tempo, o que também previne a Morte Súbita do Recém-nascido. Ele também mama com mais frequência durante a noite na cama compartilhada, o que regula a produção de leite da mãe.

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Num desses dias de luta. Soneca compartilhada.

 

Seu bebê vai continuar acordando durante a noite, assim como você, mas ele não vai precisar te acordar. Algumas vezes você você vai despertar, mas geralmente não acordará totalmente para amamentar. Os bebês crescem e logo acham o seio sem ajuda.

Dormir com seu bebê não é subversivo ou ilegal. Compartilhar o sono é um ato de amor e sobrevivência praticado por toda a humanidade. A exigência de independência noturna praticada no ocidente vai contra nossa natureza e instintos evolutivos. Ainda hoje muitas culturas praticam o sono compartilhado em todos os continentes. Não há nada de primitivo nisso, nem “pobre fazendo pobrice”.

Se alguém me perguntar quantas vezes meus bebês acordam para mamar durante a noite, a resposta é simples: não sei!

Se não tiver coragem de compartilhar o sono noturno na primeira tentativa, experimente durante uma soneca. Leve o bebê para a sua cama, coloque-o no seio e deixe que ele mame até adormecer. E durma junto! Esqueça os afazeres domésticos. Não adianta a casa brilhar, se você estiver um caco. Durma! Durma com ele.

Se tiver amigos ou parentes que se disponham a ajudar, peça que olhem o bebê ou as crianças por uma hora. Tranque-se no quarto e durma!

Experimente!

Se depois da soneca você tomar coragem para compartilhar o sono também durante a noite ou indefinidamente, sugiro que leia este guia de segurança do Dr. McKenna.

Quanto ao sono compartilhado gerar crianças dependentes, sugiro uma busca no google. Esse é assunto para um próximo post. Mas já adianto que existe uma diferença entre dependência e segurança, e que não, a cama compartilhada não gera crianças mais dependentes do que aquelas que dormiram sozinhas em seus quartos. Estudos revelam que crianças seguras são mais independentes.

E considere que a intimidade do casal vai para além do sexo na cama. Sugiro que restrinja a cama para o sono e o restante da casa para o resto das atividades do casal. 🙂

Todo bebê merece pais descansados.

Bom descanso!

21 meses, 4 anos e 8 meses

Em breve Alexander e Cecilie completam 2 anos. Em breve Matias completa 5 anos. O tempo passa e passa rápido.

Eu ainda estou em casa cuidando deles a maior parte do tempo, mas estou acabando a faculdade, então fiz duas disciplinas esse semestre. Uma para escrever o tal do Trabalho de Conclusão de Curso, vulgo TCC, e outra sobre Teoria da Orientação.

Estou num período em que tudo está se conectando a tudo. Então mesmo as teorias acadêmicas mais ásperas encontram conexão com meu dia a dia. Meu TCC foi sobre Análise Epistêmica Crítica do Discurso e isso envolve conceitos cognitivos que, naturalmente, encontraram sua conexão com meus questionamentos existenciais. E esses questionamentos fazem parte do meu dia a dia materno. O curso de orientação foi diretamente conectado à minha maternagem. Como orientar meus filhos da melhor maneira possível? Como fazer deles sujeito de suas vidinhas? E como respeitar a subjetividade da existência deles sem impôr a minha e torna-los objeto?

Junto a isso, voltei a ler sobre o Círculo da Segurança, vulgo Teoria do Apego na prática [ainda vou escrever posts sobre isso, mas ainda me encontro ruminando o que leio sobre isso. Ainda não dá pra pôr pra fora]. Enfim, todas essas leituras e releituras, questionamentos e ruminações filosóficas têm me destruído e reconstruído com muita frequência.

Um ótimo exemplo: eu sempre gostei de usar a chamada Regra de Ouro como norte para minhas ações. A Regra de Ouro diz que devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fosse feito – ou que não façamos aos outros o que não gostaríamos que nos fosse feito. Sempre achei a regra linda! Eu quero tudo de bom pra mim. De acordo com a regra, vou fazer tudo de bom para o outro.

Só que não é bem assim.

O outro não sou eu! Lançar meu julgamento sobre o que é bom em cima do outro é mascará-lo. É vesti-lo de Helena sem mesmo perguntar se pode. O outro também é sujeito, assim como eu. E só ele sabe o que é bom pra ele. Subjetivamente, eu só sei o que é bom pra mim. Essa idéia de fazer o melhor pelo outro causa guerras! Isso mesmo! Eu disse guerras! O ocidente invade países do oriente e força democracia goela abaixo. Exige que se realizem eleições livres e democráticas. Eleições feitas, o povo elege ‘ditadores’, ou quem quer que seja que não esteja de acordo com as idéias que gerem ganho econômico ao ocidente. Logo, é guerra! Golpe! Sanções!

A gente veste o outro com nossa roupa – seja ela pequena ou grande demais -, e não consegue aceitar o fato de o outro agradecer o gesto, mas devolver a peça.

A gente faz isso o tempo todo. A gente faz isso com nossos filhos. ‘Meu filho vai ter tudo o que eu não tive.’, ‘Meu filho pode ser o que ele quiser. Médico, advogado, dentista. Gari? Nunca!’ A gente cobre nossos filhos com nossos sonhos frustrados. A gente esquece que eles também são sujeitos. Sujeitos de suas vidas.

A Regra de Ouro continua sendo linda e válida em situações objetivas, tipo, ‘bater ou não bater?’ Mas nas zonas cinza, ela é falha. O outro merece ser protagonista da própria vida, da própria existência.

Como mãe, me cabe garantir que meus filhos tenham tempo e espaço para organizar as próprias idéias, traçar seus planos e caminhos. E como a mão do Circulo da Segurança, eu só preciso estar disponível. Disponível para me deleitar neles, e recebe-los quando se sentirem inseguros, machucados, cansados. Eu só preciso ser o porto seguro. A exploração do mundo fica a cargo deles.

Mas essas são divagações minhas. Coisa de ser humano em constante transição.

Agora, mais sobre as crianças:

  • Ainda amamento em livre demanda, 24/7 [Yey!]
  • Alexander e Cecilie começam na creche em agosto [Yey!/Buá!]
  • Matias continua crescendo e surpreendendo a gente [já corrige meu norueguês, hunf!]

Um abraço.

O tempo voa – 6 meses

Alexander e Cecilie completaram 6 meses no último dia 15. E nossa, como o tempo passou rápido.

Na verdade nem sei bem o que escrever agora, mas pensei que, seis meses é um marco. Especialmente para a amamentação. Então vamos às divagações.

Consegui amamenta-los exclusivamente, em livre demanda, durante esses seis meses. Eles nasceram um pouco antes do tempo, então o desenvolvimento não está bem de acordo com a idade cronológica.

Alexander ainda está feito macarrão, super mole. Mas começou a virar antes de Cecilie que é um pedacinho de pau desde que saiu da barriga. Ela não ficou muito atrás. Dois dias depois ela também começou a virar. Ele passou a dormir de bruços, e acorda quando não consegue virar. Ela dorme de lado e vira, geralmente, quando está no chão, brincando. No chão, ele prefere se balançar de um lado pro outro. Mas é na cama que eles gostam de fazer estripulias. Ambos já tentam usar as pernas e pés, como se fossem engatinhar.

Mas Alexander ainda está muito mole. E isso me preocupa às vezes. Uma das desvantagens de ter gêmeos é que, mesmo que racionalmente não queiramos compara-los, inconscientemente o fazemos. E a diferença entre os dois é bastante grande. Nasceram com uma diferença de 90g, mas o desenvolvimento e crescimento tem sido bastante diferente.

stickers-michelin.jpgCecilie puxou a família do pai, e Alexander a minha. Nas curvas, ela está acima da média norueguesa, e Alexander muito abaixo – Matias fica em algum lugar entre os dois, mas abaixo da média norueguesa. Ela já pesa pouco mais de 8kg, ele ainda não chegou a 7kg. Eles estiveram doentes. Pegaram uma virosa de Matias. Cecilie tinha febre e eu não percebi. Ela continuou brincando como de costume. Alexander ficou super mal. Teve muita febre. Ficou afônico. O vírus se espalhou para os ouvidos e ele teve otite viral e a otite rendeu uma otorréia doida.  Só amanhã terminamos o tratamento da otorréia. Graças a Deus, ele deixou de mamar por um período curto e depois voltou a mamar como de costume. Mas perdeu peso por conta da febre. Cecilie segue engordando. Parece o boneco da Michelin.

A diferença de peso não é alarmante. Acho que a moleza do corpo dele me incomoda mais. Já estivemos com a fisioterapeuta duas vezes e de acordo com ela, ele está se desenvolvendo normalmente, no tempo dele. Antes, quando o colocava de barriga para baixo, ele virava um arco. Ficava com as mãos e pés no ar, arqueando as costas. E chorava muito. Agora ele mesmo vira e já brinca de barriga para baixo. Mas reclama quando não consegue desvirar. Já tenta se movimentar com a ajuda das pernas e dos pés, como se fosse engatinhar e tal. Escrevendo isso agora, noto que a diferença nem é tão grande assim. Neuras da maternidade.

Ter um bebê doente já é ruim em si, mas pior que isso foi não ver Alexander sorrir por dias a fio. Dizem que uma mãe está sempre tão feliz quanto o filho mais triste. Isso nunca fez tanto sentido pra mim como durante essas semanas. Brincava com Matias e Cecilie, mas por dentro estava tão silenciosa quanto Alexander. Não ver o sorriso, não ouvir os barulhinhos dele… Foi doloroso. Esse foi meu termômetro. Enquanto ele não volta a sorrir, ele não está bem. E eles me fazem rir. Como me fazem rir.

Cecilie parece um sol quando ri. E ela ri o tempo todo. Quando acordo, sou presenteada com aquele sorriso largo e sincero. Desses que escapolem pelos olhos dela e enchem os meus. Quando ela vê Matias de manhã, derrama o mesmo sorriso para ele. E gargalha quando brincam. Alexander gosta de rir alto. Gosta de cócegas. Action. Ele ri gostoso. Faz os barulhinhos mais gostosos. Balbucia muito. Acho que esses dois me farão rir com gosto, muito, mas muito gosto. E já o fazem.

12832348_1529410737361928_6380072557004094298_nMas, diferentes de Matias, são reservados. Matias é super social. Se jogava no colo de estranhos, ou melhor, estranhas. Sempre sorriu para todo mundo. Hoje conversa com estranhos, ou melhor, estranhas, no ônibus, no ponto, na rua. Alexander e Cecilie ficam em silêncio. Observam. Não riem, não fazem barulho. E, com gêmeos, vira e mexe me pego na situação de um dos dois estar chorando no carrinho e um estranho, ou melhor, estranha, se oferecer para segurar. Toda vez que isso acontece e alguém segura Cecilie, eu pago o pato. Ela fica quieta no colo da estranha, mas logo que volta para o meu, chora como se brigasse comigo por deixar alguém estranho segura-la. Quando um estranho segura Alexander, ele geralmente não pára de chorar, e ainda chora mais.

Quando recebemos visitas, também ficam bastante quietos. Nossa última experiência foi no sábado. Recebemos amigos para jantar. Casa cheia. Mais ou menos na hora de coloca-los na cama. Cecilie foi em alguns colos, mas sempre quieta. Nada de sorrisos. Alexander parecia estar “aguentando” aquilo tudo, esperando que acabasse pra vida voltar ao normal. Ficou bastante quieto. Fez uns barulhinhos enquanto um outro bebê começou a mexer na perna dele. Dormiram. Alexander acordou um pouco mais tarde, como de costume, e participou de algumas brincadeiras com os outros bebês e Matias, mas no colo do pai. Observando.

Meu sogro comentou numa das últimas vezes que esteve aqui, que não vê Cecilie sorrir. Alexander gargalha quando minha sogra o pega. Ela não precisa fazer absolutamente nada, e ele já gargalha. Meu sogro não tem a mesma sorte. Mas Cecilie é a mais séria. Ela simplesmente não sorri. Encara as pessoas, mas não sorri mesmo. E na verdade, eu já sabia que eles não seriam “dados” como Matias. E acho até bom. Sempre tenho medo de que  Matias seja levado por um estranho, ou melhor, uma estranha. Com esses dois tudo fica mais simples, hehehehehehehe. Mas agora estou pensando em criar coragem, e na próxima vez que um estranho, ou melhor, estranha, se oferecer para “ajudar” e segurar um dos bebês, vou ser sincera. “Obrigada, mas, não, obrigada!”

Observo que, com gêmeos, em muitas situações, as ajudas, de modo geral, me causam mais problemas. Eles já estão acostumados a esperar. E, geralmente, quando um chora, o outro para e se acalma ouvindo o choro, até que o choro se transforme em barulhinhos ou cesse. Hoje Cecilie chorou um pouco no carrinho enquanto estava na cidade. Alexander estava quieto, ouvindo. Já dentro do ônibus, tirei Cecilie do carrinho para que ela parasse de chorar. Ela parou, mas Alexander começou a chorar imediatamente. Eles não se vêem no carrinho, mas se acalmam com os barulhinhos do outro. Se estiverem perto um do outro, eles se consolam. Hoje de manhã Alexander acordou chorando. Cecilie imediatamente segurou a mão dele e ele parou de chorar, e eu pude cochilar mais um pouquinho 🙂 .

Ah, e sobre a introdução alimentar… eles ainda não estão prontos. Não estão interessados em comida, e o reflexo de cuspir ainda é muito forte, especialmente em Alexander. Tentamos no domingo. Nada feito. Quero fazer o BLW com eles também. Só a idéia de enfiar colheres de comida goela abaixo em dois bebês já me estressa. Não há nada mais relax do que BLW. Foi assim com Matias, e assim será com eles. [Falei do BLW nesse post]. Tentaremos de novo na próxima semana.

E para comemorar os seis meses, aqui vão fotos dos bebês.

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Um abraço.

O ciúme do irmão mais velho

E vamos falar do elefante no meio da sala. Vamos falar de Matias e a reação dele com a chegada dos irmãos.

“É imprescindível ensinar nossos filhos a oferecer, a cuidar dos demais de acordo com as capacidades de cada um (…). Quando compreende que tem algo a oferecer, se transforma em uma criança feliz (…). O nascimento de um bebê permite aos adultos exercer a tarefa de fortalecer a irmandade, colocando os irmãos maiores no lugar destacado que ocupam na visão dos menores. Esse lugar preferencial é, em geral, de admiração (…). Em vez de procurar sempre o que a criança quer receber, saturando-a com presentes e atendendo a qualquer pedido desmedido, devemos coloca-la em posição de oferecer (…).
Laura Gutman em A maternidade e o encontro com a própria sombra, p. 215

Bom, como contei no relato do parto, naquela fatídica noite Matias adormeceu sobre o puff da sala com o pão na boca. O avô veio ficar com ele que dormiu bem. Na noite seguinte os avós preferiram leva-lo para a casa deles em vez de ficarem aqui. Foi a primeira vez que ele dormiu sozinho, sem um de nós dois. Parece que tudo correu bem, exceto pelo fato de ele ter “expulsado” a avó do próprio quarto.

Logo no dia seguinte ao parto ele pôde nos visitar no hospital. Confesso que não lembro bem como foi isso. Mas lembro que não houve nada negativo em relação aos irmãos. Ele estava curioso e, se me lembro bem, segurou até um dos dois no colo.

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Viajando com o papai. Soube mais tarde que ele não estava acreditando em algo que o pai contou, por isso essa expressão incrédula.

Eu tinha lido algumas coisas sobre “como contornar o ciúme” e tal, mas sabia que teríamos que observar as reações dele para agir da melhor maneira. Ele já vinha perdendo terreno desde a gravidez. Participar das ultras, poder sentir os bebês chutando na minha barriga foram formas gentis de introduzir os bebês à realidade dele antes do parto. Depois de um tempo ele falava para minha barriga “Ei! Vocês não podem ficar chutando a barriga da minha mãe, não! Isso dói!”

Eu não sabia bem o que esperar, e não tinha condições de me ocupar muito dele nas primeiras semanas.  Morten era pai e mãe dele. E já próximo ao parto, Morten já era o porto seguro dele. Já chamava pelo pai quando acordava no meio da noite e já tinha aceitado que eu não o poria na cama como antes. Algumas vezes não aceitou meu consolo. E depois das duas primeiras semanas livres de Morten que voltou ao trabalho, eu voltei a ficar sozinha com as crianças e minha mãe. A partir daí Matias começou a reaver um pouco do território perdido. Eu voltei a coloca-lo na cama, mesmo que correndo no começo.

As mães costumam funcionar com sentimento de culpa, então retêm o filho mais velho em casa para que não se sinta deslocado, ou não pense que não o ama tanto como antes. O fato é que a criança fica horas esperando que a mãe acabe de amamentar, que coloque o bebê para dormir, que tome banho porque ainda está de camisola… E, quando mal começaram a compartilhar o lanche, o bebê volta a acordar! A mãe tem a sensação de ter cuidado do filho que ficou em casa, mas para a criança teria sido mais proveitoso sair para passear com a avó e voltar depois para se relacionar durante um tempo curto, mas produtivo, com uma mãe mais aliviada.
Ibid., p. 216.

Logo nas primeiras semanas ouvimos algumas vezes ele afirmar que queria “ir morar com os avós”. Quando voltava de lá, chorava. Não queria vir pra casa. Ficava chateado com as visitas que o esqueciam e só tinham olhos pros bebês. Em algumas ocasiões tomei os bebês das visitas para amamenta-los para que elas não tivessem outra opção além de dar atenção para ele. É interessante observar como bebês são ímãs. Eles atraem as atenções mesmo daqueles informados, dos que planejam dividir a atenção entre todas as crianças.

Apesar do ciúme, Matias nunca demonstrou sentimentos negativos ou fez algo maldoso com os bebês. As reações eram [e são] sempre direcionadas a nós. Na reunião na creche nos perguntaram se ele estava reagindo negativamente em casa, porque na creche ele era o irmão mais velho orgulhoso. Contava, cheio de orgulho, que tinha gêmeos. E isso eu observei na primeira vez que o levei a creche com os bebês. Quando chegamos na creche, ele ia andando na minha frente, apontando pros bebês no wrap, e anunciando à todos que passavam pela gente “Olha! Esses são os MEUS gêmeos!” Outra vez fui busca-lo e os bebês estavam no carrinho que ficou do lado de fora. A primeira coisa que ele me perguntou foi “Mãe, cadê meus gêmeos?”

Na verdade eu tentei fazer com que ele se sentisse parte “do grupo dos adultos”. Ele nos ajudaria a cuidar dos gêmeos. Nossa retórica era a de que ele agora era um rapazinho e ia ensinar as coisas aos gêmeos. E isso de ser “um rapazinho” foi usado em situações positivas e negativas. Desde a mudança ele tem o próprio quarto e dormiu lá uma noite inteira algumas vezes, mas com a proximidade do parto, voltou a vir para nossa cama durante a noite. Ele tinha começado a se interessar pelo desfralde. Mas desde o parto tem sido um passo a frente, dois atrás. Mesmo na creche soube que as tentativas têm sido frustradas ultimamente. Voltamos à estaca zero quanto ao desfralde. Uma vez eu disse que Alexander o ensinaria a usar o vaso. Ele rapidamente disse “Não! Sou eu quem vai ensinar as coisas, eu sou o irmão mais velho!” Quanto ao quarto, ele adormece lá, mas ainda vem pra nossa cama em algum momento durante a noite.

A rotina de dormir sofreu alterações. Quando eu estou sozinha com os três, a rotina é enxugada ao máximo. Troco fralda/dou banho, escovo os dentes, dou fluor, leio um livro, faço uma oração com ele e deixo o quarto enquanto ele ainda está acordado. No começo ele pedia para continuar lendo um livro, cantava e falava sozinho até adormecer. Agora ele adormece minutos depois de eu sair. Às vezes ele pede logo pra ir pra minha cama e dormir no meu quarto, com Cecilie e Alexander. Mas de modo geral, fica lá até que acorde no meio da noite. Já com o pai ele ficou mais exigente. O pai muitas vezes adormecia antes dele, cansado de esperar que ele dormisse. As coisas ficaram tão mais complicadas que agora Morten também sai do quarto enquanto ele está acordado. Mas somos diferentes também, e isso faz com que ele use estratégias diferentes com cada um. Eu sou mais dura. Se digo “não”, é “não”. Morten diz “não” e o “não” pode virar um “talvez”, ou mesmo um “sim” se ele pedir muito [:-p].

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Contando uma história pros irmãos.

Hoje ele se movimenta entre os times. Às vezes está no nosso time. Às vezes se isola. Às vezes monta seu próprio time com os gêmeos, e esse é o mais complicado, engraçado e bonito de se ver. Quando eu peço à ele que olhe os gêmeos pra eu ir ao banheiro, perco os gêmeos quando volto. Se um dos dois começa a chorar eu não posso tirar o bebê de perto dele, porque “ele está cuidando dos gêmeos”. Às vezes ele entabula uma conversa com os bebês… conta o que fez na creche, pergunta se eles querem brincar com Lego… eu me divirto. E agora, se Cecilie começa a chorar enquanto ele os olha, é comum ouvi-lo dizer “Cecilie, shhh! Pare de chorar! Não fique triste! Shhh!” E se eu pergunto da cozinha se tudo vai bem, ele responde rápido que “sim”, mas que “Cecilie estava meio triste e que ele já a consolou”.

De modo geral o ciúme apareceu e aparece em diferentes trajes, mas nada que não seja contornável. E a cada dia que passa, as coisas melhoram um pouco mais. É muito legal vê-lo preocupado com os irmãos. Ouvi-lo, todo animado, dar bom-dia para Cecilie e Alexander assim que acorda. Às vezes ele os acorda para brincar com eles – mesmo no meio da noite. Vira e mexe quer coloca-los no colo. Especialmente Cecilie… aliás, Cecilie. Está sendo interessante ver os três homens da casa voltados para ela o tempo todo. Mas ela será assunto para um dos próximos posts!

Você nunca mais vai dormir!

Ouvi a afirmação que dá título a esse post incontáveis vezes durante a gravidez. Ela é certamente verdadeira para a maioria dos pais de gêmeos, especialmente para aqueles que recebem esse presente logo na primeira gravidez. E ela também é verdadeira para a maioria dos pais de primeira viagem, mesmo que de um bebê só.

Mas ela não foi verdadeira em nosso caso. Acredito que o fato de ter sido nossa segunda gravidez ajudou bastante para que mantivéssemos a calma. E eu acredito que os bebês espelhem a mãe. Se ela se sente insegura, amedrontada, engolida pelas emoções, o bebê torna-se um reflexo disso. Essas sensações tendem a ser mais fortes na primeira gravidez.

De modo geral as grávidas de gêmeos ouvem sobre e esperam por todas as complicações possíveis, afinal são dois bebês que provavelmente nascerão antes do tempo, podem ter dificuldades no desenvolvimento, podem chorar mais, ter mais cólicas… e tem o simples fato de serem dois. Dois bebês que fazem o que todo bebê faz: choram! E eles choram! A idéia de tentar fazer com que não chorem é tarefa frustrada desde sua concepção. [Vou escrever um post sobre isso mais tarde.]

Quem vem acompanhando o blog desde o começo sabe que sou adepta da Criação com Apego, o que significa não deixar o bebê chorar sem consolo. Fizemos isso com Matias. Ele quase não chorava. Para tudo, a melhor solução era o consolo que só o peito oferece. O mesmo já não é possível com os gêmeos, mas contarei mais sobre isso num outro post. Bom, então vamos começar pelo começo e falar dos gêmeos.

Os primeiros dias no hospital

Minha mãe chegou no dia seguinte ao parto e eu fiquei no hospital nos primeiros três dias. Dessa vez fiquei no mesmo prédio em que as crianças nasceram, mas no andar de baixo. Alexander não pegou o peito nas primeiras 24 horas depois do parto. Só queria dormir. Foi considerado de baixo peso e por isso precisou de leite logo após o nascimento. Neguei o NAN e ele recebeu leite materno do banco de leite nas primeiras mamadas. Tudo no copinho. Cecilie nasceu um pouco acima do limite de baixo peso e as enfermeiras já queriam que ela também entrasse no esquema de NAN a cada 3 horas. Negamos. Ela sugava bem e constantemente. Só ficou no peito.

Alexander recebeu leite do banco – entre 5 e 10 ml – nas primeiras 3 mamadas pós-parto e mamada inicial e depois passou pro NAN nas próximas 8 mamadas – também entre 5 e 10 ml. As enfermeiras os levaram para a enfermaria nas primeiras horas da primeira noite pra que a gente descansasse. Logo uma enfermeira voltou com Cecilie nos braços. Ela chorava muito e acordava as outras crianças. Comigo na cama, ela dormiu. Às 6 horas da manhã Alexander voltou. Já no “esquema” de 3 horas – e entrou na fórmula. Então começamos a estimula-lo a sugar antes de cada mamada. Cecilie não apresentou dificuldade alguma para mamar. A voracidade com que mamou logo após o parto se manteve.

Já de tarde, uma das enfermeiras que veio com o NAN pra Alexander disse que ele “não precisava sugar”, que “era mais importante manter o intervalo de 3 horas”. Minha deixa 🙂 Precisei “colocá-la de volta no banco escolar”. Deixei claro pra ela que meu objetivo era o de que ele mamasse no seio, na hora que quisesse e que eu não tinha NAN nem mamadeira em casa. Pedi que o deixasse comigo, sugando, e que eu a chamaria quando achasse que ele deveria tomar a fórmula. Ela saiu, um tanto contrariada. Uma outra enfermeira veio “conversar” comigo para tentar me convencer a dar fórmula pra Cecilie. Em resumo, conto que Cecilie nunca tomou uma gota de fórmula na vidinha dela [mãe-mamífera empoderada e orgulhosa hehehehehe].

Já no segundo dia Alexander “acordou” e voltou a sugar. Suspendemos a fórmula de imediato e ele ficou como está hoje, só no seio. Eu os amamentava simultaneamente num travesseirão de amamentação dupla. Dormia com esse travesseiro. E tudo correu bem nesses três primeiros dias de hospital. Recebi a visita de uma das médicas do parto no segundo dia e de Ranghild, a parteira do parto, no terceiro dia.

Mais tarde soube que há toda uma rotina “ensinada” às mamães de gêmeos no hospital. Ela inclui, entre outras coisas, a amamentação simultânea, a complementação e o intervalo de 3 horas entre as mamadas. No meu caso, enquanto estive no hospital, uma das enfermeiras comentou que eu tinha virado a sensação da maternidade porque “não tinha medo dos bebês” e “ficava com os bebês em cima de mim o tempo todo, no peito, no ombro, no braço…”. Acho que desistiram de me dar as dicas da rotina. Alexander manteve o intervalo durante as primeiras semanas, mas hoje já não o faz mais. Cecilie nunca entrou nesse ritmo. Mas durante a noite, sempre acordavam mais ou menos juntos para mamar.

A chegada em casa

Segurar 3 crianças ao mesmo tempo é complicado mesmo pra vovó experiente.

Segurar 3 crianças ao mesmo tempo é complicado mesmo pra vovó experiente.

Chegando em casa, ainda com o corpo meio “frouxo”, foi ótimo ter a minha mãe perto. Hoje olho para trás e lembro com gratidão e ar de riso as primeiras 5 semanas. Eu não me ocupava de mais nada além de amamentar, comer e dormir. E para eu comer… nossa! Minha mãe segurava um, Morten segurava outro e eu ia pra cozinha fazer minha ceia antes de dormir. Eles choravam… é engraçado lembrar das expressões dos dois enquanto seguravam as crianças. Ouvir um bebê chorar é complicado, ouvir dois é angustiante, estressante e tudo mais de -ante que se possa imaginar. Eles só sossegavam comigo. Durante o dia as coisas iam bem. O problema era a ceia. Era nessa hora que eles exigiam estar dormindo colados à mim. Mas com o tempo as coisas melhoram. E já melhoraram.

Dessas semanas eu lembro bem de logo sentir uma vontade louca de poder sair de casa, ir passear, ir à cidade… afinal, eu estava presa em casa desde a vigésima semana de gravidez. Eu queria retomar minha vida, minha rotina. Cuidar de mim, do marido, da casa e dos filhos. Mas depois de um parto natural gemelar, o corpo precisa de um descanso.

Minha mãe foi embora depois de 5 semanas e a partir da sétima semana eu estava livre de novo. Voltei a levar e buscar Matias na creche, fazer janta, cuidar [um pouquinho] da casa e voltei para a vida real.

E nada foi como eu esperava. Na verdade, ouvir as “opiniões” de pessoas sem filhos ou de pais de 1, 2, 3, 4 filhos de gestações únicas foi bastante assustador, e às vezes até desanimador. As mamães de gêmeos dos grupos de apoio de que faço parte tinham informações muito pertinentes e dicas valiosíssimas. E a frase que mais ouvia delas era: é mais complicado, mas sempre dá tudo certo e as coisas vão melhorando a cada dia. Dito e feito: Eles mamavam e mamam bem, dormem bem, crescem e se desenvolvem normalmente – com o atraso no desenvolvimento cognitivo de quase 1 mês, já que são bebês de termo precoce. Ganham peso como devem, seguindo suas curvas, e a diferença entre eles é tão grande quanto aquela entre qualquer um deles e Matias. São gêmeos no fato de terem sido gestados simultaneamente e nascido no mesmo dia. Mas são diferentes.

Hoje estão com 4 meses e meio. Cecilie é claramente maior que Alexander – ela se encontra no meio da curva de crescimento de bebês noruegueses do sexo feminino de gravidez única, e ele na curva inferior para meninos. Alexander e Matias são pequenos como as crianças brasileiras. Cecilie é grande como as crianças norueguesas. Ela adora peito, golfa muito, mama em livre demanda. Ele mama moderadamente, golfa pouco, mama em livre demanda, mas começou a dormir “a noite inteira” há algumas semanas. Ele desperta, puxa o cobertor, ou vira pro lado e volta a dormir por até 8 horas seguidas. Mama bastante ao acordar. Mas é “tipo B”, ou seja, gosta de ir pra cama tarde e acorda tarde. Cecilie é “tipo A”, dorme cedo e acorda cedo. [Matias fica num meio termo.] Eles dormem no berço ou na minha cama. Geralmente Alexander no berço e Cecilie na cama comigo. Mas se ele acorda por qualquer motivo, ela vai pro berço e ele fica na cama. E sempre tenho os momentos em que os dois ficam no berço [ou os dois ficam na cama]. As diferenças entre eles facilitam o tratamento individualizado, apesar da gemelaridade.

Posso tentar resumir dizendo que a vida com três crianças pequenas é bastante frenética. Dou graças à Deus por estar aqui, onde posso ficar em casa com essas crianças e ser mãe por tempo integral antes de retornar ao trabalho [mas já voltei aos estudos]. Morten ainda se ocupa das coisas de Matias quando está em casa e eu me ocupo da dupla. Quando ele viaja eu me viro nos trinta. Levar e buscar Matias na creche, fazer a janta, manter a casa em ordem, coloca-los na cama e conseguir um tempinho pra mim… Quando ele volta dá um alívio… alguém para dividir a carga, as gargalhadas e as frustrações – porque nossos dias não têm nada de perfeitos. Uma bola dentro salva a lavoura, mas às vezes são muitas bolas fora pra desanimar qualquer um. Aí, o melhor é fechar os olhos, respirar fundo, contar até dez e recomeçar. No final das contas, o saldo tem sido sempre positivo.

E acabo de perceber que vou precisar escrever posts individuais sobre cada um dos milagrinhos. Quanto à Matias, bom esse assunto fica pro próximo post. 🙂

[unPUBLISHED] Conversando comigo mesma – 34 semanas

::Esse post foi escrito a 34 semanas de gravidez, em 19 de agosto de 2015, e hoje talvez faça mais sentido do que fez no momento em que foi escrito. Reflexões tão minhas, e tão verdadeiras.:: 

Quando essa montanha-russa saiu da plataforma eu estava bastante ambivalente, insegura, contrariada e receosa do futuro que se delineava diante dos meus olhos. Essas sensações alternavam com outras mais positivas. Surpresa, curiosidade, ansiedade, sensação de poder tudo, invencibilidade e força.

Ao longo da gravidez, todas essas sensações, tanto as positivas quanto as negativas, foram se tornando menos graves e mais moderadas. Dando espaço para outros tipos de considerações. Me conheço bem, e sei que estou longe de ser “perfeita”. Sei que o objetivo de atingir a perfeição é ilusório e vazio. Em se tratando de filhos, ser bom o suficiente basta. Eu erro todos os dias, mas preciso buscar fazer o melhor que posso em cada pequena situação que se apresenta no dia-a-dia.

Hoje fico tentando imaginar minha vida com três crianças. De repente três. Simples assim. Procuro não pensar muito sobre a espiritualidade e subjetividade por trás dessas decisões da natureza. Pelo menos por agora. Noto que uma certa calmaria tem me tomado. Seria “o silêncio que antecede o esporro”? Não sei. Mas meu espírito está calmo. De todos os cenários que pinto hoje, nenhum é desesperador ou completamente descontrolado.

Na verdade tenho toda a possibilidade de conseguir, junto com Morten, viver bem esse tempo que ainda está por vir. Ele faz a parte dele como pai, e me permite mergulhar na imensidão do puerpério. É, do puerpério, porque a gravidez e o parto são só os umbrais de entrada do puerpério.

E o puerpério… ah, esse, sim, nos põe à prova. É nele que minha sombra faz morada. E eu tenho, na verdade, a oportunidade de mergulhar nessa imensidão negra durante o tempo que for necessário e descobrir mais de mim enquanto descubro outros dois seres. Não planejo mais nada além de viver esse tempo.

Meu norte nessa caminhada é dormir sempre que possível e amamentar sempre que solicitada. Não me deixar ser sugada para fora do mundo sensível para satisfazer as exigências sociais. Eu preciso desse tempo. Tempo de ser mãe e mais nada. E esse tempo inclui Matias, e Morten. Nossa pequena família. É tempo de andar com os seios de fora, de rejeitar visitas, tempo de dar-se mais do que dar, e receber daqueles que escolhi ter bem perto.

Mas estou calma. Chegamos a 34 semanas. Em algum momento entre hoje e 5 semanas chegam Alexander e Cecilie. Meu sentimento hoje é de placidez. De espera paciente e resignada. A partir do momento que entrar em trabalho de parto posso entregar o volante à natureza humana. Ela se encarregará de tudo, desde que eu assim permita.

Mas os ajustes serão necessários. Vamos precisar aprender a ser cinco. A nos dividir e multiplicar. A nos conhecer mais uma vez. A nos amar de formas diferentes, e descobrir outras formas de amar.

15.09.15 – O segundo grande evento

A anunciação

Fomos para o controle com a médica e, por intervenção divina, a médica que me atendeu foi a mesma de quem já falei no VLOG. Uma senhora, experiente, chefe etc. Ela fez as novas medidas dos bebês. Alexander estava 15% menor e Cecilie 16%. Tudo completamente normal. Ambos seguindo sua curva de crescimento individual. Ela concordou comigo que o melhor é mesmo que os bebês fiquem na barriga tanto quanto possível, e que eu não precisaria de epidural, a menos que fosse necessário. Concordamos também que o ideal seria que o parto iniciasse por si só, contei que já havia entrado nos pródromos e ela então marcou a indução para o dia em que completaríamos 39 semanas. Eu estava disposta a aceitar a semana 38, mas ela também queria me dar tempo suficiente para entrar em trabalho de parto naturalmente. Ao final do controle, depois de sanar todas as nossas dúvidas, jogar por terra a idéia tosca de indução na semana 37, e dissolver toda nossa preocupação quanto ao crescimento dos bebês, ela disse: você vai parir como uma deusa!

14.09.15

Fui para mais um controle com a parteira. Fui direto para a sala de CTG. Duas parteiras tentando encontrar e separar os batimentos cardíacos dos dois. No processo, constatou-se que minhas contrações estavam bastante regulares e um tanto fortes. A parteira sugeriu que eu ficasse no hospital por mais umas horas para ver se entraria mesmo em trabalho de parto. Morten estava em Stavanger, eu precisava fazer janta para Matias, meu sogro ia busca-lo na creche dali duas horas. Achei melhor vir para casa. Não acreditei que aquelas contrações fossem fortes o suficiente.

Vim para casa e não consegui fazer a janta. Sugeri de última hora ir jantar na casa dos meus sogros. Fui com Matias para lá. As contrações não cessavam, nem ficavam mais espaçadas. Pensei em vir para casa, tomar um banho e ver como elas se comportariam. Minha sogra checou os horários dos trens e vôos de Stavanger para Kristiansand. Vim embora para casa com Matias. Estranhamente, ele estava tão cansado que adormeceu sobre o puff da sala com o pão na boca.

Comecei a contar o tempo das contrações. Elas vinham com intervalos de 3 a 4 minutos e duravam 1 minuto e meio. Eu não conseguia fazer mais nada, mas ainda queria o banho. Liguei para o hospital. A parteira do outro lado da linha disse que fosse para lá. Não tinha feito a mala, estava sozinha com Matias – que adormecera na sala, e eu não sabia como conseguiria leva-lo para cama – tinha que pedir a Morten que viesse o mais rápido possível. Ele comprou a passagem de avião. Tudo muito apertado. Tinha pouco tempo para ir pro hotel, juntar as coisas e ir pro aeroporto.

A parteira pediu que eu não tomasse banho em casa, mas que o fizesse no hospital. Liguei pro meu sogro para que ele ficasse com Matias. Fui fazer a mala. Matias não acordava nem a porrete. O coloquei no colo, subi as escadas e o coloquei na nossa cama. Sussurrei que o avô viria ficar com ele, que a mamãe ia pro hospital, mas ele não ficaria sozinho. Ele continuou dormindo.

Pedi o táxi. Meu sogro chegou, mais nervoso que eu. O táxi demorou, chovia. Quando avistei o táxi, lembrei-me que Morten estava com meu cartão. Não tinha dinheiro comigo. Como ia pagar pela corrida? Perguntei ao motorista se era possível pagar por fatura, ou que ele voltasse ao hospital em três horas, quando Morten já teria chegado com meu cartão. Meu sogro só resmungava com o motorista e dizia que eu estava parindo e que ele tinha que me levar pro hospital. Nada me parecia tão precipitado, mas já havia entendido que todos ao meu redor estavam muito mais ansiosos que eu. Parecia que eu estava a ponto de parir ali mesmo, antes de entrar no carro. O motorista só mandou que eu entrasse no carro e disse que depois resolveríamos. Assinei um termo de compromisso de que pagaria pela corrida mais tarde e deixei meus dados com o motorista.

Chegando no hospital, fui para o quarto. Estava com 3 cm de dilatação. Fui posta no CTG de novo. Um médico veio fazer uma ultra para determinar a posição dos bebês e ajudar a parteira com o CTG que mais uma vez coincidia. As contrações se mantiveram. Morten chegou. Por volta da meia-noite cheguei a 4 cm de dilatação. Os dois médicos do plantão vieram me visitar e falar um pouco sobre o que aconteceria. “É, esse parto acontece ainda essa madrugada”, disse o obstetra chefe. Começamos a nos preparar. E, enfim, pude tomar uma ducha. A água quente aliviava as dores das contrações. Aliviava tanto, que tudo parou.

As contrações continuavam fortes, mas se tornaram mais espaçadas e irregulares.

Era notória a ansiedade das parteiras que torciam e faziam o que podiam para que o parto acontecesse durante aquele plantão. O plantão noturno acabou, novas parteiras e novos médicos chegaram, e eu ainda estava lá, emperrada nos 4 cm.

15.09.15

Em cada plantão eu tinha uma parteira dedicada. Ela não atendia a mais ninguém, só a mim. A parteira que chegou pela manhã me colocou amarrada ao CTG, sem muita chance de pausa. Perguntei quem era o obstetra chefe daquele plantão. Era ela, a mesma que tinha feito meu último controle. “Nascendo neste plantão, fico tranquila”, pensei com meus botões. Mas a médica nem teve chance de me ver. A dilatação estava estacionada em 4 cm. Nada acontecia. Mas as contrações continuavam. O catéter da epidural foi posto no lugar às 11h45 e um teste foi feito. Minha perna direita ficou dormente e eu fiquei um pouco “aluada”. E passamos por mais uma troca de plantão.

Por volta das 15h30 conhecemos Ranghild. Minha nova parteira dedicada. Pedi que me tirasse do CTG. Eu precisava trabalhar com a dor, e amarrada na cama estava muito complicado. Queria andar, estar livre pra deixar que meu corpo ditasse suas regras. Ranghild me deu uma pausa pra ir ao banheiro e me movimentar um pouco. Mas eu desejava fugir das amarras da cama até o parto. Ela queria fazer uma leitura aceitável do CTG antes de me deixar livre. Me ofereceu bola, “prekestolen”, banho… mas ela, como as anteriores, não conseguia separar os batimentos cardíacos dos bebês e logo, os 20 minutos esperados presa ao CTG, tornaram-se  2 horas de monitoramento.

Com o aumento da intensidade das contrações, e o aumento da minha frustração por não poder trabalhar com a dor, entrei triunfante no segundo estágio da dor do parto: a raiva. De repente me vi com as dores do parto, amarrada à máquina, sem absoluta possibilidade de lidar com a dor de forma alternativa. Minha vontade era de bater na parteira e no meu marido, quebrar as janelas no soco. E eu dizia isso! Alto. Muitas vezes. Lembro de ouvir a parteira dizer: “Nossa, tô até com medo. Não vou chegar perto de você, não.” E riam.

A realidade bateu à minha porta, nua e crua. Mandei chamar o anestesista. A tão desdenhada epidural agora se fazia necessária. Eu não tinha condições de enfrentar as crescentes dores sem alternativa de alívio. O anestesista veio logo, mas, na minha cabeça, esperei por uma eternidade. Morten fazia massagens na minha lombar, o que me garantia alívio imediato, mas ele também ficava cansado, e minha vontade de bater em qualquer um deles aumentava cada vez que ele parava ou mudava a força ou o local da massagem.

O anestesista chegou, todo sorridente. Se apresentou e perguntou: “Tudo bem com você?” Minha dor respondeu: “Tudo ótimo! Tudo maravilhoso, não tá vendo?” Depois dos comentários que eu não ouvi, ele continuou o interrogatório. “Você é saudável? Tem alguma alergia?” Minha impaciência respondeu em voz alta: “Sou saudável, sim, exceto por essa loucura que acompanha a dor!” Na minha cabeça eu já tinha repetido, no mínimo umas três vezes: “Cala a boca e me dá logo essa epidural!” Eram pouco mais de 18h.

Ranghild tentava, sem sucesso, separar as leituras do CTG dos bebês. Chamou então o médico de plantão para que fizesse uma ultrassonografia. Eram 19h30. Essa ultrassonografia não só mostrou que os dois estavam bem, mas também que Cecilie tinha mudado de posição. Ela, que tinha estado em posição cefálica por semanas, havia virado. Estava na transversal, com o bumbum mais baixo que a cabeça. Tudo indicava que o parto dela seria pélvico. Ao mesmo tempo, observamos que a posição de Alexander, muito baixa na minha pélvis, dificultava mante-lo no CTG por cima da barriga.

Resolvemos então estourar a bolsa para que pudéssemos monitora-lo pela cabeça. Eram 20h. Um cabo com uma agulha na ponta foi inserido na cabeça dele. Assim não havia dúvida de seus batimentos cardíacos e sabíamos que aquele encontrado por cima da barriga era de Cecilie. Ainda assim pudemos observar que os batimentos estavam mesmo muito próximos. Ainda estava com 4 cm de dilatação. Alexander continuava encaixado e pronto para nascer. O líquido amniótico estava limpo.

Depois de estourar a bolsa o trabalho de parto voltou a ficar regular. As contrações ficaram mais frequentes, 4 a cada 10 minutos com duração de 60 segundos cada. O efeito da epidural era interessante. Eu não sentia a dor das contrações, mas sentia que iam e vinham. Agradecia a Deus e ao mundo pela epidural. Amarrada aos cintos do CTG, e com o fio na cabecinha de Alexander, minhas opções de movimentação eram bastante limitadas.

Pensava comigo que eu tinha aceito esse parto clinico. Tinha feito as pazes com aquilo que não poderia controlar. Mas estava contente de sentir o trabalho de parto, apesar da epidural e de todo o ambiente controlado e estéril ao meu redor. Faria o melhor possível com as opções que tinha. Não gostaria de deixar aquele quarto com meus filhos nos braços me sentindo roubada. O parto era dos meus filhos e eu ainda era a protagonista. Sentia meu corpo trabalhar. Acompanhava seu ritmo. Comecei a sentir pressão na pélvis.

Cheguei aos 10 cm de dilatação às 22h15min. Às 22h30min Ranghild ligou para a equipe. Logo o quarto, que era menor do que aquele em que Matias nasceu, se encheu de gente. Duas médicas, pediatras, enfermeiras. Éramos ao todo 8 pessoas no quartinho, e mais duas a caminho. As médicas eu já conhecia dos controles. Uma tinha feito meu check-up na semana 27, quando o canal cervical diminuiu, e a outra era uma nerd, super ocupada com a ciência e em fazer tudo perfeito. O plantão de Ranghild já estava se encerrando, mas ela ficou.

E de repente, para minha surpresa, senti vontade de empurrar.

Tinha em minha cabeça as imagens dos filmes e seriados em que, durante o parto com epidural, a mulher não sabe quando deve empurrar e precisa confiar nos aparelhos para empurrar na hora certa. Este não era meu caso. Não sentia dor, mas a vontade de empurrar estava lá.

Muitas instruções. Ultrassonografia constante. Foi confirmado que Cecilie estava pélvica e as médicas então nos explicaram o que aconteceria com ela. Alexander estava pronto pra nascer, de cabeça. Mas Cecilie teria o cordão umbilical pressionado entre o pescoço e a abertura vaginal, o que faria com que ela ficasse sem oxigênio por um curto momento. Manobras específicas seriam feitas para a retirada da cabeça que é a maior circunferência a passar pelo canal vaginal durante o parto, e por isso ela nasceria “mole, tonta, talvez até desmaiada” foram as palavras da médica. Pronto. Já sabia o que esperar.

Às 23h comecei a empurrar. Alexander veio ao mundo como esperado. De cabeça. Tudo tranquilo. Lembro de ouvir todos falando, e as vozes ficando cada vez mais distantes. Eu fechava os olhos e me concentrava em fazer o que meu corpo mandava. Todos falavam ao mesmo tempo. Enquanto eu empurrava Alexander para fora de mim, a médica nerd acompanhava Cecilie com o aparelho de ultra-som. Eu não dava um pio. Só avisava “vou empurrar”, e elas diziam “empurre sempre que der vontade”. E eu empurrava. Tomava ar, e empurrava mais.

Às 23h11min nasceu Alexander. As contrações cessaram.

Não tive tempo de vê-lo. Morten logo o teve nos braços. Eles foram para outra sala com ele enquanto as médicas e parteiras ainda observavam Cecilie. As médicas falavam entre si, e lembro de ouvi-las dizer que esperariam que ela viesse naturalmente, que não a “buscariam”. As idas e vindas do aparelho de ultra-som sobre a minha barriga continuavam. Morten voltou com Alexander, e o tive nos braços pela primeira vez. Logo observei que a respiração dele estava curta, superficial. Chamei Morten de volta para que o levasse ao pediatra imediatamente. Nesse meio tempo, os batimentos de Cecilie começaram a cair. Alexander saiu da sala novamente nos braços do pai e eu voltei a observar o que acontecia a meu redor.

A médica estava de pé, na minha frente e olhava minhas entranhas como quem assiste TV. E conversava com a outra médica. “Sim, estou vendo o pé dela. Ela já está descendo. Tenho que esperar o quadril.” Voltei a sentir vontade de empurrar. “Pode empurrar se tiver vontade”, disse ela. Ranghild permaneceu ao meu lado o tempo todo. Instruindo-me a só ouvir a médica que estivesse entre as minhas pernas e ninguém mais. Mas eu ouvia a todos, e respondia à todos. Cecilie desceu e ela finalmente pôde segura-la pelo quadril. Me fechei dentro de mim mesma mais uma vez. Silêncio dentro de mim, caos do lado de fora. Empurrava. Respirava, Empurrava. Vi os movimentos específicos que a médica fazia para tirar a cabecinha de Cecilie de dentro de mim. Até que saiu.

Às 23h32min nasceu Cecilie. De bumbum pra lua. Mole. Branca. Mole, muito mole.

Foi logo levada para a sala onde Alexander estava. A correria para cuidar de mim permaneceu. Mais uma parteira chegou. A preocupação era de que eu não sangrasse muito. Logo iniciaram ocitocina na minha veia. As placentas foram expulsas. Coladas uma à outra. A nova parteira decidiu me dar “uns pontinhos estéticos”, ela disse. Não houve laceração alguma. Os bebês voltaram. Foram postos simultaneamente em meus seios para mamar. Ofereci o seio aos dois que sugavam com uma voracidade de criança grande.

No dia seguinte ouvi que Alexander estava mesmo com a respiração superficial, mas que, assim que Cecilie entrou no quarto, todos os sinais vitais dele se estabilizaram imediatamente. A pediatra se disse espantada, porque lhe pareceu que ele sabia que ela precisaria dos aparelhos mais que ele e lhe deu o lugar na mesa de ressuscitamento. De acordo com Morten, Cecilie logo ficou corada e acordou. Não saíram do primeiro passo no processo de ressuscitamento – que é praxe em caso de parto pélvico.

Eu ainda fui perseguida pela parteira do plantão por algumas horas para garantir que eu não apresentaria hemorragia. Eu só queria me trancar num quarto com meus filhos e dormir. Dormir. Dormir.

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Como eles não esperaram a vovó chegar para nascer, não tiramos muitas fotos do evento.

Um abraço.

Indução do parto? – 36 semanas

Hoje completamos 36 semanas. Mais uma semana para então descruzar as pernas sem medo. Uma semana para aceitar de braços abertos as mudanças que se precipitam. Uma semana para ir do choro noturno de uma criança para o de três. Uma semana para ver meu mundo posto de ponta à cabeça num piscar de olhos.

As tão esperadas 37 semanas batem à minha porta. Meu corpo já dá sinais de que se prepara para mais este grande evento. E eu me preparo mental e espiritualmente para o parto de Alexander e Cecilie. Alexander está encaixado em posição cefálica e Cecilie ainda curte a liberdade do ventre, mas também em posição quase que totalmente cefálica.

Noto uma certa ansiedade daqueles a minha volta. Da família e dos médicos. Não tanto a minha. Já chegamos até aqui, agora é aguardar o tempo certo. Que tudo aconteça naturalmente. Que eles possam vir ao mundo quando estiverem prontos. A enxurrada de hormônios já altera meu corpo. Intestino solto, contrações constantes, regulares e não doloridas.

feminino_luarMinha alma parece estar sentada sob a luz do luar, sem pressa, sem medo, sem ânsia. Ela descansa e se prepara. Que venham, venham quando maduros e com saúde.

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O controle de 36 semanas

Hoje fizemos mais um controle extra com a médica. Ela não mediu as crianças. Achou melhor deixar para medir na próxima quarta-feira. Mas hoje ela falou em induzir o parto. Algo que não me agrada. A indução desencadeia uma série de outras intervenções desnecessárias. Deixei bem claro que a indução só me interessa se for baseada em necessidade clínica. Desejo que o parto se inicie por si só e quero evitar o uso de medicação contra dor.

Ela pediu para fazer um exame de toque para saber como o colo do útero está e, se eu assim permitisse e desejasse, ela faria um descolamento de membranas. Segundo ela, o procedimento só funcionaria se eu já estivesse pronta para parir, caso contrário, nada aconteceria. Acabo de ler um pouco sobre o procedimento em si, e bem, não me parece que hoje o procedimento me tenha causado prejuízo. Até agora as contrações continuam iguais.

Estou com 2cm de dilatação e muitas contrações regulares, mas que não se desenvolvem para o trabalho de parto. Depois que ela fez o toque, perguntou se poderia fazer o descolamento. Li que muitas mulheres sentem fortes dores durante esse procedimento. Eu não senti nada além de um incômodo. Ela me pediu que avisasse caso eu sentisse dor. Quando o incômodo poderia ter se tornado dor, avisei, e ela imediatamente parou o procedimento. Avisou que eu sangraria um pouco e poderia ter um certo desconforto nas horas seguintes.

Já disse aqui que o parto dos meus sonhos foi o de Matias, e que permitiria um controle dos médicos nesse, já que são gêmeos e isso causa muita ansiedade nas pessoas, e mesmo nos médicos. Mas eu ainda acredito que o parto iniciado e desenvolvido naturalmente com o mínimo possível de intervenção é o melhor. Meu corpo está pronto pro evento e os bebês também devem estar. Não vale a pena, nem é bom antecipar as coisas.

Também já disse que desde a semana 34 eles poderiam nascer – desde que entre em trabalho de parto naturalmente. Hoje penso que podem nascer a qualquer momento. Hoje, amanhã, daqui 3 ou 10 dias. Estou mentalmente preparada.   Mas desejo que eles também o estejam. E sinto que este é um evento iminente. Entendo ser melhor induzir o parto mecanicamente com o descolamento das membranas do que induzi-lo com ocitocina sintética que gera um monte de outros problemas por bloquear minha produção natural de ocitocina.

E ela falou numa possível indução com ocitocina na próxima semana. Marcou o próximo controle médico para a quarta-feira e combinamos que, se clinicamente necessário, induzimos na quinta-feira. Caso os bebês estejam tão bem quanto hoje, marcaremos controles posteriores e esperaremos que os bebês decidam quando virão ao mundo.

Mas sinto que podem nascer até antes mesmo de quarta-feira.

Um abraço.

35 semanas – Barriga e VLOG #1

Como prometido no post anterior, abaixo estão um vídeo com as acrobacias de Alexander e Cecilie e uma atualização sobre a gravidez. A atualização veio em forma de VLOG dessa vez.

Sei que muitos gostam de ler meus textos, mas às vezes é complicado sentar e colocar todas as idéias que tenho na tela. Então, dessa vez, resolvi “inovar” e fazer um vídeo.

Uma das diferenças entre escrever e falar, no meu caso, está na verborragia oral. Já é complicado me controlar quando escrevo, falando eu pareço uma foz. Matias tem mesmo a quem puxar. Tendo em vista minha total falta de controle oral, o vídeo original, na íntegra, tem 42 minutos de duração (!!!). Depois de assisti-lo, resolvi fazer uma edição mais curta, e essa tem 20 minutos. Essa versão, editada, é a que está publicada abaixo. Também vou deixar o link para o vídeo na íntegra para os curiosos e/ou masoquistas. Apesar do cansaço, espero que minha voz seja, pelo menos, agradável aos ouvidos, e meu sorriso amigável aos olhos 🙂

O VLOG foi gravado na última quinta-feira, dia 27. Dia em que estive no hospital para o controle da semana 35. O vídeo da barriga é uma coleção de vídeos que fiz com o computador, iPod e iPad ao longo das últimas semanas. Mas com todo o trabalho de edição no Mac – algo novo pra mim – e a sorte de ter tido minha linha telefônica cortada por um trator na sexta-feira, só hoje consegui publicar os dois vídeos em alta qualidade no Youtube. O VLOG integral está em baixa qualidade e não devo enviar uma nova versão até que minha internet esteja restabelecida. Nesse momento estou “roubando” o sinal de alguém da vizinhança e a conexão é bastante ruim.

Bom, assistam aos vídeos abaixo e depois dêem suas opiniões sobre o que acham melhor, VLOG ou texto, ou as duas coisas. É claro que, com dois bebês nos braços e mais Matias me dando 100 motivos para infartos por dia, vou precisar rever minhas publicações, a periodicidade e o formato que melhor se adequar à rotina.

Para os familiares deve ser bom me ver falando e ver a barriga, já que não fomos ao Brasil durante a gravidez dessa vez. Curtam e matem as saudades!

Então, vamos aos vídeos!!!

O vídeo na íntegra está disponível no canal do Youtube, https://youtu.be/kzC5leHHOVM.

ATUALIZAÇÃO: O berço já está no lugar, e as roupinhas lavadas! Yeay!

Um abraço e até o próximo post!

Um fusca, uma quitinete e um filho – 34 semanas

::::::::::::::: AVISO: Este post foi escrito sob forte influência hormonal!!! :::::::::::::::

 

postagem_passado-presente-ou-futuroCompletamos 34 semanas hoje e agora me vejo parada, olhando para o futuro bem próximo e para o passado, e tudo o que aconteceu até aqui. Ter um filho, e depois ter mais filhos me faz olhar pra trás e tentar descobrir se alguma vez, nos meus sonhos mais selvagens, eu pude imaginar viver o que vivo hoje, nesse exato momento.

Descubro que minha visão de futuro sempre foi bastante simples, limitada e completamente realizável, cabível entre os meus braços. Talvez não seja ambiciosa o suficiente para sonhar alto. Ou talvez eu realmente me satisfaça com pouco – não que isso seja negativo. Não sou o tipo que dá passos maiores que as pernas e aceito bem dar dois passos atrás para depois retomar meu caminho, com paz, segurança e tranquilidade.

Escolhi ser professora, entre outras coisas, pela estabilidade e segurança da profissão. Mas essa escolha não veio antes do terceiro ano do segundo grau. Nunca almejei ser rica ou famosa. Nunca sonhei ser paquita. Desde que me lembro, sonhava em fazer algo que me garantisse pagar as contas e viver minha vida, modestamente. Sonhava não precisar viver de empréstimos, mas acomodar minha vida ao meu salário. Que os estudos eram minha única opção não era nenhum segredo. Mas também não era a melhor aluna da turma. Fazia o necessário. Minha prioridade, consciente ou inconscientemente, sempre foi viver. Eu fazia o necessário para passar e vivia o restante do tempo.

Por muito tempo, olhava pro futuro e me via solteira. Com a vida em ordem, vivendo. Quando entrei pra faculdade, logo percebi que encontrar um parceiro acabava de se tornar ainda mais difícil e essa visão de futuro se sedimentava. Então passei a ver em meu futuro um filho. Biológico ou adotado, com ou sem marido. Mas um filho. Um fusca, uma quitinete e um filho. Alguém de quem cuidar além de mim mesma. O que, de certa forma, hoje me parece um tanto contraditório. A idéia de ter alguém dependente de mim não me agradava. Desejava um filho, que é o maior exemplo de dependência, mas ao mesmo tempo evitava todo e qualquer relacionamento, mesmo que de amizade, com pessoas dependentes. Talvez essas sejam dependências diferentes? Não me agradam os relacionamentos com pessoas emocionalmente dependentes, mas não me incomoda o fato de ter um bebê que precisa de mim pra tudo. Inclusive para sanar suas necessidades emocionais ao longo de seu  desenvolvimento. Algo para eu amadurecer e continuar pensando a respeito.

Quando comecei a me preparar para o mestrado, estava em um relacionamento sem futuro e sabia que esse passo, adiante profissionalmente, diminuía ainda mais minhas chances de encontrar um parceiro. Mas a idéia de um filho ainda estava lá. Um fusca, uma quitinete e um filho. Terminei o relacionamento.

Três meses depois, no meio do processo de entrada no mestrado, conheci Morten. Um gringo que estava no Brasil de passagem, se preparando para o doutorado em um outro país, sem interesse especial pelo Brasil. Eu estava fugindo de relacionamentos e tinha prometido pra mim mesma que meu próximo namorado se tornaria meu marido. Não posso dizer que ele não fazia meu tipo porque na verdade nem sei bem o que é meu tipo. Das pessoas pelas quais realmente me interessei ao longo da vida, o único ponto em comum era o de serem nerds. Mas ele tinha alguns detalhes que me fariam olhar pro outro lado se eu estivesse “na busca”. Mas eu estava desarmada. Ele estava desarmado. Não estávamos na busca. E assim nos pegamos interessados em ouvir um ao outro. Em saber mais.

Dois dias depois passamos 12 horas na praia, num dia nublado, frio e chuvoso, conversando. Ele me ganhou pela mente. Lembro como se fosse hoje que ao final do dia, depois do abraço amigável de despedida diante dos pais dele, a única coisa que pensava era: queria que ele fosse meu vizinho, para eu tê-lo disponível sempre que quisesse. Bater à porta a qualquer hora, sentar no muro e conversar, conversar e conversar. Queria que ele fizesse parte da minha vida, mesmo que como amigo. Um relacionamento não passou pela minha cabeça.

A partir dali tudo andou mais rápido e meu sonho de ter um fusca, uma quitinete e um filho ficou congelado. Parado no tempo. Esperando para ver o que aconteceria. E como esse post não é pra contar a história do nosso encontro que por si só dá um livro, vou pular uns anos. Depois de seis anos juntos e quatro anos tentando, tivemos Matias.

Meus planos de repente já não cabiam mais. Eu tinha um filho meu, e um marido que meu coração e minha cabeça, juntos, escolheram. Eu já não morava mais no Brasil e minha vida era simplesmente outra.

Depois que Matias fez 2 anos, eu já estava satisfeita com a minha vida. Um marido e um filho fantásticos, mantive meu trabalho e vim parar num país onde minha pouca ambição cabe. Aqui a maioria das pessoas quer viver. E isso basta. Agradecia à Deus a cada manhã pelo que tinha. A única coisa pela qual me restava lutar era uma posição fixa que me garantisse 100% do salário de um professor com mestrado.

Mas como se nada disso me bastasse, engravidei novamente. E de gêmeos.

Hoje eu olho para trás e pra frente e vejo quão pequena eu sou, quão limitada a minha visão é, quão simples meus sonhos e planos são (Isaías 55.9: “Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.”). E eu nem sei qual é o objetivo de viver todas essas coisas. Tanta gente almeja o que eu tenho, levanta da cama de manhã e luta por isso, faz o caminho das pedras. E às vezes me sinto culpada, porque parece que todas essas coisas me caíram do céu, sem esforço, sem que eu as tivesse buscado. Parece que eu dei a sorte de estar nos lugares certos na hora certa.

Mas a vida é muito mais do que os fatos físicos e palpáveis. Talvez essa vida seja uma recompensa por algo? Talvez uma pausa das lutas? Talvez eu precise reviver as coisas boas que estão fora do meu controle nessa vida para não esmorecer na próxima? Ou talvez eu esteja abrindo mão do controle nessa vida, deixando as coisas acontecerem naturalmente? Ou ainda, talvez eu esteja sendo preparada para a batalha que ainda está por vir nessa vida… Não sei, e não sei se quero pensar muito sobre isso.

Essas mudanças geraram perdas e ganhos. Mas aceito os ganhos e não sinto dor pelas perdas. Faço o melhor que posso com as cartas que me foram distribuídas. Abri mão da presença constante da minha família original para formar a minha própria (sempre lembro de Gênesis 12. 1: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.”). A saudade é relativa. Ela vem e vai, e pode estar presente mesmo que estejamos perto. E depois de um tempo longe a saudade é de coisas e pessoas que não existem mais. O tempo passa e tudo muda. Eu mudei, as pessoas mudaram. Os relacionamentos mudaram.

Nesse momento me basta olhar para trás e para frente – até onde minha vista alcança – e agradecer. Agradecer porque tenho um marido que é amigo, namorado, amante e parceiro; porque se eu tivesse que viver isso tudo de novo, escolheria ele outra vez para trilhar comigo esse caminho de descobertas e crescimento; agradecer pela dádiva de poder gerar não um, mas três filhos; agradecer pela possibilidade de poder vê-los crescer. Agradecer porque apesar de ainda precisar lutar por algumas coisas, elas são detalhes, e não tiram o brilho do que vivo. Da minha simples, ou não tão simples, vida.

Um fusca ainda é possível, a quitinete não acomoda mais a crescente família e quanto aos filhos, bom… isso você já sabe.

PS.: Fotos da barriga, um vídeo das atividades acrobáticas de Alexander e Cecilie e um update da gravidez virão no próximo post, nos próximos dias.