Sono – diferenças culturais

Então, como disse no último post, esse assunto já deveria ter sido abordado por aqui, mas me distraí com outras coisas. Já tenho outras coisas pra escrever, mas as primeiras coisas primeiro. Esse assunto já estava na fila.

Bom, na semana passada Morten e eu conversamos um pouco sobre “o sono do bebê”. Ele trouxe um artigo de jornal pra eu ler sobre, entre outras coisas, o “método de Ferber”. O “método de Ferber” é aquele de deixar a criança chorar no berço até cansar e dormir sozinha. De acordo com o artigo, escrito por uma mãe de 4 ou 5 crianças e palestrante no assunto “filhos” (porque aqui é assim, se você tem mais de 3 filhos, vira expert no assunto e pode cobrar pra falar disso), o método surgiu na década de 50 e é um completo absurdo, uma insanidade! De acordo com o artigo, eu disse! Ela diz que ninguém deixa um amigo chorar tanto sem querer saber o porquê de tanto choro, mas que vemos com naturalidade um bebê chorando até dormir.

Particularmente já fiz isso uma vez, não era meu filho e não gostei de ter feito. Mas segui ordens estritas dos pais para deixar a criança chorar até dormir. Foram 30 minutos que mais pareceram uma eternidade e uma covardia da minha parte.  MAS (sim, maiúsculo) não sou eu quem tem que colocar a criança para dormir todas as noites. O fiz uma vez. Não faço idéia da canseira que dá colocar uma criança para dormir todas as noites, seja ele manhosa ou não.  Não sei quão difícil é criar uma rotina para uma criança, mas sei que é muito fácil quebrá-la e depois deixar o problema por conta dos pais: quem pariu Mateus que o embale, né mesmo? Isso eu também não faço.

Por enquanto tudo o que disse é que “só sei que nada sei”.

Mas, pensando nesse artigo, com o qual não estou 100% de acordo, e nas diferenças culturais que nosso milagrinho vai precisar enfrentar, dá pra começar a pensar sobre nossa futura estratégia.

Uma das diferenças culturais cruciais que observo entre Morten e eu é exatamente “como dormir”.

No Brasil, uma criança cansada se joga no colo da mãe, no meio de uma festa com música alta, deita e dorme – depois de ter corrido, pulado, suado enfim, usado toda a energia que tinha.

No Brasil, um adolescente geralmente divide o quarto com os irmãos, e por isso aprende a tolerar muita coisa durante o sono. Na Noruega, um adolescente geralmente nunca dividiu quarto, e se o fez, foi por poucos anos, então não consegue dormir com outros no quarto que não estejam dormindo – no escuro e no silêncio absoluto.

Na Noruega, por volta das 19 horas os pais começam a preparar a rotina do sono pra criança. Colocar o pijaminha, ir pra cama, ler umas historinhas, cantar umas musiquinhas, apagar as luzes, e deixar a criança no quarto escuro  num ABSOLUTO silêncio para que ela durma.

Na teoria, a rotina norueguêsa é linda, e tem tudo pra dar certo. Mas na prática não dá! NUNCA dá! Explico:

A rotina de uma criança brasileira: acorda, come, corre, pula, tem espaço pra correr de suar e perder o fôlego. Se é criança pequena, fica no andador, se arrasta atrás da mãe, engatinha, enfim, usa a energia. E pais de crianças brasileiras não têm medo de açúcar! Isto é importante!

A rotina de uma criança norueguesa: acorda, come, vai pro quarto brincar de lego, ou de boneca, até trepa numas coisas. Se for criança pequena, é colocada no carrinho. A mãe precisa perder o peso que ganhou durante a gravidez, então ela pode passar umas 3 horas diárias na rua batendo perna com a criança no carrinho. E nada de açúcar! Açúcar é coisa do capiroto que transforma as crianças em pequenos diabinhos que atormentam os pais. Principalmente na hora de dormir!

Se a criança está em idade escolar no Brasil, ela passa meio período na escola e o resto do dia brincando na rua com os coleguinhas. Na Noruega elas ficam na escola em tempo integral e voltam pra casa quando os pais voltam do trabalho, por volta das 16h. Durante o tempo na escola, se for creche, a criança quase que escolhe com o que quer brincar, e geralmente não é nada ativo. Elas sentam em um canto e vão montar coisas, “bater-papo”, desenhar. O nível de atividade sobe se tem neve, mas caso contrário fazem uma caminhada para aprender a andar na rua etc. Até trepam em algumas coisas. Mas fica claro que o nível de atividade física diária de uma criança norueguesa é de modo geral um pouco mais baixo que o de uma criança brasileira.

Norueguêses têm casas imensas porque passam a maior parte do tempo dentro delas. Brasileiros podem morar num cubículo, mas as crianças sempre têm espaço do lado de fora pra pintar o sete e aprontar todas com os amigos. De certa forma, a criança norueguesa tem seu espaço físico restringido, enquanto as brasileiras têm seu espaço expandido.

Mas enfim, às 16 horas todos chegam em casa, vão preparar o jantar, e entre 19 e 21 horas as crianças têm que estar dormindo. Cheias de energia!!! Os pais mortos de cansados de mais um dia de trabalho escravo, e as crianças prontas pra começar mais uma brincadeira. Resultado: a teoria não dá certo! Eles não dormem! E aí entram métodos como o de Ferber, trancar a porta do quarto da criança, e outras bizarrices.

Cedo ou tarde elas aprendem  a dormir. Mas sempre fica o resquício de um mau hábito: o de dormir na escuridão e no silêncio absoluto. [Morten sofre até hoje pra dormir comigo hehehehehehe.]

Durante a gestação tudo o que a criança ouve é um barulho constante como o de um aspirador de pó, ou secador de cabelo [procure por “útero materno” no youtube pra ouvir – ignore a redundância]. A criança nasce ainda feto, ou seja, durante pelo menos os três primeiros meses de vida tudo em volta da criança pode ser irritante, e ela não está pronta para assimilar todas as informações desse novo mundo. Imagine: tudo o que ela conhece é um meio aquoso e barulhento com alterações na iluminação. De repente é jogada num ambiente seco, com diferentes barulhos que podem, sem mais mais nem menos, cessar, ter no corpo o contato com materiais antes nunca experimentados. O corpo se move por reflexos, e esses movimentos antes éram restringidos pela barriga, agora o bebê “se acorda” quando o reflexo é violento durante o sono. Tudo é desconfortável. E colocar um bebê pra dormir na escuridão e no silêncio não ajuda. A emenda fica pior que o soneto. Muitas grávidas dizem que é exatamente quando elas deitam pra dormir, no quarto escuro, que o bebê se mexe mais. Pode ser que pra eles seja mais confortável estar acordado quando não há luz através dos tecidos. Não sei. Mas acho que vale a pena tentar “simular” um útero quando a criança está irritada, ou não consegue dormir. Quando testar, conto como foi.

Mas nós adultos somos bem interessantes. Querer que um feto, do dia pra noite, se adeque às loucuras que nós impomos é no mínimo bizarro.

E a dona do artigo diz que abandonar a criança no berço causa depressão e ansiedade mais tarde. Se bem entendo, a geração da década de 50 – que segundo ela chorou até dormir -, hoje entre 50 e 60 anos, não sofre de depressão e ansiedade da mesma maneira que a minha geração sofre. E nós somos o resultado dessas idéias “revolucionárias” sobre como cuidar de um bebê. A população Samoa ignora completamente suas crianças até que elas sejam capazes de formar frases coerentes e completas, por volta dos três anos de idade. Acho que posso afirmar que a população Samoa sofre muito menos de depressão e ansiedade do que a população norueguesa – e não só por falta de dados estatísticos. Tudo é uma questão cultural.

Acho que o nosso milagrinho vai se consolar em dormir no barulho, com luz acesa ou apagada, em qualquer cama e quando estiver cansado. Até hoje lembro de meus pais indo dormir e dizendo “boa noite”, enquanto nós estávamos começando a assistir um filme de terror na sala. O único comentário além do “boa noite” era: “olha lá, amanhã vocês têm aula”.

E assim veio a responsabilidade.

Esse assunto rende pano pra manga de gigante. Então vamos parar por aqui. Por favor, mães e pais, leitores desse blog, dêem suas opiniões, contem suas experiências, dêem conselhos. Vamos precisar muito deles! É só escreverem seus comentários!

E aqui vão as fotos da semana.

7 pensamentos sobre “Sono – diferenças culturais

    • É só dizer o que precisa…
      Tem alguma experiência em colocar criança pra dormir? Com a tua experiência, podia ficar rica aqui na Noruega dando palestra sobre essas coisas. rs…

  1. Oiii Helena pois e ,e muito diferente mesmo aqui mais eu so muito de acordo com eles pois acho que crianca tem que ter rotina..Me lembro ate hoje quando eu estava no hospital com o Nicolai no colo balancando ele para dormir pois no Brasil muitas pessoas usam este metodo para ninar as criancas e a medica chegou pra min e disse Mae nao faca isso, coloque ele na caminha dele ao seu lado bote a sua mao dentro da caminha dele so para ele te sentir e deixe que ele ira dormir assim, pois foi bater e valer Nicolai nunca dormiu no meu colo e quando as vezes tento ele nao gosta ja acustumou a dormir sozinho e na cama dele…As vezes fico morrendo de vontade de deixar ele dormir comigo mais tento nao fazer pois sei que ele nao tera uma boa noite e nem eu. Ele comecou a acustumar eu sempre estar com ele na hora de dormir e entao toda vez que eu saia do quarto ele chorava quando eu voltava ele parava, converssei com minha medica e ela disse sabe o que vc faz coloque uma blusa sua usada na cama dele pois e do seu cheiro que ele precisa, mais uma vez bater e valer o moleque dormiu a noite toda…Umas das coisas que mais me chamou a atencao foi quando Nicolai teve uma febre muito alta, ele estava com 40 graus de febre eu fiquei louco liguei pra o hospital p levar ele ,e a medica me disse este e o seu primeiro filho?? eu disse sim, ela falou entao voce pega ele tire toda a roupa dele ,deixe ele apenas com uma fraldinha e uma camisetinha abre a janela para esfriar um pouco e daqui a 30 minutos voce me liga, pois voce acredita que a febre abaixou na mesma hora kkkkkkkkkk, eu no fim fiquei foi rindo pois eu penssei que era pra agasalhar ele kkkkkkkkkkk, Nicolai esta em uma fase agora que nossa senhora nao tenho tempo pra nada, mais e muito gostoso ser Mae…Nao tenho te visto no trabalho….Beijossss

  2. Poxa, tô me sentindo até mais mãe acompanhando seu blog (indiretamente sua gravidez tb…rs) e podendo trocar experiências. Ontem tava na academia e, comecei a conversar com uma menina sobre as aulas de jump e localizada, até ela me falar que tinha dois filhos, pronto! Em segundos, o papo mudou e lá estavam duas mães contando suas experiências…rs. Ela tem uma filha de 2 anos tb e me disse q ela ainda mama e, está sofrendo para tirar, comecei a falar pra ela como fiz com a Brenda. Enfim, mãe é isso aí, trocam experiências onde estiverem…..rs.
    Mas, pra não fugir do assunto. Eu nunca tive problemas pra fazer a Brenda dormir, mas também não a acostumei a dormir no colo. Na verdade, ela dormia como eu queria q ela dormisse. Se estivesse numa festa, como vc disse, ela dormia no meu colo, com ou sem barulho e luz. Em casa, colocava ela na cama, mas deitava, do lado dela até ela adormecer, quando dormia, colocava ela no cercado, que também é berço. Ela tem o quarto dela, mas nunca tive coragem de deixa-la lá sozinha, comprei o cercado e coloquei do lado da minha cama…rs. Até hj ainda não a acostumei no quarto dela, o que na minha opinião penso ser errado, mas meu instinto materno não me deixa fazer…rs.
    Quanto a horário, ela mesmo o faz! Ano passado ela estudava de manhã e dormia super cedo, esse ano, a coloquei a tarde, assim, ela acabou indo dormir mais tarde (no máximo 21hrs, só passa disso quando Leandro está com muita disposição e os dois brincam até mais tarde) e, consequentemente acordando mais tarde tb.
    Mas, principalmente nos primeiros meses, é fundamental a criança dormir bem e a NOITE TODA! Pois a mãe, no outro dia, vai precisar de muita disposição, e uma noite de sono bem dormida, é TUDO! Por isso, sinceramente, o mais importante é você saber administrar as MAMADAS (sugestão de assunto para os próximos posts…rs…. acredito já estar na lista) da criança. Isso influencia mto nos horários de dormir do Baby. Mas não vou me aprofundar nos detalhes agora, vou esperar o assunto em questão para me pronunciar….rs.

    Bjus 😉
    P.S. A barriguinha tá cada dia mais linda…. 😀

  3. Querida
    Fiquei imensamente feliz ao saber que vc será mãe. É um momento indescritível.
    Quanto as dúvidas em relação ao soninho posso te garantir que há 3 anos atrás presenciei na França algo inédito ainda para mim.
    A princípio achava que o certo quando a criança chorava era pegar e ficar horas tentando colocá-lo na cama e ao menor gesto de deixá-lo no berço o bebê já voltava a chorar.
    Tenho uma amiga brasileira casada com um francês, que com a chegada da Paulina agiu de forma diferente.
    As 6h começava o ritual do soninho. O pai dava banho e ficava alguns minutos massageando os pés e as mãos,depois acariciava o peito,a cabecinha e com isso ela relaxava,daí colocava no bercinho. Quando ela começava a chorar eles em momento algum retiravam do berço que ficava no quarto ao lado,mas monitoravam escondidos para ela não sentir a presença deles. No primeiro dia por umas duas vezes íam dentro do quarto ,mexiam nela sem falar nada e saíam. Ela chorou por 4 noites. Nunca mais houve problema algum. Hoje ela está com 5 anos, ama os pais , por sua vez todos dormem felizes,
    Até hoje o pai ou a mãe as 19h dá janta, depois dá o banho relaxante, e ela sozinha vai para o quarto após dar boa noite a todos e dorme muito feliz.

  4. Desculpa-me, errei no horário. Até hoje as 18h eles procedem da mesma maneira. E volta a falar que a Paulina é completamente independente, feliz , linda e na realidade ela não precisa dos pais para colocá-la para dormir, mas este momento os pais não abrem mão do carinho.

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