Estado de espírito

Naquela segunda-feira, primeira consulta com a minha médica depois do resultado positivo do teste de gravidez de farmácia, enquanto folheva umas revistas na sala de espera, achei um desses encartes zodiacais. Bom, ainda era 6 de fevereiro. Tava valendo. Resolvi ler “o que os astros” já haviam previsto para o ano dos sagitarianos. Não era um primor de texto com previsões para amor, dinheiro, família etc como de costume para o gênero, mas uma “pincelada” superficial sobre os acontecimentos importantes do ano. A última linha no bloco de texto não muito maior que este parágrafo dizia algo como: “este ano você estará focado em crianças. Não pergunte o porquê, espere e verá.” [Aos céticos de plantão, por favor, ignorem isto e não se incomodem em dar sua opinião sobre astrologia.]

Essa semana, pouco antes de dormir, senti o movimento do líquido uterino. Foi a primeira vez. Algo diferente, espantoso e inesperado. Demorei para assimilar e resolvi pesquisar no dia seguinte. A esta altura do campeonato não dá pra sentir o bebê chutar, somente o movimento do líquido uterino mesmo. Antes, o bebê estava preso ao saco vitelino, que por sua vez estava alojado na parede uterina, então seus movimentos não éram fisicamente percebidos. Agora ele está preso ao cordão umbilical, livre pra nadar de um lado pro outro sem grandes restrições, já que é tão pequenino. Dizem que é mais fácil sentir esses movimentos tão cedo quando a mulher é magrinha. Estou grávida, mas continuo magra e pesando o mesmo que antes.

Minhas atividades até dezembro estavam em 150%. Estudando 100% e trabalhando 50%, além dos afazeres domésticos. Desde que descobri a gravidez e comecei a passar por suas agruras, meu desempenho tem despencado. Não tenho ido às aulas, os afazeres domésticos foram deixados aos cuidados de Morten [arrumei um maridão! Que Deus o abençoe imensamente!] e tive que cancelar alguns plantões quando a coisa ficou realmente feia. Estive em muitas aulas de corpo presente, mas mente ausente, e nas duas ou três últimas semanas nem tenho conseguido arrastar meu corpo até a sala de aula. Mas não falto ao trabalho. Graças à Deus meu trabalho não está relacionado nem depende dos meus estudos. Ontem decidi que vou cancelar uma das duas disciplinas desse semestre e vou deixar pra fazer na segunda metade da licença maternidade. Por mais que eu sente a bundinha a partir de hoje pra rever toda a matéria antes das provas das duas disciplinas, eu não vou dar conta. Especialmente porque minha atenção não está voltada para os estudos.

Estado de espírito: grávida

“Os astros” disseram que eu estaria focada em crianças. Tenho tido pouca energia, e realmente, a pouca energia que tenho está focada nessa criança que só vai dar o ar da sua graça em outubro. Como já disse, meu trabalho não depende dos meus estudos, mas a minha licença maternidade depende do meu trabalho. Estou racionando minha atenção e energia. Não comecei esse bacharel pensando em largar. Mas esperamos por esse milagre por quatro anos. Nesse momento, minha prioridade é esse bebê. É estar grávida, conhecer e reconhecer as reações do meu corpo, é dormir quando meu corpo pede, comer quando sinto vontade, mas me forçar a trabalhar, porque meu salário durante as 57 semanas depois do parto vão depender da minha produtividade hoje. Sinto dores nas cadeiras durante o trabalho, ando devagar, me atraso nas visitas, fico com enjôo durante o plantão, mas preciso trabalhar. Pelo menos até julho. E disso não abro mão. Os livros e a  faculdade não vão fugir de mim. Comecei o curso um ano antes do planejado, vou precisar parar, mas não pretendo abandonar tudo. Quero voltar a dar aulas. Meu lugar é em sala de aula. Não me entenda mal. Amo meu trabalho com os velhinhos, estou aprendendo muito sobre os norueguêses, a história, aprimorando a língua. Mas meu lugar é na escola, e os livros podem esperar. Nesse momento quero aprender mais com a experiência.

Eu sempre vou ter tempo pros livros, mas não pros filhos.

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Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Eclesiastes 3:1-8

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