10/10/2012 – o grande evento

Já era tarde, o sol de outono avivava as cores das árvores enquanto o vento frio levava suas folhas num romântico bailar. Tinha decidido que naquele domingo faria uma caminhada, sozinha, e tiraria fotos das belezas da vizinhança mais uma vez. Caminhei, caminhei, capturei imagens que já conhecia e muitas outras desconhecidas.

O balançar do meu corpo pesado atraia a atenção dos transeuntes que já estavam fazendo o caminho de volta. Já era tarde. Tarde demais para o início de um passeio no parque, especialmente para aquela pequena menina-mulher que arrastava por entre as trilhas aquele corpo que acabava de adentrar a quadragésima semana de gravidez.

Por entre os caminhos, tropecei em cogumelos selvagens. Estes conheço bem. Há exatamente um ano tinha feito uma caminhada nesse mesmo parque, com uma especialista, em busca dos mesmos cogumelos. Não, não como cogumelos. Sou como o caçador esportivo. Gosto de caçá-los, mas não de comê-los. Tenho a sorte de ter um marido que é louco por essas iguarias que custam uma fortuna no mercado. Assim, salvo minha consciência. Pois pus-me a colhê-los. Não tinha um recipiente apropriado, não estava vestida adequadamente e meu corpo, junto ao bom senso, não me permitiam. Mas não me importei. Pus-me a colhê-los e enfiá-los dentro da bolsa da câmera fotográfica. Voltei para casa contente.

 

*******

Duas horas mais tarde Morten estava viajando para Stavanger, e eu fiquei em casa. Junto com a minha mãe e a sensação de que algo estava errado, ele não deveria ir, mas… ossos do ofício. Eu ainda não apresentava nenhum sinal de que daria a luz tão cedo, e honestamente, acreditava que teria que esperar pelo menos mais uma semana. Mas estávamos os dois em dúvida e decidimos, mais uma vez, que ele voltaria como pudesse caso o parto se iniciasse. Minha preocupação estava em iniciar o parto no início da noite, quando as possibilidades de volta dele se reduziam a uma viagem de táxi estimada em no mínimo quatro mil coroas.

Durante aquela noite, as contrações ficaram ainda mais fortes, mas nada mais aconteceu. “Ele está te esperando”, escrevi ao futuro papai numa sms na manhã seguinte. Naquele dia, depois de ter enviado a sms, às contrações se juntou um sangramento mais intenso que o anterior. Fui para a cama sentindo uma pressão na parte de baixo da barriga e na pélvis ao passo que as contrações se intensificaram. “Última noite sem mim antes do parto”, escreveu ele numa sms. “Espero que nada aconteça durante a noite, mas gostaria muito que estivesse aqui agora”, respondi. Éram 22:06h.

“Ei, comece a pensar numa forma de vir pra casa”, escrevi às 00:25h depois de pouco mais de duas horas fritando na cama com contrações ainda mais fortes. Aquilo que temia estava acontecendo: Matias vir ao mundo e o pai não estar lá pra ver.

Durante o Curso de Grávidas aprendi que um banho quente ajuda a determinar se o que se sente são “contrações chatas” ou verdadeiras contrações de trabalho de parto. Naquele momento decidi que tomaria um banho e dependendo do tipo de contrações ligaria para o hospital e para o futuro papai, que aquela altura esperava ansioso para saber se poria o pé na estrada ou voltaria a dormir. A ducha rápida foi suficiente para confirmar que estava tendo contrações verdadeiras, e elas ficaram ainda piores.

Ter a minha mãe assim, pertinho, o tempo todo foi uma bênção e um privilégio.

Liguei para o hospital. Uma parteira dinamarquesa atendeu. Depois que passei as informações necessárias e a contagem do tempo das contrações ela disse, com toda a calma do mundo, “Pode vir agora”. Pedi que repetisse. “Pode vir agora pro hospital”. Comecei a fazer a mala. Liguei para meus sogros. E como nesse mundo ainda existe muita gente boa, os donos da casa em que Morten fica hospedado em Stavanger se dispuseram a trazê-lo até aqui. Ao mesmo tempo, minha sogra pôs o pé na estrada para ir buscar o filho no meio da noite. Encontraram-se no meio do caminho. Meu sogro me levou pro hospital junto com minha mãe.

A maternidade estava vazia. Um silêncio mortal em lugar do barulho natal. Uma parteira dormia e a outra vagava pelo corredor a minha espera. Evie é o nome dela. Fizemos o primeiro contato e ela pôde checar a dilatação. Dois centimetros. Apenas dois centimetros. Ótimo. O pai tem tempo de chegar. E chegou. As 06h da manhã. Eu já tinha sido acomodada, junto com minha mãe, no maior e único quarto com banheira da maternidade. Sem conseguir dormir, eu aguardava o próximo controle ou que a bolsa arrebentasse. Evie se despediu e deixou que as parteiras do plantão seguinte fizessem o segundo controle. “Volto para o próximo plantão noturno, mas espero que você já tenha dado a luz até lá”, disse ela antes de desaparecer atrás da porta.

Segundo controle: dois centímetros. Dois centímetros! Tanta dor, tanto tempo, e dois centímetros! Matias não saiu do lugar. Comecei a pensar que eles talvez me mandassem de volta pra casa e eu perdesse a oportunidade de dar a luz na banheira, como gostaria. Não. Me deixaram lá. Estudantes vinham para me examinar, me davam comida. Eu passeava quando dava, as contrações diminuíram um pouco a intensidade. Passeava pelo hospital e esperava por um novo controle. Estava com medo de nada acontecer. Não aceitei nada além de paracetamol para as dores iniciais.

Terceiro controle: dois centímetros. Dois centímetros!!! Comecei a pensar em juntar meus paninhos de bunda e vir embora pra casa. Estava ficando com a consciência pesada por ocupar o quarto que certamente também era desejado por outras. Mais uma troca de plantonistas. A partir dali as contrações retomaram a intensidade e comecei a usar o que achava ser gás.

Quarto controle: três centímetros. Três. A parteira descobriu que eu só estava recebendo oxigênio pela máscara. Corrigiu. Éram pouco mais de 20h. “Desde já, desculpe pelo que posso vir a dizer”, eu disse. As contrações ficavam cada vez mais intensas e o gás não resolvia muita coisa, só me deixava meio alta depois do pico de dor. Checávamos os batimentos de Matias que estavam sempre normais. Sem sinal de estresse. Troca de plantonistas. Evie voltou pouco antes das 23h.

Quinto controle: cinco centímetros. Cinco! Finalmente entramos na fase ativa do trabalho de parto. Depois de 24 horas na fase latente. A fase latente passa despercebida para muita gente. A bolsa só costuma se romper na fase ativa ou na passagem de uma para a outra, e na fase ativa as contrações são sempre “notórias”. Entrei na fase ativa às 23h do dia 09 de outubro. Perguntei à Evie quanto tempo ainda demoraria para o parto. Depois de 24 horas pra chegar a cinco centímetros, tinha medo de enfrentar outras 24 pra chegar aos tão esperados dez centímetros de dilatação. “A gente calcula 1 hora para cada centímetro e mais 1 hora empurrando”, respondeu ela. Seis horas?! Mais seis horas eu teria que esperar.

Meu maior problema não era mais a dor, mas o cansaço. Desisti do gás à 1h da manhã, e naquele controle estava com oito centímetros de dilatação. Então pedi para entrar na banheira. Evie me deu um clister para eu esvaziar o intestino. Me preparei, ela encheu a banheira com água em torno de 37 graus, fizemos mais um controle que mostrou que eu já estava com nove centímetros de dilatação. Às 02h da manhã entrei na banheira.

Estava com muito, muito sono. Entre uma contração e outra, eu dormia. Literalmente. Dormia. Evie começou a discorrer, sentada ao lado da banheira, sobre como é bom que a criança nasça ainda envolta na bolsa. Que isto significa sorte para o bebê etc. Depois de 20 minutos na banheira, esperando que a bolsa se rompesse e depois de ouvir a conversa dela, perguntei se poderíamos furar a bolsa. “Você quer acelerar um pouco o processo? Tudo bem.” Ás 02:25h ela furou a bolsa. Não doeu e pudemos ver que o líquido aminiótico estava limpo. Matias não estava estressado. Sinal verde para ele nascer direto na água.

Ás 02:48h comecei a ter vontade de empurrar. Ás 02:50h Evie constatou em mais um controle que eu estava com 10 centímetros de dilatação e a cabeça de Matias já estava na pélvis.

Às 03:25h tive Matias pela primeira vez em meus braços.

*******

Posso dizer que as primeiras 24 horas foram longas e doloridas, as últimas 4 foram excitantes, doloridas, deliciosas e surpreendentes.

Empurrar uma criança pra fora do seu corpo não é bem seu trabalho. O corpo o empurra, você só precisa relaxar e deixar a natureza seguir seu curso. Confesso que lembro “da parte de empurrar” já com saudades. Durante esses 37 minutos descobri uma força que se esconde no meu corpo, uma força que nunca imaginei que tivesse, uma força que tive o prazer de descobrir trazendo ao mundo meu primeiro filho.

Foram 37 minutos que me fizeram sentir invencível!

5 pensamentos sobre “10/10/2012 – o grande evento

  1. Fiquei emocionada com sua narrativa. Tão linda e me fez sentir como se estivesse ao lado de vocês assistindo ao nascimento de Matias. Que Deus os abençoe muito. Parabéns. Beijos – Gina

  2. Mais uma vez Deus-Pai Todo Poderoso se fez presente viva e palpavelmente.
    Glória a vós, SENHOR!
    Louvado sejas por me permitires presenciar momento tão divino e inexplicavel.

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