“Terrible twos” – sendo posta à prova

Nunca imaginei minha vida adulta sem filhos. Pensava que, mesmo solteira, teria pelo menos um filho. A falta da presença e do apoio de um marido não me impediriam de experienciar a maternidade. Eu seria mãe. Ponto.

Depois de casada e com tudo no lugar, descobri que ser mãe não seria tão simples como “ter uma noite apenas” e engravidar, como aconteceu com muitas das meninas que conhecia. Nosso caminho seria longo. Matias é chamado de “milagrinho” por mim aqui no blog. Na Noruega ele é o que chamam “ønskebarn”, ou “criança do desejo”. Ønskebarna são todas as crianças não concebidas naturalmente, mas com algum tipo de ajuda. Ønskebarna são concebidas através de estímulo hormonal, fertilização in vitro, adoção ou barriga de aluguel. Nós não fomos tão longe, mas o processo entre o natural e o estímulo hormonal se arrastou por quatro anos. Eu tinha acabado de completar 30 anos quando engravidei, e já estava meio no Brasil, meio na Europa desde os vinte e cinco anos. Posso dizer que fui ter filhos “com a cabeça sobre os ombros”, tendo ponderado e amadurecido a idéia.

Quando vim para a Noruega, lembro de observar avidamente a criação e o comportamento das minhas sobrinhas norueguesas. Minha idéia sempre foi aprender o máximo possível e conjugar o melhor da Noruega ao melhor do Brasil. Lembro que o comportamento das crianças e as atitudes da minha cunhada me causavam estranhamento. As crianças gritavam, jogavam as coisas, e os pais me pareciam apáticos. Muito distantes dos padrões brasileiros aos quais eu estava acostumada. Eu já sabia que aqui a Lei da Palmada está em vigor desde 1981. Outras formas de criação são aplicadas. O que não significa que não hajam famílias norueguesas que usem a violência como método – mas estes costumam ter problemas de natureza psicológica e, mais tarde, legais, perdendo a guarda dos filhos.

Tudo o que lembrava sobre criação envolvia a violência e o medo perpetrados pela palmada, o cinto, a vara, o chinelo, o grito, a ameaça e os abusos verbal e psicológico. Claro que até aquele momento, nada disso tinha esses nomes quase criminosos. Tudo fazia parte da criação licenciada pela Bíblia, o lugar comum, a prática corrente.

Lembro também que, mesmo quando criança, eu me questionava sobre esses métodos. Incomodavam-me os abusos que as outras crianças sofriam, entre si e partindo de adultos. Não gostava [e não gosto] de ver adultos fazendo crianças chorar por diversão. E eu era uma criança. Acho que fazia o que podia para me proteger desse tipo de situação, e certamente não consegui fugir de todos. Mas o sofrimento dos outros me marcaram mais do que os meus, dos quais não me lembro.

Diferente de muitos dos lares da vizinhança, em que o pai trabalhava fora e era “o general” no fim do dia, no meu minha mãe era “a general”. Era ela quem chegava em casa no fim do dia, encontrava os vizinhos fazendo fila para derramar suas reclamações do dia, e nos corrigia quando julgava necessário. Meu pai sempre foi contra o uso da violência na nossa criação, e era ele quem passava a maior parte do tempo com a gente durante o dia – e me defendia quando achava que a punição era desnecessária.

Durante os anos de desenvolvimento, apanhei com e sem motivo, o que fez com que eu logo entendesse que nem sempre a razão da “correção” estava em mim, mas nas frustrações pessoais do adulto, que eram derramadas sobre mim. Ainda hoje lembro, como cenas de cinema em 3D, alguns exemplos disso. Me marcaram mais as violências indevidas sofridas e presenciadas dentro de casa, do que aquelas sofridas na rua.

Já adulta, sabia bem que criaria filhos seguindo o exemplo do meu pai. Sem violência. E na Noruega essa é a lei. Todo e qualquer tipo de violência contra a criança é proibido. Depois que nascem, elas têm tanto direito à proteção do estado quanto um cidadão adulto. Da mesma forma que o governo me protege de mim mesma impondo impostos absurdos sobre o álcool e o tabaco, o governo também protege meu filho de mim se eu representar perigo à ele. Simples assim. As crianças também têm cidadania. Um resultado do individualismo ocidental.

Com o passar dos anos e meu mergulho na sociedade norueguesa, as tentativas de reflexão acerca de mim, da minha cultura e mentalidade contraposta aos valores noruegueses, foram fundamentando minhas próprias idéias e entendimento do que melhor funciona em nossa pequena família multicultural. O fato de aqui as crianças não serem amedrontadas e reprimidas através da violência e da busca por cidadãos críticos desde o berço me fizeram desejar ainda mais um outro mundo, mais pacífico, menos traumatizado e menos violento dentro do meu lar.

E aí Matias entrou na fase do chamado “terrible twos”. A partir dos 18 meses, as crianças entram num estágio de desenvolvimento caracterizado por mudanças de humor, explosões de raiva e frustração (ou tantrum no inglês) e aumento no uso da palavra “não”. Nesse período, elas começam a se descobrir como “o outro” e não mais uma parte da mamãe. A busca pela independência entra em conflito com a grande necessidade de ajuda dos pais. Essa fase acontece para todas as crianças, variando em intensidade de acordo com a personalidade da criança e o método disciplinar adotado pelos pais. Nunca havia ouvido falar nisso, até sair do Brasil.

Junto com a mudança no comportamento de Matias vieram as más sensações sobre a minha própria infância. Dizem que se tornar mãe/pai é reviver sua própria infância. Me vejo em diversos momentos revivendo a minha. Especialmente quanto ao uso da violência. No meio de uma explosão de raiva e frustração, Matias pode se tornar quase impossível de lidar [Parece que acontece o mesmo que num ataque de pânico: o lobo frontal se desliga e o resto do cérebro são como fogo e gasolina, até que tudo se acabe]. No começo eu notava que essas situações despertavam em mim uma vontade enorme de bater nele. Com a graça de Deus (não o da Bíblia, que me garantiria o “direito” de violar o corpo dele), resisti bravamente. Mas percebi que deveria estar mais consciente de mim mesma nessas situações. Mesmo as pessoas que nunca levaram uma surra quando crianças podem perder a paciência e se ver batendo nos filhos durante essa fase. Não sei se há diferença neste impulso, mas pessoalmente, tive que reviver as sensações do passado para não repetí-las no presente.

Hoje Matias continua no meio desse turbilhão, e me vejo entrando e saindo dessas situações com mais desenvoltura. Não sou perfeita. Fico frustrada, especialmente quando as explosões acontecem no meio da noite após um sonho ruim, às vezes eu preciso de um “time-out”, mas esses têm se tornado menos necessários com o passar do tempo e o aumento da aceitação e entendimento do que esta acontecendo com ele. A informação e a reflexão sempre me foram boas aliadas. Geralmente quando minha paciência está curta, a de Morten está sobrando e vice-versa. Quando estou sozinha com ele, as explosões são menos frequentes, mas eu preciso estar mais alerta e ter uma dose a mais de paciência. Isso não acontece na creche. Acontece em casa e às vezes na casa dos avós se ele estiver muito excitado com uma brincadeira e a gente vier embora por exemplo. Aconteceu no mercado uma vez.

Para além da fase, ele tem perdido terreno por conta da nova gravidez. Tirei a amamentação noturna, logo depois o leite secou, não pode mais dormir em cima de mim, não o carrego mais no colo nem no canguru, quase não o levo nem busco na creche… é muita perda para um menininho só. É natural que ele também reaja a essas mudanças.  Mas para garantir que a chegada de Alexander e Cecilie não se torne ainda mais complicada para ele, vamos ao nosso psicólogo familiar em breve. Quero saber o que ainda está por vir, e como lidar com tudo isso da melhor maneira possível.

Quando conversei com minha sogra sobre essas coisas, ela sorriu e disse: agora é que você está sendo posta à prova!

Tenho buscado usar a Disciplina Positiva mais ativamente e lido mais sobre a “Comunicação não violenta”. Minha mãe diz que os filhos devem buscar ser melhores pais que os pais foram. Assim vou trilhando meu caminho. Mas ter que aprender novas formas de educar enquanto se educa, estando inserida em uma outra cultura é bastante desafiador e estimulante. Reviver o passado pode ser doloroso, mas também é libertador. Há pouco conversava com minha mãe e descobri que ela reage ao comportamento de Matias da mesma maneira que eu reagi ao comportamento das minhas sobrinhas 6 anos atrás. É o choque cultural nu e cru. É a colisão entre as criações pacífica e violenta. Assim como eu tinha, ela deve ter um zilhão de idéias de como fazer com que ele “pare de fazer pirraça”. Pude me ouvir nos comentários dela, e foi interessante. Já caminhei uma boa milha pra longe do controle exercido pela palmada. A gente precisa encontrar a melhor maneira de gerenciar a vida que tem. E a minha vida hoje é completamente diferente daquela que eu um dia imaginei que seria. E naquela versão, eu estaria pondo em prática muito do que ela imagina ser uma ótima saída. São linhas de reflexão interessantes. Mas a minha vida é outra. O país em que vivo é outro. A cultura em que estou inserida hoje é outra.

E o “filho do meu desejo”, meu primeiro milagre, não diferente de 99% das crianças do mundo, vai ter o meu melhor. Sempre. Mesmo que o meu melhor pareça insuficiente naquele momento. Assim é cada mãe. Assim foi a minha, assim é a sua e assim você, futura mamãe, será. A gente faz o que pode, com as ferramentas que tem. Dizem que com a maternidade nasce a culpa, mas nasce também uma nova e melhor filha, uma mulher mais forte, mais amorosa, mais abnegada e completamente apaixonada por sua prole.

Dica: Quando vir pais sendo postos à prova no mercado, no shopping ou numa festa, que não usam de violência na criação dos filhos, não os julgue. Saiba que o comportamento da criança, entendido e aceito pelos pais ou não, já é suficiente para constrange-los. Eles não precisam ser censurados. Dê um sorriso ou aceno com a cabeça em tom de apoio, porque você certamente já passou ou vai passar por isso – ou pelo menos já fez coisas do tipo com seus pais. Criança que se joga no chão, grita, chora e faz escândalo não é necessariamente mimada, mas está passando por um desenvolvimento complexo e profundo. Ela sofre. Os pais sofrem. As crianças entre 1 e 4 anos são as mais conhecidas por fazer esse tipo de coisa, mas as explosões podem acontecer em qualquer idade. Aos 2 anos a criança ainda não consegue expressar verbalmente tudo o que gostaria, o que causa frustração, ao passo que o cérebro ainda não está maduro o suficiente para suportar sentimentos de frustração e raiva – causando as explosões. Aos 3 anos eles se tornam mais desafiadores porque querem mais autonomia. Aos 4 as coisas devem piorar um pouco porque eles melhoram a comunicação e a linha de raciocínio e negociação é mais complicada. Mais tarde eles ficam como nós, que ainda que tenhamos aprendido a lidar com os sentimentos negativos, às vezes precisamos socar uma parede!

E aqui vão as fotos comparativas da semana 20.

comparando semana 20 2

Comparando III – 20 semanas

Retratação: Não é a intenção deste post denunciar atos ou denegrir pessoas. Também não é a intenção deste post ditar como outros devem criar ou deveriam ter criado seus filhos. Não desejo censurar ou julgar a ninguém por suas escolhas de vida. O que escrevo aqui exprime minha própria experiência de eventos do passado. Essa interpretação é altamente subjetiva e pessoal. Não é objetivo do post ou do blog polemizar, mas tão somente expressar um processo pelo qual ainda estou passando. Desde já me desculpo se este post lhe causa desconforto.

3 pensamentos sobre ““Terrible twos” – sendo posta à prova

  1. Quanta mão de obra esses meus netos dão… revivo os filhos…hahahahaha…
    Estou ansiosa para ver de perto as malcriações de Matias… Cheiroso da Vovó!

  2. Esse Deus da Bíblia que vc diz que permite aos pais “violar” o corpo da criança através de surras eu não conheço e lamento muito que seja o único que vc conhece. De todas forma, vc poderia ter mais cuidado ao interpretar palavras isoladas de um contexto e sair por aí difundindo e defendendo preconceitos e ideias tão rasas sobre um Deus que é, principalmente, amor.

    • Primeiramente, obrigada pela visita.

      Fico feliz que você não O conheça, porque este Deus também não reconheço. Mas infelizmente esse Deus da Bíblia tem sido citado à torto e à direito como justificativa à violência contra as crianças. Provérbios 23.13-14 tem sido usado como forma de resistência à Lei da Palmada por muitos cristãos que não conhecem outras formas de disciplina além da palmada.

      Não interpretei palavras isoladas, referi-me ao uso dessas palavras no contexto atual, cotidiano. A descrição pura e simples de fatos não abre espaço para interpretações. Trocando em miúdos: Algumas vezes senti vontade de bater no meu filho. Fato. De acordo com Provérbios 23.13, meu filho não morrerá se eu o fustigar com a vara. Fato. Fato que ele não morrerá. E fato que isto está escrito na Bíblia. Fato também que Provérbios é um livro que não abre muito espaço para interpretação. Também é fato que pais usem esses versos para justificar o castigo físico aos filhos. Não há o que interpretar aqui.

      O Deus em que eu acredito não me dá licença para castigar meu filho fisicamente. O Deus em que acredito me ensina a amar ao próximo como a mim mesma. Não gostaria de ser castigada por atos cometidos a partir de sentimentos que não entendo e que não sei controlar. Por quê castigaria meu filho pelo mesmo?

      Não estou difundindo nem defendendo preconceitos – o que por sinal, jorra desde a escolha dos livros até as interpretações da Bíblia, vide a bancada preconceituosa cristã brasileira.

      Essa idéia, que você chama de rasa, é a que muitos cristãos vivem no seu dia-a-dia. Vida cristã rasa essa, não?

      O Deus que eu conheço é todo amor e respeito. Por isso escolhi amar e respeitar meus filhos. Por isso escolhi amar e respeitar as pessoas sempre que possível.

      Essa resposta abre espaço para diversas discussões sobre bíblia, humanidade e fé. Mas esse blog não é arena para esse tipo de discussão e não tenho interesse em incluir esse tipo de polêmica aqui. A fé é pessoal e intransferível. Esse blog não foi escrito para defender a minha fé ou atacar a sua.

      Por favor, volte quando quiser. Será sempre muito bem-vinda. Responderei prontamente seus comentários, mas não me engajarei em discussões polêmicas que fujam ao propósito do blog.

      Um grande abraço.

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