Como engravidar de gêmeos

Desde que descobrimos que esperávamos gêmeos e passamos a contar para as pessoas, ouvi muitas pessoas, entre homens e mulheres, dizerem que adorariam ter gêmeos, ou que sempre sonharam em ter gêmeos.

No início, quando eu ainda me sentia ambivalente em relação à gravidez e ao fato de serem gêmeos, eu não entendia porquê alguém sonharia com isso. Como alguém poderia desejar o trabalho duplo, a gravidez de risco, as incertezas, a insegurança e a completa sensação de impotência que acompanham uma gravidez múltipla. Tudo me parecia completamente absurdo. Coisa de quem não sabe do está falando.

E ainda me parece. Entendo o desejo de tê-los já na primeira gestação. Pouco se sabe sobre a vida com filhos e os desafios que enfrentamos todos os dias para cria-los. Mas ouvia esse comentário também de pessoas que já tinham filhos, que conhecem bem o caminho das pedras. Esse desejo ainda me parece absurdo. Mas simplesmente porque não o compreendo, e porque a idéia de ter gêmeos me passou pela cabeça uma vez – acabei de descobrir aqui – quando estava grávida de Matias, em tom de piada. Mas a idéia passou como um relâmpago e não deixou marcas em mim. Mas parece que ecoou nos quatro cantos do universo.

Ok, agora muita gente vai pensar que “eu não mereço ter gêmeos” já que nunca os desejei. Devagar com o andor! Filhos são graças recebidas, e não por merecimento ou desejo.

Bom, ter gêmeos é sempre uma surpresa. Mesmo para aqueles que sonharam a vida inteira em tê-los. A surpresa não é maior para os que nunca imaginaram passar por isso. Ela é menor para aqueles que, de alguma forma, manipularam a ovulação e sabiam do risco aumentado de ter gêmeos. Mas uma gravidez gemelar sempre é uma surpresa. Nós nunca estamos prevenidos quando ela acontece. Essa é a natureza gemelar. Uma surpresa.

Algumas pessoas sabem que precisamos de ajuda para ter Matias, e logo assumem que fizemos o mesmo para engravidar dessa vez. Surpreendem-se ao ouvir que, dessa vez, tudo aconteceu naturalmente.

Mas afinal, quais as chances de se ter gêmeos? É possível “fazer alguma coisa” para engravidar de gêmeos? Alguma simpatia? Mandinga? Chá da vovó? Posição específica de coito? Remédio? Comida?

A resposta honesta e científica é “não”.

Mas, então, como isso acontece?

Primeiro temos que entender que a ciência ainda não desvendou todos os mistérios sobre os gêmeos. Por hoje, usam-se gêmeos em pesquisas comparativas majoritariamente direcionadas ao restante da sociedade.

Sabemos que há dois tipos de gêmeos: os univitelinos – também chamados de idênticos -, e os bivitelinos.

Os univitelinos

Fonte: http://www.learnlearn.net

Placentas, membranas – dias da divisão

As gestações gemelares univitelinas acontecem em todo o mundo em igual proporção. São gestações que acontecem de modo natural e perfazem 1 em cada 3 gestações gemelares. São raras as vezes em que resultam de reprodução assistida.
Elas são o resultado do encontro entre 1 espermatozóide e um óvulo que se divide em dois até o 13dia após a fecundação. Gêmeos univitelinos têm a mesma herança genética, o mesmo sexo e se parecem muito, sendo chamados de idênticos, mas têm arcada dentária e digitais diferentes.
O dia da divisão do óvulo determina quantas membranas serão compartilhadas pelos bebês e quantas placentas se desenvolverão. Isso define um maior ou menor risco durante a gestação. Quando a divisão acontece depois do 13dia, dá se o fenômeno dos chamados gêmeos siameses.
Apesar de terem a mesma herança genética, os gêmeos univitelinos podem apresentar algumas diferenças que ocorrem após a divisão do óvulo. Quanto mais cedo a divisão acontece, maiores são as diferenças entre os bebês, e vive-versa. Por isso há pares de gêmeos em que um apresenta uma marca de nascença que o outro não tem.
Univitelinos podem ser “cópia” ou “espelho” um do outro. 80% são cópia, e 20% são espelho. Os gêmeos espelho são aqueles em que um é destro e o outro canhoto. Em casos extremos, os órgãos podem apresentar-se espelhados. Um tem o coração do lado centro-esquerdo e o outro o tem do lado centro-direito.

Os bivitelinos

Fonte: ib.usp.br

Bivitelinos

As gestações gemelares bivitelinas são hereditárias, decorrentes da idade, ou da reprodução assistida. Pelo método natural, a mulher precisa liberar dois óvulos num mesmo ciclo, e ter ambos fecundados por dois espermatozóides diferentes.
Os bebês são tão diferentes quanto dois irmãos nascidos em tempos diferentes, isto é, compartilham de 50% da herança genética. São dois filhos que por acaso são gerados simultaneamente.
Eles podem ser do mesmo sexo ou sexos diferentes.
Duas em cada três gestações gemelares são bivitelinas, e metade é de sexos diferentes enquanto a outra metade têm o mesmo sexo.
A maioria das concepções gemelares atingidas por reprodução assistida é bivitelina. Isso acontece porque os métodos de reprodução assistida envolvem o estímulo da ovulação, e/ou a introdução de dois óvulos fecundados no útero da mulher.
Bivitelinos podem ter pais diferentes.
A gravidez gemelar bivitelina apresenta o menor risco de complicação uma vez que os bebês não dividem membranas nem placenta.

Quais as suas chances?

Uma em cada 8 gestações inicia-se como gemelar, mas somente cada terceira dessas termina com parto gemelar porque um ou os dois bebês morrem antes de 12 semanas. Hoje, com o advento da ultrassonografia, as gestações gemelares podem ser descobertas logo no início, para, mais tarde, tornarem-se gestações únicas. Esse fenômeno é chamado de ” síndrome do gêmeo desaparecido”. A maioria de nós nunca descobre uma gravidez gemelar que passa por essa síndrome. Especula-se que as pessoas canhotas são “gêmeas-espelho”, mas seu gêmeo oposto “desapareceu” no início da gestação.

As chances de conceber univitelinos é quase igual para todas, por isso o número de gestações univitelinas tem se mantido constante através do tempo. Essa gestação não é afetada pela hereditariedade, idade, peso ou outro fator externo. É uma obra do acaso, ou “Jesuiscidência”, se assim preferir. Algumas pesquisas mostram que você pode ter maior chance de ter univitelinos se você for univitelina, mas como univitelina, suas chances de ter bivitelinos são as mesmas que as das demais mulheres – a menos que se enquadre nos grupos de risco aumentado para bivitelinos.

As chances de conceber bivitelinos depende da hereditariedade, idade, grupo étnico, número de gestações anteriores ou gestações gemelares anteriores e eventual reprodução assistida. De modo geral, podemos dizer que quanto mais velha a mulher é, maiores as chances de uma gravidez gemelar. Entre os 35 e os 40 anos, a ovulação é perturbada pelas alterações hormonais da menopausa, causando ovulações duplas. As mulheres em uma família que tem histórico de bivitelinos, têm maiores chances de ter gestações bivitelinas. Se você é bivitelina ou tem bivitelinos na família, tem 5% de chance de ter bivitelinos. Se você já teve bivitelinos na gestação anterior, na próxima tem 10% de chance de ter bivitelinos outra vez.

Tanto homens quanto mulheres podem carregar os genes da dupla ovulação, mas a gemelaridade bivitelina só se concretiza através das mulheres, ou seja, seu marido pode passar o gene para sua filha, mas ele não pode fazer com que você tenha gêmeos bivitelinos por ter bivitelinos na família dele. Nesses casos, diz-se que a gemelaridade pulou uma geração. O gene passado adiante é o da dupla ovulação. Também há casos de famílias que têm gêmeos por gerações seguidas, assim como há casos em que apenas um par de bivitelinos nasce na família, e, sendo assim, não se pode dizer que a família tenha predisposição a gemelaridade. As chances de ter bivitelinos também pode ser influenciada pela altura e peso da mulher. Estudos recentes têm mostrado que quanto mais alta e corpulenta a mulher, maiores as chances de ter bivitelinos. Mas nenhuma dessas mulheres estava acima do peso, já que a obesidade diminui as chances de concepção, seja de 1 ou múltiplos.

As chances de conceber univitelinos não é afetada pela etnicidade, mas as chances de conceber bivitelinos, sim. Mulheres afrodescendentes têm maior chance de ter bivitelinos, asiáticas têm menor chance e as européias estão num meio termo. Na Nigeria, cada 22parto é de gêmeos; Na Noruega, cada 80parto é de gêmeos; no Japão, cada 150parto é de gêmeos; e na China apenas cada 300parto é de gêmeos.

Quanto as nigerianas, diz-se que a ingestão regular de inhame causou a alteração da genética, dando início às duplas ovulações em massa. Lembre-se que a maior parte dos escravos que desembarcaram no Brasil são de origem iorubá, originários da Nigéria. Se você é brasileira e afrodescendente, pode estar carregando o gene da dupla ovulação sem saber. Mas isso não significa que você, necessariamente, terá gêmeos.

Esses números e estatísticas mostram também que não basta ter dupla ovulação ou se encaixar em todos os requisitos para que se concebam gêmeos. O fato de termos 1 gêmeo para cada oitava pessoa que encontramos na rua, mas seus pares nunca terem “vingado”, nos mostra que há algo para além da probabilidade. Um estudo recente diz que as mães de gêmeos concebidos naturalmente têm saúde acima da média, mais robusta, mantém a fertilidade por mais tempo  e vivem mais, sendo chamadas de “super-mães” (artigo em inglês disponível aqui). Tenho minhas reservas pessoais a esse estudo. Eu, por exemplo, estou e sempre estive abaixo do peso por deficiência proteico-calórica, apesar de quase não ficar doente e não me faltarem nutrientes. Difícil argumentar que tenha uma saúde mais robusta que a de muitas outras mulheres. E no entanto estou gestando gêmeos.

Mas há que se entender que a ciência sozinha não abarca o milagre da vida e da morte. Em nós há, sim, um componente que a ciência ainda não conseguiu duplicar. Duplicamos tecidos, mas como duplicar a nossa essência? Aquilo que faz de você, você?

Se você buscar no google “dicas para engravidar de gêmeos”, vai encontrar muita coisa. Mas a maioria está relacionada a hereditariedade. E a única gestação gemelar passível de manipulação é a bivitelina. Se você não tem problemas para engravidar, não se aventure na reprodução assistida com o intuito de ter uma gravidez gemelar. Se seu corpo não o fizer por si só, melhor respeita-lo. Acredito que a concepção e gestação de filhos seja algo com que não devamos brincar. Uma coisa é pedir ajuda para conceber, outra bem diferente é “escolher” o tipo de concepção. Nessa parte, ainda tão alheia à nós e a nossa ciência, melhor deixar as coisas nas mãos de Deus, da natureza, ou do acaso, a depender de sua crença.

Fonte: Grønning, Joan Tønder (2008) Boken om tvillinger 0-10 år – Myter og virkelighet om graviditet, fødsel og tvillingforholdet. 1.utg. Danmark: Forlaget TekstXpressen.

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Não esqueci do post anterior. Ainda estou me aprofundando no Círculo da Segurança, por isso não quero escrever qualquer coisa sobre isso.

No meio dessa semana volto para publicar fotos comparativas da semana 24 e fotos da última ultra que fizemos. Tenham paciência comigo!

Um abraço!

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