Um fusca, uma quitinete e um filho – 34 semanas

::::::::::::::: AVISO: Este post foi escrito sob forte influência hormonal!!! :::::::::::::::

 

postagem_passado-presente-ou-futuroCompletamos 34 semanas hoje e agora me vejo parada, olhando para o futuro bem próximo e para o passado, e tudo o que aconteceu até aqui. Ter um filho, e depois ter mais filhos me faz olhar pra trás e tentar descobrir se alguma vez, nos meus sonhos mais selvagens, eu pude imaginar viver o que vivo hoje, nesse exato momento.

Descubro que minha visão de futuro sempre foi bastante simples, limitada e completamente realizável, cabível entre os meus braços. Talvez não seja ambiciosa o suficiente para sonhar alto. Ou talvez eu realmente me satisfaça com pouco – não que isso seja negativo. Não sou o tipo que dá passos maiores que as pernas e aceito bem dar dois passos atrás para depois retomar meu caminho, com paz, segurança e tranquilidade.

Escolhi ser professora, entre outras coisas, pela estabilidade e segurança da profissão. Mas essa escolha não veio antes do terceiro ano do segundo grau. Nunca almejei ser rica ou famosa. Nunca sonhei ser paquita. Desde que me lembro, sonhava em fazer algo que me garantisse pagar as contas e viver minha vida, modestamente. Sonhava não precisar viver de empréstimos, mas acomodar minha vida ao meu salário. Que os estudos eram minha única opção não era nenhum segredo. Mas também não era a melhor aluna da turma. Fazia o necessário. Minha prioridade, consciente ou inconscientemente, sempre foi viver. Eu fazia o necessário para passar e vivia o restante do tempo.

Por muito tempo, olhava pro futuro e me via solteira. Com a vida em ordem, vivendo. Quando entrei pra faculdade, logo percebi que encontrar um parceiro acabava de se tornar ainda mais difícil e essa visão de futuro se sedimentava. Então passei a ver em meu futuro um filho. Biológico ou adotado, com ou sem marido. Mas um filho. Um fusca, uma quitinete e um filho. Alguém de quem cuidar além de mim mesma. O que, de certa forma, hoje me parece um tanto contraditório. A idéia de ter alguém dependente de mim não me agradava. Desejava um filho, que é o maior exemplo de dependência, mas ao mesmo tempo evitava todo e qualquer relacionamento, mesmo que de amizade, com pessoas dependentes. Talvez essas sejam dependências diferentes? Não me agradam os relacionamentos com pessoas emocionalmente dependentes, mas não me incomoda o fato de ter um bebê que precisa de mim pra tudo. Inclusive para sanar suas necessidades emocionais ao longo de seu  desenvolvimento. Algo para eu amadurecer e continuar pensando a respeito.

Quando comecei a me preparar para o mestrado, estava em um relacionamento sem futuro e sabia que esse passo, adiante profissionalmente, diminuía ainda mais minhas chances de encontrar um parceiro. Mas a idéia de um filho ainda estava lá. Um fusca, uma quitinete e um filho. Terminei o relacionamento.

Três meses depois, no meio do processo de entrada no mestrado, conheci Morten. Um gringo que estava no Brasil de passagem, se preparando para o doutorado em um outro país, sem interesse especial pelo Brasil. Eu estava fugindo de relacionamentos e tinha prometido pra mim mesma que meu próximo namorado se tornaria meu marido. Não posso dizer que ele não fazia meu tipo porque na verdade nem sei bem o que é meu tipo. Das pessoas pelas quais realmente me interessei ao longo da vida, o único ponto em comum era o de serem nerds. Mas ele tinha alguns detalhes que me fariam olhar pro outro lado se eu estivesse “na busca”. Mas eu estava desarmada. Ele estava desarmado. Não estávamos na busca. E assim nos pegamos interessados em ouvir um ao outro. Em saber mais.

Dois dias depois passamos 12 horas na praia, num dia nublado, frio e chuvoso, conversando. Ele me ganhou pela mente. Lembro como se fosse hoje que ao final do dia, depois do abraço amigável de despedida diante dos pais dele, a única coisa que pensava era: queria que ele fosse meu vizinho, para eu tê-lo disponível sempre que quisesse. Bater à porta a qualquer hora, sentar no muro e conversar, conversar e conversar. Queria que ele fizesse parte da minha vida, mesmo que como amigo. Um relacionamento não passou pela minha cabeça.

A partir dali tudo andou mais rápido e meu sonho de ter um fusca, uma quitinete e um filho ficou congelado. Parado no tempo. Esperando para ver o que aconteceria. E como esse post não é pra contar a história do nosso encontro que por si só dá um livro, vou pular uns anos. Depois de seis anos juntos e quatro anos tentando, tivemos Matias.

Meus planos de repente já não cabiam mais. Eu tinha um filho meu, e um marido que meu coração e minha cabeça, juntos, escolheram. Eu já não morava mais no Brasil e minha vida era simplesmente outra.

Depois que Matias fez 2 anos, eu já estava satisfeita com a minha vida. Um marido e um filho fantásticos, mantive meu trabalho e vim parar num país onde minha pouca ambição cabe. Aqui a maioria das pessoas quer viver. E isso basta. Agradecia à Deus a cada manhã pelo que tinha. A única coisa pela qual me restava lutar era uma posição fixa que me garantisse 100% do salário de um professor com mestrado.

Mas como se nada disso me bastasse, engravidei novamente. E de gêmeos.

Hoje eu olho para trás e pra frente e vejo quão pequena eu sou, quão limitada a minha visão é, quão simples meus sonhos e planos são (Isaías 55.9: “Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.”). E eu nem sei qual é o objetivo de viver todas essas coisas. Tanta gente almeja o que eu tenho, levanta da cama de manhã e luta por isso, faz o caminho das pedras. E às vezes me sinto culpada, porque parece que todas essas coisas me caíram do céu, sem esforço, sem que eu as tivesse buscado. Parece que eu dei a sorte de estar nos lugares certos na hora certa.

Mas a vida é muito mais do que os fatos físicos e palpáveis. Talvez essa vida seja uma recompensa por algo? Talvez uma pausa das lutas? Talvez eu precise reviver as coisas boas que estão fora do meu controle nessa vida para não esmorecer na próxima? Ou talvez eu esteja abrindo mão do controle nessa vida, deixando as coisas acontecerem naturalmente? Ou ainda, talvez eu esteja sendo preparada para a batalha que ainda está por vir nessa vida… Não sei, e não sei se quero pensar muito sobre isso.

Essas mudanças geraram perdas e ganhos. Mas aceito os ganhos e não sinto dor pelas perdas. Faço o melhor que posso com as cartas que me foram distribuídas. Abri mão da presença constante da minha família original para formar a minha própria (sempre lembro de Gênesis 12. 1: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.”). A saudade é relativa. Ela vem e vai, e pode estar presente mesmo que estejamos perto. E depois de um tempo longe a saudade é de coisas e pessoas que não existem mais. O tempo passa e tudo muda. Eu mudei, as pessoas mudaram. Os relacionamentos mudaram.

Nesse momento me basta olhar para trás e para frente – até onde minha vista alcança – e agradecer. Agradecer porque tenho um marido que é amigo, namorado, amante e parceiro; porque se eu tivesse que viver isso tudo de novo, escolheria ele outra vez para trilhar comigo esse caminho de descobertas e crescimento; agradecer pela dádiva de poder gerar não um, mas três filhos; agradecer pela possibilidade de poder vê-los crescer. Agradecer porque apesar de ainda precisar lutar por algumas coisas, elas são detalhes, e não tiram o brilho do que vivo. Da minha simples, ou não tão simples, vida.

Um fusca ainda é possível, a quitinete não acomoda mais a crescente família e quanto aos filhos, bom… isso você já sabe.

PS.: Fotos da barriga, um vídeo das atividades acrobáticas de Alexander e Cecilie e um update da gravidez virão no próximo post, nos próximos dias.

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