Você nunca mais vai dormir!

Ouvi a afirmação que dá título a esse post incontáveis vezes durante a gravidez. Ela é certamente verdadeira para a maioria dos pais de gêmeos, especialmente para aqueles que recebem esse presente logo na primeira gravidez. E ela também é verdadeira para a maioria dos pais de primeira viagem, mesmo que de um bebê só.

Mas ela não foi verdadeira em nosso caso. Acredito que o fato de ter sido nossa segunda gravidez ajudou bastante para que mantivéssemos a calma. E eu acredito que os bebês espelhem a mãe. Se ela se sente insegura, amedrontada, engolida pelas emoções, o bebê torna-se um reflexo disso. Essas sensações tendem a ser mais fortes na primeira gravidez.

De modo geral as grávidas de gêmeos ouvem sobre e esperam por todas as complicações possíveis, afinal são dois bebês que provavelmente nascerão antes do tempo, podem ter dificuldades no desenvolvimento, podem chorar mais, ter mais cólicas… e tem o simples fato de serem dois. Dois bebês que fazem o que todo bebê faz: choram! E eles choram! A idéia de tentar fazer com que não chorem é tarefa frustrada desde sua concepção. [Vou escrever um post sobre isso mais tarde.]

Quem vem acompanhando o blog desde o começo sabe que sou adepta da Criação com Apego, o que significa não deixar o bebê chorar sem consolo. Fizemos isso com Matias. Ele quase não chorava. Para tudo, a melhor solução era o consolo que só o peito oferece. O mesmo já não é possível com os gêmeos, mas contarei mais sobre isso num outro post. Bom, então vamos começar pelo começo e falar dos gêmeos.

Os primeiros dias no hospital

Minha mãe chegou no dia seguinte ao parto e eu fiquei no hospital nos primeiros três dias. Dessa vez fiquei no mesmo prédio em que as crianças nasceram, mas no andar de baixo. Alexander não pegou o peito nas primeiras 24 horas depois do parto. Só queria dormir. Foi considerado de baixo peso e por isso precisou de leite logo após o nascimento. Neguei o NAN e ele recebeu leite materno do banco de leite nas primeiras mamadas. Tudo no copinho. Cecilie nasceu um pouco acima do limite de baixo peso e as enfermeiras já queriam que ela também entrasse no esquema de NAN a cada 3 horas. Negamos. Ela sugava bem e constantemente. Só ficou no peito.

Alexander recebeu leite do banco – entre 5 e 10 ml – nas primeiras 3 mamadas pós-parto e mamada inicial e depois passou pro NAN nas próximas 8 mamadas – também entre 5 e 10 ml. As enfermeiras os levaram para a enfermaria nas primeiras horas da primeira noite pra que a gente descansasse. Logo uma enfermeira voltou com Cecilie nos braços. Ela chorava muito e acordava as outras crianças. Comigo na cama, ela dormiu. Às 6 horas da manhã Alexander voltou. Já no “esquema” de 3 horas – e entrou na fórmula. Então começamos a estimula-lo a sugar antes de cada mamada. Cecilie não apresentou dificuldade alguma para mamar. A voracidade com que mamou logo após o parto se manteve.

Já de tarde, uma das enfermeiras que veio com o NAN pra Alexander disse que ele “não precisava sugar”, que “era mais importante manter o intervalo de 3 horas”. Minha deixa 🙂 Precisei “colocá-la de volta no banco escolar”. Deixei claro pra ela que meu objetivo era o de que ele mamasse no seio, na hora que quisesse e que eu não tinha NAN nem mamadeira em casa. Pedi que o deixasse comigo, sugando, e que eu a chamaria quando achasse que ele deveria tomar a fórmula. Ela saiu, um tanto contrariada. Uma outra enfermeira veio “conversar” comigo para tentar me convencer a dar fórmula pra Cecilie. Em resumo, conto que Cecilie nunca tomou uma gota de fórmula na vidinha dela [mãe-mamífera empoderada e orgulhosa hehehehehe].

Já no segundo dia Alexander “acordou” e voltou a sugar. Suspendemos a fórmula de imediato e ele ficou como está hoje, só no seio. Eu os amamentava simultaneamente num travesseirão de amamentação dupla. Dormia com esse travesseiro. E tudo correu bem nesses três primeiros dias de hospital. Recebi a visita de uma das médicas do parto no segundo dia e de Ranghild, a parteira do parto, no terceiro dia.

Mais tarde soube que há toda uma rotina “ensinada” às mamães de gêmeos no hospital. Ela inclui, entre outras coisas, a amamentação simultânea, a complementação e o intervalo de 3 horas entre as mamadas. No meu caso, enquanto estive no hospital, uma das enfermeiras comentou que eu tinha virado a sensação da maternidade porque “não tinha medo dos bebês” e “ficava com os bebês em cima de mim o tempo todo, no peito, no ombro, no braço…”. Acho que desistiram de me dar as dicas da rotina. Alexander manteve o intervalo durante as primeiras semanas, mas hoje já não o faz mais. Cecilie nunca entrou nesse ritmo. Mas durante a noite, sempre acordavam mais ou menos juntos para mamar.

A chegada em casa

Segurar 3 crianças ao mesmo tempo é complicado mesmo pra vovó experiente.

Segurar 3 crianças ao mesmo tempo é complicado mesmo pra vovó experiente.

Chegando em casa, ainda com o corpo meio “frouxo”, foi ótimo ter a minha mãe perto. Hoje olho para trás e lembro com gratidão e ar de riso as primeiras 5 semanas. Eu não me ocupava de mais nada além de amamentar, comer e dormir. E para eu comer… nossa! Minha mãe segurava um, Morten segurava outro e eu ia pra cozinha fazer minha ceia antes de dormir. Eles choravam… é engraçado lembrar das expressões dos dois enquanto seguravam as crianças. Ouvir um bebê chorar é complicado, ouvir dois é angustiante, estressante e tudo mais de -ante que se possa imaginar. Eles só sossegavam comigo. Durante o dia as coisas iam bem. O problema era a ceia. Era nessa hora que eles exigiam estar dormindo colados à mim. Mas com o tempo as coisas melhoram. E já melhoraram.

Dessas semanas eu lembro bem de logo sentir uma vontade louca de poder sair de casa, ir passear, ir à cidade… afinal, eu estava presa em casa desde a vigésima semana de gravidez. Eu queria retomar minha vida, minha rotina. Cuidar de mim, do marido, da casa e dos filhos. Mas depois de um parto natural gemelar, o corpo precisa de um descanso.

Minha mãe foi embora depois de 5 semanas e a partir da sétima semana eu estava livre de novo. Voltei a levar e buscar Matias na creche, fazer janta, cuidar [um pouquinho] da casa e voltei para a vida real.

E nada foi como eu esperava. Na verdade, ouvir as “opiniões” de pessoas sem filhos ou de pais de 1, 2, 3, 4 filhos de gestações únicas foi bastante assustador, e às vezes até desanimador. As mamães de gêmeos dos grupos de apoio de que faço parte tinham informações muito pertinentes e dicas valiosíssimas. E a frase que mais ouvia delas era: é mais complicado, mas sempre dá tudo certo e as coisas vão melhorando a cada dia. Dito e feito: Eles mamavam e mamam bem, dormem bem, crescem e se desenvolvem normalmente – com o atraso no desenvolvimento cognitivo de quase 1 mês, já que são bebês de termo precoce. Ganham peso como devem, seguindo suas curvas, e a diferença entre eles é tão grande quanto aquela entre qualquer um deles e Matias. São gêmeos no fato de terem sido gestados simultaneamente e nascido no mesmo dia. Mas são diferentes.

Hoje estão com 4 meses e meio. Cecilie é claramente maior que Alexander – ela se encontra no meio da curva de crescimento de bebês noruegueses do sexo feminino de gravidez única, e ele na curva inferior para meninos. Alexander e Matias são pequenos como as crianças brasileiras. Cecilie é grande como as crianças norueguesas. Ela adora peito, golfa muito, mama em livre demanda. Ele mama moderadamente, golfa pouco, mama em livre demanda, mas começou a dormir “a noite inteira” há algumas semanas. Ele desperta, puxa o cobertor, ou vira pro lado e volta a dormir por até 8 horas seguidas. Mama bastante ao acordar. Mas é “tipo B”, ou seja, gosta de ir pra cama tarde e acorda tarde. Cecilie é “tipo A”, dorme cedo e acorda cedo. [Matias fica num meio termo.] Eles dormem no berço ou na minha cama. Geralmente Alexander no berço e Cecilie na cama comigo. Mas se ele acorda por qualquer motivo, ela vai pro berço e ele fica na cama. E sempre tenho os momentos em que os dois ficam no berço [ou os dois ficam na cama]. As diferenças entre eles facilitam o tratamento individualizado, apesar da gemelaridade.

Posso tentar resumir dizendo que a vida com três crianças pequenas é bastante frenética. Dou graças à Deus por estar aqui, onde posso ficar em casa com essas crianças e ser mãe por tempo integral antes de retornar ao trabalho [mas já voltei aos estudos]. Morten ainda se ocupa das coisas de Matias quando está em casa e eu me ocupo da dupla. Quando ele viaja eu me viro nos trinta. Levar e buscar Matias na creche, fazer a janta, manter a casa em ordem, coloca-los na cama e conseguir um tempinho pra mim… Quando ele volta dá um alívio… alguém para dividir a carga, as gargalhadas e as frustrações – porque nossos dias não têm nada de perfeitos. Uma bola dentro salva a lavoura, mas às vezes são muitas bolas fora pra desanimar qualquer um. Aí, o melhor é fechar os olhos, respirar fundo, contar até dez e recomeçar. No final das contas, o saldo tem sido sempre positivo.

E acabo de perceber que vou precisar escrever posts individuais sobre cada um dos milagrinhos. Quanto à Matias, bom esse assunto fica pro próximo post. 🙂

Um pensamento sobre “Você nunca mais vai dormir!

  1. 😍apaixonada….
    Eu fico tentando vivenciar tudo isso….. e só consigo lhe admirar ainda mais por tanta paciência, tanta segurança e maturidade. Eu acredito que Deus escolhe as pessoas certas, pois eu me vejo louca só com Eloah, pois Brenda nem me dá tanto trabalho…. imagino dois juntos…. vc é minha heroína. .. parabéns! !! Quero ligo o post do Matias…. rs

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