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Amamentação e BLW – uma dose de objetividade, outra de realidade e duas de sonho

Eu pareço meio hippie às vezes. Natureba, zen, instintiva. E minha caminhada até aqui em relação à alimentação de Matias só corrobora essa impressão.

A teoria do apego tem permeado todas as nossas decisões, e aquelas relativas à amamentação não fogem à regra. Amamentei exclusivamente até os seis meses, fizemos um BLW intuitivo – acompanhando o desenvolvimento de Matias, sem saber que fazíamos BLW – e agora tenho pensado sobre o resultado disso e em como será com dois bebês ao mesmo tempo.


O que é BLW

Diz-se que o chamado “Baby led weaning” é uma “nova moda” em introdução alimentar. Mas isso não é verdade. Historicamente falando, “o baby led weaning”, ou a introdução alimentar controlada pelo bebê, foi praticada em todas as culturas pré-industrialização na década de 1920. Os bebês comiam da comida da família. Amassadas em algumas ocasiões, mas não necessariamente pastosas. Não haviam processadores de comida, nem papas industrializadas oferecidas às famílias. A criança comia o que estava a disposição da família.

A maioria dos bebês está pronta para se alimentar e demonstra interesse por outros alimentos a partir do sexto mês de vida. Alguns um pouco antes, outros depois. Mas basicamente, esse tipo de introdução alimentar permite que o bebê explore os alimentos. As diferentes texturas, cheiros, cores e sabores. Os pais não precisam fazer comida separada para o bebê e não o alimentam com a colher por exemplo.

Quando damos papas a um bebê com a colher, ele não está aprendendo a mastigar, porcionar e manejar o alimento na boca, mas está aprendendo a engolir. Quando servimos alimentos cortados, cozidos o suficiente para que possam mastigar sem que vire um purê entre os dedos, ele vai sentir a textura nos dedos, desenvolver o movimento manual de pinça, mastigar, porcionar e manejar o alimento antes de engoli-lo. No começo, muito pouco é engolido. Toda a experiência de provar um novo alimento com as mãos e a boca já é suficiente para o aprendizado, e cuspir tudo é a via de regra. Engolir não é a primeira coisa que aprendem. 

Muitos pais temem os engasgos. Engasgos são perigosos e todos nós devemos aprender a manobra para retirar alimentos da garganta do bebê de modo seguro. Entretanto, a maioria dos engasgos acontece com crianças alimentadas com colher, não com as que se alimentam com as mãos. A maçã é um grande vilão nesse quesito. Mas de modo geral, as crianças que se alimentam com as mãos, manejam a mastigação da maçã mais rápido e têm melhor controle do que está na boca. Então lembre-se, engasgos acontecem, mas em sua maioria entre crianças que só aprenderam a engolir. Antes do engasgo acontecer, o bebê vai experienciar a tosse e depois as chamadas “gags”, ou a tentava de vômito. Tanto a tosse quanto as “gags” são reflexos protetores para expelir o alimento ou objeto antes que ele cause um real engasgo e feche as vias respiratórias.

Uma outra preocupação dos pais é quanto ao volume de comida que a criança ingere. O BLW deve ser feito como complemento ao aleitamento materno, o que significa que durante o período de adaptação e introdução alimentar, os nutrientes são garantidos pelo seio e não pela comida. Nessa fase, os bebês estarão experimentando, não se alimentando da comida do prato. O medo da má alimentação faz com que muitos pais alimentem seus bebês com a colher, e por conseguinte fazem com que o bebê coma mais do que precisa, dificultando o desenvolvimento e reconhecimento da saciedade no bebê. Ficam ansiosos e demandam que o bebê “limpe o prato”. Assim iniciam ou mantém o caminho em direção à obesidade. Há também que se considerar que, a depender da qualidade da papa oferecida, a quantidade de açúcar escondido nessas misturas causa a alta da insulina no sangue, que por sua vez, bloqueia a mensagem de saciedade enviada ao cérebro. Esse é um ciclo vicioso. A criança continua comendo não porque está com fome, mas porque não sabe que já comeu o suficiente.

E um detalhe que para muitos pode ser irritante: a sujeira. Sim, se optar pelo BLW, prepare-se. O chão ao redor da cadeira do seu bebê vai parecer zona de guerra depois de cada refeição. Tudo vai para o chão, para a parede, fica na mesa etc. Tudo isso faz parte das descobertas. Sugere-se que não se use pratos ou talheres, para evitar utensílios causando acidentes durante as refeições e evitando a distração. A criança deve se ocupar da comida, não dos utensílios. Também é importante que a criança coma junto à família, sem TV, celulares, etc. A criança precisa de tempo e concentração para aprender o que significa alimentar-se, e toda a fisiologia envolvida no processo.

Esteja também preparado para os comentários dos desavisados que não entenderão patavinas quando seu filho simplesmente sair da mesa e voltar a brincar, enquanto a maior parte da comida ficou no prato. Ele estará conhecendo seus limites de saciedade e você deve relaxar. O estresse em torno das refeições não é um bom aliado a uma introdução alimentar saudável e a uma vida adulta com um bom relacionamento com os alimentos.

Para mais informações sobre BLW, visite: http://tanahoradopapa.com (em português) ou http://www.babyledweaning.com (em inglês).


Todas nós que temos filhos e escolhemos amamentar, sabemos quão árdua é essa tarefa. Não tanto pela díade mamãe-bebê, mas mais pelas interferências externas. Se decidimos por “seguir o fluxo” e fazer tudo como a cartilha da Nestlé manda, tudo flui de maneira mais descomplicada. A partir do momento em que questionamos um item do passo-a-passo da Nestlé, entramos numa batalha contra tudo e todos. Contra o censo comum e contra o conhecimento compartilhado arraigado nas entranhas culturais de todo um país. É nadar contra a maré – e tomar muito caldo de gente que está se afogando.

Bom, essa batalha é mais dura no Brasil – creio eu -, onde toda a classe pediátrica é formada e informada pela Nestlé. É ela quem “recicla” os pediatras, e as mães brasileiras já saem da maternidade com a cartilha da Nestlé decorada e “ordem médica” de manter a complementação iniciada já na maternidade.

Aos poucos venho descobrindo que essa cartilha não foi só entregue aos países subdesenvolvidos como manobra mercantilista para favorecer conglomerados econômicos que pouco se importam com a saúde dos nossos bebês, mas estão de olho no pouco ou muito dinheiro que temos no bolso. Essa cartilha foi e é distribuída ao redor do mundo capitalista, com maior ou menor penetração a depender do acesso à informação de qualidade. Porque no final das contas, o objetivo do capitalismo é servir ao capital, não às pessoas.

E assim, ouço muita batatada mesmo aqui, na Noruega. Puericulturistas que afirmam seguir as recomendações da OMS, mas incentivam o desmame, direta ou indiretamente, a partir dos 6 meses.

A OMS é um órgão internacional, responsável por filtrar toda a produção acadêmica da área de saúde, e fazer recomendações de saúde baseadas no conhecimento científico mais atual. Eles avaliam se uma pesquisa acadêmica tem qualidade suficiente para ser considerada. As recomendações são embasadas na observação das pesquisas relevantes, e essas pesquisas precisam preencher requisitos qualitativos rígidos. Se você quer saber o que a ciência diz sobre o consumo de açúcar por exemplo, mas não sabe separar o joio do trigo entre as pesquisas encontradas no Google por exemplo – algumas são alarmistas, mas apresentam problemas de metodologia, fizeram poucos testes, ou em um grupo muito pequeno de pessoas, não sendo representativas -, o site da OMS é o melhor lugar para encontrar recomendações que são benéficas à sua saúde. Não à saúde econômica das empresas. Por enquanto, não me parece que tenham cedido ao mercantilismo. A maioria das recomendações vão contra toda a propaganda que nos bombardeia desde as maternidades até as nossas casas.

Clique na imagem abaixo para ler as recomendações sobre amamentação da OMS.

Quando iniciei minha jornada materna, não era tão consciente desses aspectos, nem era tão “hardcore” quanto a minhas escolhas para minha família. Mas a qualidade e quantidade de resistência que encontrei ao fato de “querer fazer o melhor por meus filhos, e agir instintivamente” em minha maternagem, foi me calejando. Essa resistência agregada ao conhecimento da situação no Brasil e a comparação com a situação aqui na Noruega foi me fazendo cada vez mais interessada em entender a fisiologia por trás das minhas intuições e ações instintivas. E eu comecei a ler, e continuo lendo. Me informando. Mantendo um pensamento crítico das coisas que ouço, venham de onde vierem. Não sei mais engolir informações sem antes mastiga-las, saborea-las, rumina-las até. E se não me servem, as ponho pra fora.

Da amamentação para o BLW

Sendo assim, muitas coisas aconteceram instintivamente. Matias mamou exclusivamente até se tornar impossível negar comida à ele, pouco antes de completar 6 meses. Ele não aceitou papas, mingaus, comida amassada… ele queria a comida do nosso prato. De modo instintivo, respeitamos o modo e o tempo dele. Abolimos as papinhas e passamos a oferecer nossa comida. Ele brincou, experimentou, fez (e ainda faz) sujeira e assim foi descobrindo novas texturas, novos sabores, novas cores. Mas o leite materno foi a principal fonte de nutrientes dele até os 2 anos de idade. A comida era a complementação do aleitamento materno, e não o contrário. Não o forçamos a comer tudo o que está no prato. Dificilmente damos comida na boca dele, a menos que ele peça, coisa que ele faz se a comida estiver quente e a gente precisar soprar. Deixamos que ele descubra por si só a sensação de saciedade. Tudo no tempo dele. Sem estresse. Procuro oferecer coisas saudáveis e evito os processados. Para a sobremesa, sempre dou preferência às frutas.

Mas nem tudo são flores. Vivemos num mundo desinformado, obeso, diabético e cheio de venenos oferecidos às crianças como demonstração de amor e consolo. Matias não nega sorvete – servido sempre na casa dos avós -, batata chips e biscoitos salgadinhos – que são acompanhamento certo entre o jantar e a sobremesa por aqui, e nas festas, claro -, doces diversos – que transbordam do bolso do pai -, e toda sorte de porcaria processada que se possa encontrar disponível onde quer que ele vá. Essa é uma batalha que é minha, pelo bem dos meus filhos. A assumi quando resolvi ser mãe. E dela não fujo, nem jogo a toalha. Acredito que esse efeito dominó mundial de obesidade, diabetes e doenças cardíacas logo ganhará mais e mais adversários se esforçando para manter mais e mais peças de pé.

Diz-se que a geração de Matias, na Noruega, vai viver 100 anos. Deus me livre de ve-lo “sobreviver” por 100 anos, cheio de mazelas  causadas pela minha omissão em tenra idade. Esses primeiros 3 anos são a “blueprint”, ou a planta, do caminho que ele deve trilhar pelos próximos 97. Que ele viva 100 anos, e aos 100 anos tenha saúde para pedalar, passear, e ver um mundo melhor do que esse que eu vejo hoje. De que adiantaria “sobreviver” por 100 anos a base de remédios para mantê-lo vivo? Já vemos isso nos dias de hoje, e não há nada mais triste do que ver um idoso se negando a comer porque deseja morrer. Mas o mesmo sistema de saúde que pavimentou a destruição da saúde através de recomendações mercantilistas, agora se reserva o direito de mantê-lo vivo – e em parte fecha o ciclo de sustentação econômica com as empresas farmacológicas – servindo coquetéis de medicamentos para todos os tipos de males.

Esse ciclo começa com a complementação parcial, e logo a substituição total, do aleitamento materno. Já na maternidade aumentamos o risco de obesidade, diabetes e doenças cardio-vasculares de nossos filhos. E o mais trágico nisso, é que esse ciclo é estabelecido e perpetuado por aqueles em que depositamos nossa confiança, aqueles a quem confiamos nossas vidas. “Se o médico falou, quem sou eu pra duvidar?” E ele tem o poder de definir ali mesmo, na maternidade, se, por quanto tempo e como viveremos. A menos que estejamos informados e seguros o suficiente para tomar as rédeas e reclamar um direito que é nosso. O direito de decidir sobre nossas vidas e as vidas de nossos filhos. Os altos índices mundiais de doenças causadas pelo “estilo de vida” já nos provam por A + B que as informações recebidas desde a maternidade não nos têm servido.

Todas essas questões me revisitam hoje, com o pensamento nos bebês que, dentro de mim, estão mais do que menos protegidos. Mas a todas essas questões se agregam a batalha diária que é continuar cuidando da saúde de Matias, iniciar o cuidado com a saúde de mais duas crianças  e ao mesmo tempo me manter firme diante dos ataques à minha confiança como mãe, à confiança como mulher capaz de conceber, gerar, parir e alimentar dois bebês ao seio, sem intrusões desnecessárias.

Objetivamente falando: meu corpo é capaz de produzir leite suficiente para dois bebês. Realisticamente falando: Não faço idéia de como esse trabalho duplo vai influenciar minha bipolaridade. E sonhando: quero poder oferecer à esses dois a mesma dedicação que pude oferecer à Matias até hoje.

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Se você lê bem inglês, sugiro a leitura deste artigo canadense que avalia a obesidade infantil já deflagrada pela complementação – que implica em altas doses calóricas – e seus efeitos ao longo da vida. O artigo argumenta que o número de células gordurosas adquiridas durante o período de complementação não diminui nunca. Sendo assim, um bebê obeso significa geralmente uma criança, um adolescente e um adulto obeso. É muito mais difícil combater a obesidade em adolescentes ou adultos que foram bebês obesos. O artigo sugere a prevenção à obesidade desde a infância, evitando a complementação, a menos que esta seja necessária. Eles também recomendam a conscientização dos pais, afinal, são eles os responsáveis pela alimentação dos bebês.

 

E o milagre se repete

Em julho de 2014 meu ciclo menstrual retornou. À época eu fiquei bastante animada. Pensei que meu corpo já estava pronto pra mais uma gravidez etc. Como nem tudo é como a gente imagina e deseja, eu logo caí na real. Ainda amamentando era natural que demorasse um pouco. Mas li um estudo que dizia que era normal que uma nova gravidez acontecesse em até 7 meses após a volta da menstruação.

Matias ainda mama em livre demanda como disse no post anterior. Isso fez com que meus ciclos fossem irregulares. Um durou até 45 dias. Desencanei.

Mas por muitas vezes me questionei se gostaria mesmo de ter mais um filho. Morten estava satisfeito com Matias, eu também. Não seria preciso dividir os recursos e a presença. Nenhum outro parto pode ser mais maravilhoso que o de Matias, que foi o parto dos meus sonhos. E cada gravidez é uma, nunca se sabe como será a próxima. Por outro lado, venho de família grande, e acho bom ter com quem compartilhar as memórias da infância, os momentos mais íntimos que não se dividem nem com os primos. E Matias é libriano. Librianos andam em pares, adoram companhia, e são bastante ligados à família.

Como precisamos de ajuda pra ter Matias, não achei que seria fácil engravidar de novo, e achei que teria que buscar ajuda novamente se quisesse muito ter outro. Fui deixando as coisas acontecerem. Fui deixando o tempo passar.

Mas desde novembro notei uma mudança na libido. Esteve mais alta do que em qualquer outro tempo que me lembre. Pensei que meu corpo estava dando um “jump-start”, retornando às origens, sem a interferência de anticoncepcionais – os quais não voltarei a tomar, nunca mais.

E há duas semanas fiquei “resfriada”, garganta arranhando, um gosto amargo na boca, bastante indisposta. Não fui trabalhar a primeira semana toda. Dei aulas via internet. Mas conseguia levantar para levar Matias à creche e busca-lo. Comecei a notar um certo incômodo durante a amamentação. Já essa semana as coisas pioraram. Fui trabalhar na segunda. Dormi no caminho de volta, o que é incomum, e me senti ainda pior. Não fui trabalhar na terça, e por sorte meus alunos tinham uma programação universitária na escola; na quarta Matias ficou ainda mais resfriado do que já estava, e ficou em casa comigo. Nessa mesma quarta eu resolvi tirar a “prova dos 9” pra descobrir o que poderia estar acontecendo, e fiz o teste de gravidez logo que levantei. O positivo foi imediato e forte.

Já marquei a consulta de controle com minha médica de família para o dia 19, e queremos fazer uma ultrassonografia para saber, afinal, pra quando esse bebê é. O último ciclo marcado no meu calendário teve início dia 30 de novembro, o que nos coloca a pouco mais de 9 semanas, mas não consigo me recordar se houve mais uma em dezembro, o que nos colocaria a 6 semanas.

Meu cansaço desesperador pode estar associado à anemia leve, e espero que isso se resolva logo com minhas doses cavalares de ferro diária. Só agora comecei a tomar todas as vitaminas de que preciso. E não está sendo fácil amamentar ao mesmo tempo. Agora já me surgem questões quanto ao desmame, por exemplo.

De qualquer modo, ainda é cedo e muita coisa ainda pode acontecer. Eu ainda não estou me sentindo tão bem pra curtir a gravidez. Mas estou torcendo pra que eu melhore logo e possa ter um olhar mais positivo sobre essa gravidez. Por enquanto só penso que seria ótimo dormir direto até setembro.

Mas isso logo passa. Se me lembro bem, o segundo trimestre é um show!

Ainda não sei se vou tirar fotos toda semana como fiz com Matias, mas vou vir contar minhas agruras e alegrias sempre que tiver algo pra contar.

2 anos!

Tanta coisa aconteceu ao longo dos últimos 365 dias. Comum a todos os dias é meu sentimento de gratidão à Deus por ter me presenteado com a responsabilidade de guiar Matias enquanto ele precisar. Ter o prazer de gerar um filho não nos é garantido. Receber a graça de poder aprender a amar uma pessoa pra além de nós mesmos é uma dádiva. Poder dividir essa experiência com outra pessoa também não é via de regra. Mas agradeço à Deus por ter me confiado Matias e ter escolhido Morten para dividir comigo essa caminhada de aprendizado.

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Bom, Matias é, como toda criança, especial. Apesar de ser menino, é bastante detalhista e observador. É falante. Fala, fala e fala! E eu fico babando, observando o desenvolvimento dele: de sílabas, para palavras e agora frases – em português e norueguês. Adora cantarolar, gosta que a gente leia historinhas pra ele antes de dormir – e às vezes no meio do dia também. É fascinado por tudo o que tem roda. Carrinhos, tratores, trens, ônibus. Gosta de Lego e coisas de encaixar. Desenvolveu logo a coordenação motora fina. Deu os primeiros passos na véspera do ano novo, com 1 ano e dois meses. Desde então não pára. Corre o tempo todo! E eu tenho que correr junto, claro. Gosta de assistir a “O bombeiro Sam”, canta a musiquinha e tudo, “Pocoyo”, “O jardim dos sonhos” e “Raa Raa, o leão barulhento”. Ai, ele está uma gracinha, só vendo mesmo. Eu poderia escrever um testamento sobre cada detalhe, mas é melhor me controlar. Então, vamos por partes.

Brasil

Matias e o primo na casa da vovó.

Matias e o primo na casa da vovó.

Estivemos no Brasil entre julho e agosto para exibir o rebento. Foram 3 semanas corridas, intensas, às vezes estressantes, mas muito gostosas. Matias pôde rever os avós brasileiros, rever e conhecer os tios e conhecer o único primo brasileiro. E conhecer o restante da família, claro. Meus primos, meus meio-irmãos, meus tios e tias, alguns amigos etc. Matias adorou os churrascos. Arroz e feijão. Fazer bagunça com a vovó, visitar o vovô, brincar com o primo, andar de ônibus e trem – que pra ele é um evento social, foi à praia. Nós tivemos alguma dificuldade com o fuso, e em manter a rotina dele. Foi bastante doloroso pra mim. No Brasil tudo acontece à noite. Festas de crianças podem começar às 19 horas. As festas da minha família só esquentam mesmo lá pelas 21 horas, quando não lá pelas 23 horas. Mas Matias vai pra cama cedo. Quando dorme às 21 horas eu já me descabelei toda. Geralmente, entre 19 e 20 horas Matias já está na cama. Difícil conciliar. E tudo no Brasil é longe também. Às vezes tínhamos que ir embora bem cedo pra chegar a tempo de coloca-lo na cama e evitar uma crise de choro por exaustão. Levamos a cadeirinha do carro daqui, levamos também o carrinho safado de viagem – que não foi usado nem 1 vez. Matias só queria andar, e na maioria das vezes o canguru era mais prático que o carrinho.

Brincando com o trem que ganhou do Vovô Chico.

Brincando com o trem que ganhou do Vovô Chico.

Creche

Brincando no ginásio com o grupo da creche.

Brincando no ginásio com o grupo da creche.

Matias trocou de creche esse ano. No ano passado ele frequentou uma Creche Familiar, com 8 crianças. A creche ficava perto do meu trabalho. Ao final do ano já estava ficando complicado viajar com Matias. Depois que começou a andar, ficar sentado por mais de 20 minutos era bastante desafiador. Com a graça de Deus, conseguimos vaga na creche da universidade que fica entre a nossa casa e o ponto de ônibus. Show! Essa creche tem mais de 100 crianças! Mas o grupo de Matias tem 21 crianças e fica dividido em dois, sendo o grupo dele o menor, com 8 crianças. A creche é bem legal e eles seguem a Teoria do Apego! Amei! Quando chegamos do Brasil, fomos direto pra adaptação na creche. Por sorte eu fui convocada para a greve de professores e deu pra acompanhar as primeiras 3 semanas dele na creche. Matias se adaptou bem, mas relutou em dormir na creche. Ao final de 4 semanas eu estava quase voando no pescoço dos assistentes por isso. Matias não dormia na creche e chegava em casa uma pilha. Como Morten viaja toda semana, eu fico muito sozinha com Matias. Eu não estava aguentando! Mal conseguia fazer janta, e quando fazia era com Matias no meu colo. Foi super cansativo. A solução foi começar a acorda-lo às 6 da manhã pra garantir que a soneca se tornasse irresistível na creche. Desde então, Matias dorme que é uma beleza e é outra criança quando chega em casa.

Amamentação

Matias ainda mama! Yes! E pensar que meu tímido plano era amamentar por 6 meses. A OMS recomenda amamentação em livre demanda até pelo menos 2 anos, mais se possível. Isso eu consegui! Matias fica bem sem mamar durante o dia, enquanto está na creche. Come tudo o que dão lá. Ele mama no caminho pra casa, se eu for busca-lo, ou quando chega em casa nos dias que Morten vai busca-lo. Depois mama pra dormir, e algumas poucas vezes, ou talvez uma vez, durante a noite (eu não sei ao certo quantas vezes ele mama durante a noite porque ele não me acorda). Ou seja, livre demanda pura. Ele esteve resfriado duas vezes seguidas essas últimas semanas, e foi bom saber que ele pelo menos estava mamando, porque não tinha apetite pra mais nada. Por enquanto o plano é o desmame natural. Ele ainda não reflete sobre mamar. Então não vejo razão para desmama-lo, nem pra falar sobre isso ainda. Ele nem se importa de mamar na creche, com outras crianças maiores olhando. Ainda diz pra eles: “Não, é meu!”

Cama compartilhada

Ainda em vigor no nosso pequeno reino. Em time que está ganhando não se mexe. Matias dorme bem, nós dormimos bem. Matias está bem apegado e seguro de si. Nós estamos seguros e satisfeitos com a nossa escolha. O pessoal na creche perguntava se Matias não usa chupeta, se não tem um ursinho ou algo que o valha pra ajuda-lo a dormir. Eles sempre ficavam admirados com a resposta. Não, Matias não usa “props” pra dormir. Na creche, eles o colocam na cama, e ele adormece. Sem choro. E se ficar sozinho, dorme ainda mais rápido.

Fralda, desfralde

Matias ainda usa fraldas. E descartáveis por causa da alergia. Matias reagiu mal às de pano e reage mal a qualquer fralda com muito gel, loção, perfume etc. Resumo. Usamos as fraldas mais baratas do mercado. Na creche que ele está, as crianças são incentivadas a usar o vaso. Matias gosta da brincadeira, de jogar papel no vaso e dar descarga. Mas ainda prefere fazer xixi e cocô na fralda. Ele ainda avisa. Antes negava que estivesse fazendo cocô, mas agora já diz que “sim”. Ele gosta de ficar pelado, e ultimamente tem pedido pra ficar pelado um tempo antes de dormir. Ontem ele ficou tanto tempo sem fralda que acabou fazendo xixi na cama enquanto brincava 😦 Enquanto ele não se interessa mesmo por usar o penico e o vaso, vamos deixando ele usar fraldas. Daqui a pouco o inverno está chegando, e aí fica mais difícil fazer o desfralde. Melhor esperar pelo próximo verão.

Alimentação

Matias fez 2 anos anteontem e parece que um botão foi ligado nele. Ele esteve doente, como disse antes, e o apetite desapareceu. Mas desde ontem ele tem comido porções maiores. Ele já pede comida quando está com fome, e o peito se está entediado, triste, com sono, com dor ou depois de ficar muito tempo longe de mim. Durante um período Matias só queria comer cenoura, se negava a comer batata. Agora, não quer cenoura, mas come batata. Adora patê de fígado, carne, milho, ovo e sempre pede arroz e feijão. Mas o campeão: frutas! E pode ser qualquer uma. Ir ao mercado com ele significa comprar alguma fruta, mesmo que a gente já a tenha em casa. A primeira seção, na entrada do mercado, é a de frutas, e Matias começa a gritar: Uva! Banana! Ameixa! Bringebæar! (framboesa) Jordbæar! (morango) Appelsin! (laranja) Blåbær! (mirtilo)… e não tem jeito, sempre tenho que comprar uma fruta que seja. Eu tento evitar que ele coma muita porcaria. Mas é difícil. Porcaria é o que mais se oferece e serve à crianças. Balas, doces, refrigerantes, sorvete, biscoitos etc… Na festinha de aniversário de 2 anos ele pôde tomar “uma dose” de coca-cola com o pai. Às vezes sinto que essa é uma batalha vencida, e não por mim. A pressão é muito grande. Eu chamo Morten de “candy man”. É muita bala de goma, muita coca-cola, muito açúcar, muita batata frita, gordura etc. Ele até que tem conseguido respeitar bastante meu desejo de que Matias não seja imerso nessa dieta de engorda dos infernos que condena crianças à diabetes, obesidade, doenças cardíacas etc. E é importante dizer, não quero que Matias nunca coma essas coisas, mas como dizem, nos primeiros anos de vida a gente define a dieta pro resto da vida. É impossível não comer lixo nessa industrialização global dos alimentos, mas quanto mais consciente ele estiver sobre sua própria dieta, melhor chances ele terá de fazer escolhas mais saudáveis no seu dia-a-dia. Como mãe, me sinto responsável por tomar as melhores decisões por ele até que ele possa decidir por si só. Mas acredito na decisão informada. Não acredito que o tornando escravo da gordura e do açúcar seja uma maneira muito inteligente de ensina-lo a comer de forma saudável. Mas, claro, nada disso é simples, e minhas aspirações sobre ter um filho que não torça o nariz para legumes não estão garantidas de se concretizarem.

Expectativas

Mais um ano começa e espero poder me manter firme no meu desejo de cuidar de Matias, de dar à ele o tempo e o amor necessários pra que ele cresça “em estatura e sabedoria”. É maravilhoso vê-lo se desenvolver, descobrir novas coisas sobre si e sobre o mundo. É bom conhecê-lo melhor a cada dia, porque todo dia uma nova característica da personalidade dele aparece.

Assoprando a velinha. Festinha de 2 anos.

Assoprando a velinha. Festinha de 2 anos.

Comemorando os 2 aninhos completos.

Comemorando os 2 aninhos completos.