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O tempo voa – 6 meses

Alexander e Cecilie completaram 6 meses no último dia 15. E nossa, como o tempo passou rápido.

Na verdade nem sei bem o que escrever agora, mas pensei que, seis meses é um marco. Especialmente para a amamentação. Então vamos às divagações.

Consegui amamenta-los exclusivamente, em livre demanda, durante esses seis meses. Eles nasceram um pouco antes do tempo, então o desenvolvimento não está bem de acordo com a idade cronológica.

Alexander ainda está feito macarrão, super mole. Mas começou a virar antes de Cecilie que é um pedacinho de pau desde que saiu da barriga. Ela não ficou muito atrás. Dois dias depois ela também começou a virar. Ele passou a dormir de bruços, e acorda quando não consegue virar. Ela dorme de lado e vira, geralmente, quando está no chão, brincando. No chão, ele prefere se balançar de um lado pro outro. Mas é na cama que eles gostam de fazer estripulias. Ambos já tentam usar as pernas e pés, como se fossem engatinhar.

Mas Alexander ainda está muito mole. E isso me preocupa às vezes. Uma das desvantagens de ter gêmeos é que, mesmo que racionalmente não queiramos compara-los, inconscientemente o fazemos. E a diferença entre os dois é bastante grande. Nasceram com uma diferença de 90g, mas o desenvolvimento e crescimento tem sido bastante diferente.

stickers-michelin.jpgCecilie puxou a família do pai, e Alexander a minha. Nas curvas, ela está acima da média norueguesa, e Alexander muito abaixo – Matias fica em algum lugar entre os dois, mas abaixo da média norueguesa. Ela já pesa pouco mais de 8kg, ele ainda não chegou a 7kg. Eles estiveram doentes. Pegaram uma virosa de Matias. Cecilie tinha febre e eu não percebi. Ela continuou brincando como de costume. Alexander ficou super mal. Teve muita febre. Ficou afônico. O vírus se espalhou para os ouvidos e ele teve otite viral e a otite rendeu uma otorréia doida.  Só amanhã terminamos o tratamento da otorréia. Graças a Deus, ele deixou de mamar por um período curto e depois voltou a mamar como de costume. Mas perdeu peso por conta da febre. Cecilie segue engordando. Parece o boneco da Michelin.

A diferença de peso não é alarmante. Acho que a moleza do corpo dele me incomoda mais. Já estivemos com a fisioterapeuta duas vezes e de acordo com ela, ele está se desenvolvendo normalmente, no tempo dele. Antes, quando o colocava de barriga para baixo, ele virava um arco. Ficava com as mãos e pés no ar, arqueando as costas. E chorava muito. Agora ele mesmo vira e já brinca de barriga para baixo. Mas reclama quando não consegue desvirar. Já tenta se movimentar com a ajuda das pernas e dos pés, como se fosse engatinhar e tal. Escrevendo isso agora, noto que a diferença nem é tão grande assim. Neuras da maternidade.

Ter um bebê doente já é ruim em si, mas pior que isso foi não ver Alexander sorrir por dias a fio. Dizem que uma mãe está sempre tão feliz quanto o filho mais triste. Isso nunca fez tanto sentido pra mim como durante essas semanas. Brincava com Matias e Cecilie, mas por dentro estava tão silenciosa quanto Alexander. Não ver o sorriso, não ouvir os barulhinhos dele… Foi doloroso. Esse foi meu termômetro. Enquanto ele não volta a sorrir, ele não está bem. E eles me fazem rir. Como me fazem rir.

Cecilie parece um sol quando ri. E ela ri o tempo todo. Quando acordo, sou presenteada com aquele sorriso largo e sincero. Desses que escapolem pelos olhos dela e enchem os meus. Quando ela vê Matias de manhã, derrama o mesmo sorriso para ele. E gargalha quando brincam. Alexander gosta de rir alto. Gosta de cócegas. Action. Ele ri gostoso. Faz os barulhinhos mais gostosos. Balbucia muito. Acho que esses dois me farão rir com gosto, muito, mas muito gosto. E já o fazem.

12832348_1529410737361928_6380072557004094298_nMas, diferentes de Matias, são reservados. Matias é super social. Se jogava no colo de estranhos, ou melhor, estranhas. Sempre sorriu para todo mundo. Hoje conversa com estranhos, ou melhor, estranhas, no ônibus, no ponto, na rua. Alexander e Cecilie ficam em silêncio. Observam. Não riem, não fazem barulho. E, com gêmeos, vira e mexe me pego na situação de um dos dois estar chorando no carrinho e um estranho, ou melhor, estranha, se oferecer para segurar. Toda vez que isso acontece e alguém segura Cecilie, eu pago o pato. Ela fica quieta no colo da estranha, mas logo que volta para o meu, chora como se brigasse comigo por deixar alguém estranho segura-la. Quando um estranho segura Alexander, ele geralmente não pára de chorar, e ainda chora mais.

Quando recebemos visitas, também ficam bastante quietos. Nossa última experiência foi no sábado. Recebemos amigos para jantar. Casa cheia. Mais ou menos na hora de coloca-los na cama. Cecilie foi em alguns colos, mas sempre quieta. Nada de sorrisos. Alexander parecia estar “aguentando” aquilo tudo, esperando que acabasse pra vida voltar ao normal. Ficou bastante quieto. Fez uns barulhinhos enquanto um outro bebê começou a mexer na perna dele. Dormiram. Alexander acordou um pouco mais tarde, como de costume, e participou de algumas brincadeiras com os outros bebês e Matias, mas no colo do pai. Observando.

Meu sogro comentou numa das últimas vezes que esteve aqui, que não vê Cecilie sorrir. Alexander gargalha quando minha sogra o pega. Ela não precisa fazer absolutamente nada, e ele já gargalha. Meu sogro não tem a mesma sorte. Mas Cecilie é a mais séria. Ela simplesmente não sorri. Encara as pessoas, mas não sorri mesmo. E na verdade, eu já sabia que eles não seriam “dados” como Matias. E acho até bom. Sempre tenho medo de que  Matias seja levado por um estranho, ou melhor, uma estranha. Com esses dois tudo fica mais simples, hehehehehehehe. Mas agora estou pensando em criar coragem, e na próxima vez que um estranho, ou melhor, estranha, se oferecer para “ajudar” e segurar um dos bebês, vou ser sincera. “Obrigada, mas, não, obrigada!”

Observo que, com gêmeos, em muitas situações, as ajudas, de modo geral, me causam mais problemas. Eles já estão acostumados a esperar. E, geralmente, quando um chora, o outro para e se acalma ouvindo o choro, até que o choro se transforme em barulhinhos ou cesse. Hoje Cecilie chorou um pouco no carrinho enquanto estava na cidade. Alexander estava quieto, ouvindo. Já dentro do ônibus, tirei Cecilie do carrinho para que ela parasse de chorar. Ela parou, mas Alexander começou a chorar imediatamente. Eles não se vêem no carrinho, mas se acalmam com os barulhinhos do outro. Se estiverem perto um do outro, eles se consolam. Hoje de manhã Alexander acordou chorando. Cecilie imediatamente segurou a mão dele e ele parou de chorar, e eu pude cochilar mais um pouquinho 🙂 .

Ah, e sobre a introdução alimentar… eles ainda não estão prontos. Não estão interessados em comida, e o reflexo de cuspir ainda é muito forte, especialmente em Alexander. Tentamos no domingo. Nada feito. Quero fazer o BLW com eles também. Só a idéia de enfiar colheres de comida goela abaixo em dois bebês já me estressa. Não há nada mais relax do que BLW. Foi assim com Matias, e assim será com eles. [Falei do BLW nesse post]. Tentaremos de novo na próxima semana.

E para comemorar os seis meses, aqui vão fotos dos bebês.

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Um abraço.

Amamentação e BLW – uma dose de objetividade, outra de realidade e duas de sonho

Eu pareço meio hippie às vezes. Natureba, zen, instintiva. E minha caminhada até aqui em relação à alimentação de Matias só corrobora essa impressão.

A teoria do apego tem permeado todas as nossas decisões, e aquelas relativas à amamentação não fogem à regra. Amamentei exclusivamente até os seis meses, fizemos um BLW intuitivo – acompanhando o desenvolvimento de Matias, sem saber que fazíamos BLW – e agora tenho pensado sobre o resultado disso e em como será com dois bebês ao mesmo tempo.


O que é BLW

Diz-se que o chamado “Baby led weaning” é uma “nova moda” em introdução alimentar. Mas isso não é verdade. Historicamente falando, “o baby led weaning”, ou a introdução alimentar controlada pelo bebê, foi praticada em todas as culturas pré-industrialização na década de 1920. Os bebês comiam da comida da família. Amassadas em algumas ocasiões, mas não necessariamente pastosas. Não haviam processadores de comida, nem papas industrializadas oferecidas às famílias. A criança comia o que estava a disposição da família.

A maioria dos bebês está pronta para se alimentar e demonstra interesse por outros alimentos a partir do sexto mês de vida. Alguns um pouco antes, outros depois. Mas basicamente, esse tipo de introdução alimentar permite que o bebê explore os alimentos. As diferentes texturas, cheiros, cores e sabores. Os pais não precisam fazer comida separada para o bebê e não o alimentam com a colher por exemplo.

Quando damos papas a um bebê com a colher, ele não está aprendendo a mastigar, porcionar e manejar o alimento na boca, mas está aprendendo a engolir. Quando servimos alimentos cortados, cozidos o suficiente para que possam mastigar sem que vire um purê entre os dedos, ele vai sentir a textura nos dedos, desenvolver o movimento manual de pinça, mastigar, porcionar e manejar o alimento antes de engoli-lo. No começo, muito pouco é engolido. Toda a experiência de provar um novo alimento com as mãos e a boca já é suficiente para o aprendizado, e cuspir tudo é a via de regra. Engolir não é a primeira coisa que aprendem. 

Muitos pais temem os engasgos. Engasgos são perigosos e todos nós devemos aprender a manobra para retirar alimentos da garganta do bebê de modo seguro. Entretanto, a maioria dos engasgos acontece com crianças alimentadas com colher, não com as que se alimentam com as mãos. A maçã é um grande vilão nesse quesito. Mas de modo geral, as crianças que se alimentam com as mãos, manejam a mastigação da maçã mais rápido e têm melhor controle do que está na boca. Então lembre-se, engasgos acontecem, mas em sua maioria entre crianças que só aprenderam a engolir. Antes do engasgo acontecer, o bebê vai experienciar a tosse e depois as chamadas “gags”, ou a tentava de vômito. Tanto a tosse quanto as “gags” são reflexos protetores para expelir o alimento ou objeto antes que ele cause um real engasgo e feche as vias respiratórias.

Uma outra preocupação dos pais é quanto ao volume de comida que a criança ingere. O BLW deve ser feito como complemento ao aleitamento materno, o que significa que durante o período de adaptação e introdução alimentar, os nutrientes são garantidos pelo seio e não pela comida. Nessa fase, os bebês estarão experimentando, não se alimentando da comida do prato. O medo da má alimentação faz com que muitos pais alimentem seus bebês com a colher, e por conseguinte fazem com que o bebê coma mais do que precisa, dificultando o desenvolvimento e reconhecimento da saciedade no bebê. Ficam ansiosos e demandam que o bebê “limpe o prato”. Assim iniciam ou mantém o caminho em direção à obesidade. Há também que se considerar que, a depender da qualidade da papa oferecida, a quantidade de açúcar escondido nessas misturas causa a alta da insulina no sangue, que por sua vez, bloqueia a mensagem de saciedade enviada ao cérebro. Esse é um ciclo vicioso. A criança continua comendo não porque está com fome, mas porque não sabe que já comeu o suficiente.

E um detalhe que para muitos pode ser irritante: a sujeira. Sim, se optar pelo BLW, prepare-se. O chão ao redor da cadeira do seu bebê vai parecer zona de guerra depois de cada refeição. Tudo vai para o chão, para a parede, fica na mesa etc. Tudo isso faz parte das descobertas. Sugere-se que não se use pratos ou talheres, para evitar utensílios causando acidentes durante as refeições e evitando a distração. A criança deve se ocupar da comida, não dos utensílios. Também é importante que a criança coma junto à família, sem TV, celulares, etc. A criança precisa de tempo e concentração para aprender o que significa alimentar-se, e toda a fisiologia envolvida no processo.

Esteja também preparado para os comentários dos desavisados que não entenderão patavinas quando seu filho simplesmente sair da mesa e voltar a brincar, enquanto a maior parte da comida ficou no prato. Ele estará conhecendo seus limites de saciedade e você deve relaxar. O estresse em torno das refeições não é um bom aliado a uma introdução alimentar saudável e a uma vida adulta com um bom relacionamento com os alimentos.

Para mais informações sobre BLW, visite: http://tanahoradopapa.com (em português) ou http://www.babyledweaning.com (em inglês).


Todas nós que temos filhos e escolhemos amamentar, sabemos quão árdua é essa tarefa. Não tanto pela díade mamãe-bebê, mas mais pelas interferências externas. Se decidimos por “seguir o fluxo” e fazer tudo como a cartilha da Nestlé manda, tudo flui de maneira mais descomplicada. A partir do momento em que questionamos um item do passo-a-passo da Nestlé, entramos numa batalha contra tudo e todos. Contra o censo comum e contra o conhecimento compartilhado arraigado nas entranhas culturais de todo um país. É nadar contra a maré – e tomar muito caldo de gente que está se afogando.

Bom, essa batalha é mais dura no Brasil – creio eu -, onde toda a classe pediátrica é formada e informada pela Nestlé. É ela quem “recicla” os pediatras, e as mães brasileiras já saem da maternidade com a cartilha da Nestlé decorada e “ordem médica” de manter a complementação iniciada já na maternidade.

Aos poucos venho descobrindo que essa cartilha não foi só entregue aos países subdesenvolvidos como manobra mercantilista para favorecer conglomerados econômicos que pouco se importam com a saúde dos nossos bebês, mas estão de olho no pouco ou muito dinheiro que temos no bolso. Essa cartilha foi e é distribuída ao redor do mundo capitalista, com maior ou menor penetração a depender do acesso à informação de qualidade. Porque no final das contas, o objetivo do capitalismo é servir ao capital, não às pessoas.

E assim, ouço muita batatada mesmo aqui, na Noruega. Puericulturistas que afirmam seguir as recomendações da OMS, mas incentivam o desmame, direta ou indiretamente, a partir dos 6 meses.

A OMS é um órgão internacional, responsável por filtrar toda a produção acadêmica da área de saúde, e fazer recomendações de saúde baseadas no conhecimento científico mais atual. Eles avaliam se uma pesquisa acadêmica tem qualidade suficiente para ser considerada. As recomendações são embasadas na observação das pesquisas relevantes, e essas pesquisas precisam preencher requisitos qualitativos rígidos. Se você quer saber o que a ciência diz sobre o consumo de açúcar por exemplo, mas não sabe separar o joio do trigo entre as pesquisas encontradas no Google por exemplo – algumas são alarmistas, mas apresentam problemas de metodologia, fizeram poucos testes, ou em um grupo muito pequeno de pessoas, não sendo representativas -, o site da OMS é o melhor lugar para encontrar recomendações que são benéficas à sua saúde. Não à saúde econômica das empresas. Por enquanto, não me parece que tenham cedido ao mercantilismo. A maioria das recomendações vão contra toda a propaganda que nos bombardeia desde as maternidades até as nossas casas.

Clique na imagem abaixo para ler as recomendações sobre amamentação da OMS.

Quando iniciei minha jornada materna, não era tão consciente desses aspectos, nem era tão “hardcore” quanto a minhas escolhas para minha família. Mas a qualidade e quantidade de resistência que encontrei ao fato de “querer fazer o melhor por meus filhos, e agir instintivamente” em minha maternagem, foi me calejando. Essa resistência agregada ao conhecimento da situação no Brasil e a comparação com a situação aqui na Noruega foi me fazendo cada vez mais interessada em entender a fisiologia por trás das minhas intuições e ações instintivas. E eu comecei a ler, e continuo lendo. Me informando. Mantendo um pensamento crítico das coisas que ouço, venham de onde vierem. Não sei mais engolir informações sem antes mastiga-las, saborea-las, rumina-las até. E se não me servem, as ponho pra fora.

Da amamentação para o BLW

Sendo assim, muitas coisas aconteceram instintivamente. Matias mamou exclusivamente até se tornar impossível negar comida à ele, pouco antes de completar 6 meses. Ele não aceitou papas, mingaus, comida amassada… ele queria a comida do nosso prato. De modo instintivo, respeitamos o modo e o tempo dele. Abolimos as papinhas e passamos a oferecer nossa comida. Ele brincou, experimentou, fez (e ainda faz) sujeira e assim foi descobrindo novas texturas, novos sabores, novas cores. Mas o leite materno foi a principal fonte de nutrientes dele até os 2 anos de idade. A comida era a complementação do aleitamento materno, e não o contrário. Não o forçamos a comer tudo o que está no prato. Dificilmente damos comida na boca dele, a menos que ele peça, coisa que ele faz se a comida estiver quente e a gente precisar soprar. Deixamos que ele descubra por si só a sensação de saciedade. Tudo no tempo dele. Sem estresse. Procuro oferecer coisas saudáveis e evito os processados. Para a sobremesa, sempre dou preferência às frutas.

Mas nem tudo são flores. Vivemos num mundo desinformado, obeso, diabético e cheio de venenos oferecidos às crianças como demonstração de amor e consolo. Matias não nega sorvete – servido sempre na casa dos avós -, batata chips e biscoitos salgadinhos – que são acompanhamento certo entre o jantar e a sobremesa por aqui, e nas festas, claro -, doces diversos – que transbordam do bolso do pai -, e toda sorte de porcaria processada que se possa encontrar disponível onde quer que ele vá. Essa é uma batalha que é minha, pelo bem dos meus filhos. A assumi quando resolvi ser mãe. E dela não fujo, nem jogo a toalha. Acredito que esse efeito dominó mundial de obesidade, diabetes e doenças cardíacas logo ganhará mais e mais adversários se esforçando para manter mais e mais peças de pé.

Diz-se que a geração de Matias, na Noruega, vai viver 100 anos. Deus me livre de ve-lo “sobreviver” por 100 anos, cheio de mazelas  causadas pela minha omissão em tenra idade. Esses primeiros 3 anos são a “blueprint”, ou a planta, do caminho que ele deve trilhar pelos próximos 97. Que ele viva 100 anos, e aos 100 anos tenha saúde para pedalar, passear, e ver um mundo melhor do que esse que eu vejo hoje. De que adiantaria “sobreviver” por 100 anos a base de remédios para mantê-lo vivo? Já vemos isso nos dias de hoje, e não há nada mais triste do que ver um idoso se negando a comer porque deseja morrer. Mas o mesmo sistema de saúde que pavimentou a destruição da saúde através de recomendações mercantilistas, agora se reserva o direito de mantê-lo vivo – e em parte fecha o ciclo de sustentação econômica com as empresas farmacológicas – servindo coquetéis de medicamentos para todos os tipos de males.

Esse ciclo começa com a complementação parcial, e logo a substituição total, do aleitamento materno. Já na maternidade aumentamos o risco de obesidade, diabetes e doenças cardio-vasculares de nossos filhos. E o mais trágico nisso, é que esse ciclo é estabelecido e perpetuado por aqueles em que depositamos nossa confiança, aqueles a quem confiamos nossas vidas. “Se o médico falou, quem sou eu pra duvidar?” E ele tem o poder de definir ali mesmo, na maternidade, se, por quanto tempo e como viveremos. A menos que estejamos informados e seguros o suficiente para tomar as rédeas e reclamar um direito que é nosso. O direito de decidir sobre nossas vidas e as vidas de nossos filhos. Os altos índices mundiais de doenças causadas pelo “estilo de vida” já nos provam por A + B que as informações recebidas desde a maternidade não nos têm servido.

Todas essas questões me revisitam hoje, com o pensamento nos bebês que, dentro de mim, estão mais do que menos protegidos. Mas a todas essas questões se agregam a batalha diária que é continuar cuidando da saúde de Matias, iniciar o cuidado com a saúde de mais duas crianças  e ao mesmo tempo me manter firme diante dos ataques à minha confiança como mãe, à confiança como mulher capaz de conceber, gerar, parir e alimentar dois bebês ao seio, sem intrusões desnecessárias.

Objetivamente falando: meu corpo é capaz de produzir leite suficiente para dois bebês. Realisticamente falando: Não faço idéia de como esse trabalho duplo vai influenciar minha bipolaridade. E sonhando: quero poder oferecer à esses dois a mesma dedicação que pude oferecer à Matias até hoje.

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Se você lê bem inglês, sugiro a leitura deste artigo canadense que avalia a obesidade infantil já deflagrada pela complementação – que implica em altas doses calóricas – e seus efeitos ao longo da vida. O artigo argumenta que o número de células gordurosas adquiridas durante o período de complementação não diminui nunca. Sendo assim, um bebê obeso significa geralmente uma criança, um adolescente e um adulto obeso. É muito mais difícil combater a obesidade em adolescentes ou adultos que foram bebês obesos. O artigo sugere a prevenção à obesidade desde a infância, evitando a complementação, a menos que esta seja necessária. Eles também recomendam a conscientização dos pais, afinal, são eles os responsáveis pela alimentação dos bebês.