Arquivo de Tag | Brasil

“Terrible twos” – sendo posta à prova

Nunca imaginei minha vida adulta sem filhos. Pensava que, mesmo solteira, teria pelo menos um filho. A falta da presença e do apoio de um marido não me impediriam de experienciar a maternidade. Eu seria mãe. Ponto.

Depois de casada e com tudo no lugar, descobri que ser mãe não seria tão simples como “ter uma noite apenas” e engravidar, como aconteceu com muitas das meninas que conhecia. Nosso caminho seria longo. Matias é chamado de “milagrinho” por mim aqui no blog. Na Noruega ele é o que chamam “ønskebarn”, ou “criança do desejo”. Ønskebarna são todas as crianças não concebidas naturalmente, mas com algum tipo de ajuda. Ønskebarna são concebidas através de estímulo hormonal, fertilização in vitro, adoção ou barriga de aluguel. Nós não fomos tão longe, mas o processo entre o natural e o estímulo hormonal se arrastou por quatro anos. Eu tinha acabado de completar 30 anos quando engravidei, e já estava meio no Brasil, meio na Europa desde os vinte e cinco anos. Posso dizer que fui ter filhos “com a cabeça sobre os ombros”, tendo ponderado e amadurecido a idéia.

Quando vim para a Noruega, lembro de observar avidamente a criação e o comportamento das minhas sobrinhas norueguesas. Minha idéia sempre foi aprender o máximo possível e conjugar o melhor da Noruega ao melhor do Brasil. Lembro que o comportamento das crianças e as atitudes da minha cunhada me causavam estranhamento. As crianças gritavam, jogavam as coisas, e os pais me pareciam apáticos. Muito distantes dos padrões brasileiros aos quais eu estava acostumada. Eu já sabia que aqui a Lei da Palmada está em vigor desde 1981. Outras formas de criação são aplicadas. O que não significa que não hajam famílias norueguesas que usem a violência como método – mas estes costumam ter problemas de natureza psicológica e, mais tarde, legais, perdendo a guarda dos filhos.

Tudo o que lembrava sobre criação envolvia a violência e o medo perpetrados pela palmada, o cinto, a vara, o chinelo, o grito, a ameaça e os abusos verbal e psicológico. Claro que até aquele momento, nada disso tinha esses nomes quase criminosos. Tudo fazia parte da criação licenciada pela Bíblia, o lugar comum, a prática corrente.

Lembro também que, mesmo quando criança, eu me questionava sobre esses métodos. Incomodavam-me os abusos que as outras crianças sofriam, entre si e partindo de adultos. Não gostava [e não gosto] de ver adultos fazendo crianças chorar por diversão. E eu era uma criança. Acho que fazia o que podia para me proteger desse tipo de situação, e certamente não consegui fugir de todos. Mas o sofrimento dos outros me marcaram mais do que os meus, dos quais não me lembro.

Diferente de muitos dos lares da vizinhança, em que o pai trabalhava fora e era “o general” no fim do dia, no meu minha mãe era “a general”. Era ela quem chegava em casa no fim do dia, encontrava os vizinhos fazendo fila para derramar suas reclamações do dia, e nos corrigia quando julgava necessário. Meu pai sempre foi contra o uso da violência na nossa criação, e era ele quem passava a maior parte do tempo com a gente durante o dia – e me defendia quando achava que a punição era desnecessária.

Durante os anos de desenvolvimento, apanhei com e sem motivo, o que fez com que eu logo entendesse que nem sempre a razão da “correção” estava em mim, mas nas frustrações pessoais do adulto, que eram derramadas sobre mim. Ainda hoje lembro, como cenas de cinema em 3D, alguns exemplos disso. Me marcaram mais as violências indevidas sofridas e presenciadas dentro de casa, do que aquelas sofridas na rua.

Já adulta, sabia bem que criaria filhos seguindo o exemplo do meu pai. Sem violência. E na Noruega essa é a lei. Todo e qualquer tipo de violência contra a criança é proibido. Depois que nascem, elas têm tanto direito à proteção do estado quanto um cidadão adulto. Da mesma forma que o governo me protege de mim mesma impondo impostos absurdos sobre o álcool e o tabaco, o governo também protege meu filho de mim se eu representar perigo à ele. Simples assim. As crianças também têm cidadania. Um resultado do individualismo ocidental.

Com o passar dos anos e meu mergulho na sociedade norueguesa, as tentativas de reflexão acerca de mim, da minha cultura e mentalidade contraposta aos valores noruegueses, foram fundamentando minhas próprias idéias e entendimento do que melhor funciona em nossa pequena família multicultural. O fato de aqui as crianças não serem amedrontadas e reprimidas através da violência e da busca por cidadãos críticos desde o berço me fizeram desejar ainda mais um outro mundo, mais pacífico, menos traumatizado e menos violento dentro do meu lar.

E aí Matias entrou na fase do chamado “terrible twos”. A partir dos 18 meses, as crianças entram num estágio de desenvolvimento caracterizado por mudanças de humor, explosões de raiva e frustração (ou tantrum no inglês) e aumento no uso da palavra “não”. Nesse período, elas começam a se descobrir como “o outro” e não mais uma parte da mamãe. A busca pela independência entra em conflito com a grande necessidade de ajuda dos pais. Essa fase acontece para todas as crianças, variando em intensidade de acordo com a personalidade da criança e o método disciplinar adotado pelos pais. Nunca havia ouvido falar nisso, até sair do Brasil.

Junto com a mudança no comportamento de Matias vieram as más sensações sobre a minha própria infância. Dizem que se tornar mãe/pai é reviver sua própria infância. Me vejo em diversos momentos revivendo a minha. Especialmente quanto ao uso da violência. No meio de uma explosão de raiva e frustração, Matias pode se tornar quase impossível de lidar [Parece que acontece o mesmo que num ataque de pânico: o lobo frontal se desliga e o resto do cérebro são como fogo e gasolina, até que tudo se acabe]. No começo eu notava que essas situações despertavam em mim uma vontade enorme de bater nele. Com a graça de Deus (não o da Bíblia, que me garantiria o “direito” de violar o corpo dele), resisti bravamente. Mas percebi que deveria estar mais consciente de mim mesma nessas situações. Mesmo as pessoas que nunca levaram uma surra quando crianças podem perder a paciência e se ver batendo nos filhos durante essa fase. Não sei se há diferença neste impulso, mas pessoalmente, tive que reviver as sensações do passado para não repetí-las no presente.

Hoje Matias continua no meio desse turbilhão, e me vejo entrando e saindo dessas situações com mais desenvoltura. Não sou perfeita. Fico frustrada, especialmente quando as explosões acontecem no meio da noite após um sonho ruim, às vezes eu preciso de um “time-out”, mas esses têm se tornado menos necessários com o passar do tempo e o aumento da aceitação e entendimento do que esta acontecendo com ele. A informação e a reflexão sempre me foram boas aliadas. Geralmente quando minha paciência está curta, a de Morten está sobrando e vice-versa. Quando estou sozinha com ele, as explosões são menos frequentes, mas eu preciso estar mais alerta e ter uma dose a mais de paciência. Isso não acontece na creche. Acontece em casa e às vezes na casa dos avós se ele estiver muito excitado com uma brincadeira e a gente vier embora por exemplo. Aconteceu no mercado uma vez.

Para além da fase, ele tem perdido terreno por conta da nova gravidez. Tirei a amamentação noturna, logo depois o leite secou, não pode mais dormir em cima de mim, não o carrego mais no colo nem no canguru, quase não o levo nem busco na creche… é muita perda para um menininho só. É natural que ele também reaja a essas mudanças.  Mas para garantir que a chegada de Alexander e Cecilie não se torne ainda mais complicada para ele, vamos ao nosso psicólogo familiar em breve. Quero saber o que ainda está por vir, e como lidar com tudo isso da melhor maneira possível.

Quando conversei com minha sogra sobre essas coisas, ela sorriu e disse: agora é que você está sendo posta à prova!

Tenho buscado usar a Disciplina Positiva mais ativamente e lido mais sobre a “Comunicação não violenta”. Minha mãe diz que os filhos devem buscar ser melhores pais que os pais foram. Assim vou trilhando meu caminho. Mas ter que aprender novas formas de educar enquanto se educa, estando inserida em uma outra cultura é bastante desafiador e estimulante. Reviver o passado pode ser doloroso, mas também é libertador. Há pouco conversava com minha mãe e descobri que ela reage ao comportamento de Matias da mesma maneira que eu reagi ao comportamento das minhas sobrinhas 6 anos atrás. É o choque cultural nu e cru. É a colisão entre as criações pacífica e violenta. Assim como eu tinha, ela deve ter um zilhão de idéias de como fazer com que ele “pare de fazer pirraça”. Pude me ouvir nos comentários dela, e foi interessante. Já caminhei uma boa milha pra longe do controle exercido pela palmada. A gente precisa encontrar a melhor maneira de gerenciar a vida que tem. E a minha vida hoje é completamente diferente daquela que eu um dia imaginei que seria. E naquela versão, eu estaria pondo em prática muito do que ela imagina ser uma ótima saída. São linhas de reflexão interessantes. Mas a minha vida é outra. O país em que vivo é outro. A cultura em que estou inserida hoje é outra.

E o “filho do meu desejo”, meu primeiro milagre, não diferente de 99% das crianças do mundo, vai ter o meu melhor. Sempre. Mesmo que o meu melhor pareça insuficiente naquele momento. Assim é cada mãe. Assim foi a minha, assim é a sua e assim você, futura mamãe, será. A gente faz o que pode, com as ferramentas que tem. Dizem que com a maternidade nasce a culpa, mas nasce também uma nova e melhor filha, uma mulher mais forte, mais amorosa, mais abnegada e completamente apaixonada por sua prole.

Dica: Quando vir pais sendo postos à prova no mercado, no shopping ou numa festa, que não usam de violência na criação dos filhos, não os julgue. Saiba que o comportamento da criança, entendido e aceito pelos pais ou não, já é suficiente para constrange-los. Eles não precisam ser censurados. Dê um sorriso ou aceno com a cabeça em tom de apoio, porque você certamente já passou ou vai passar por isso – ou pelo menos já fez coisas do tipo com seus pais. Criança que se joga no chão, grita, chora e faz escândalo não é necessariamente mimada, mas está passando por um desenvolvimento complexo e profundo. Ela sofre. Os pais sofrem. As crianças entre 1 e 4 anos são as mais conhecidas por fazer esse tipo de coisa, mas as explosões podem acontecer em qualquer idade. Aos 2 anos a criança ainda não consegue expressar verbalmente tudo o que gostaria, o que causa frustração, ao passo que o cérebro ainda não está maduro o suficiente para suportar sentimentos de frustração e raiva – causando as explosões. Aos 3 anos eles se tornam mais desafiadores porque querem mais autonomia. Aos 4 as coisas devem piorar um pouco porque eles melhoram a comunicação e a linha de raciocínio e negociação é mais complicada. Mais tarde eles ficam como nós, que ainda que tenhamos aprendido a lidar com os sentimentos negativos, às vezes precisamos socar uma parede!

E aqui vão as fotos comparativas da semana 20.

comparando semana 20 2

Comparando III – 20 semanas

Retratação: Não é a intenção deste post denunciar atos ou denegrir pessoas. Também não é a intenção deste post ditar como outros devem criar ou deveriam ter criado seus filhos. Não desejo censurar ou julgar a ninguém por suas escolhas de vida. O que escrevo aqui exprime minha própria experiência de eventos do passado. Essa interpretação é altamente subjetiva e pessoal. Não é objetivo do post ou do blog polemizar, mas tão somente expressar um processo pelo qual ainda estou passando. Desde já me desculpo se este post lhe causa desconforto.

2 anos!

Tanta coisa aconteceu ao longo dos últimos 365 dias. Comum a todos os dias é meu sentimento de gratidão à Deus por ter me presenteado com a responsabilidade de guiar Matias enquanto ele precisar. Ter o prazer de gerar um filho não nos é garantido. Receber a graça de poder aprender a amar uma pessoa pra além de nós mesmos é uma dádiva. Poder dividir essa experiência com outra pessoa também não é via de regra. Mas agradeço à Deus por ter me confiado Matias e ter escolhido Morten para dividir comigo essa caminhada de aprendizado.

********

Bom, Matias é, como toda criança, especial. Apesar de ser menino, é bastante detalhista e observador. É falante. Fala, fala e fala! E eu fico babando, observando o desenvolvimento dele: de sílabas, para palavras e agora frases – em português e norueguês. Adora cantarolar, gosta que a gente leia historinhas pra ele antes de dormir – e às vezes no meio do dia também. É fascinado por tudo o que tem roda. Carrinhos, tratores, trens, ônibus. Gosta de Lego e coisas de encaixar. Desenvolveu logo a coordenação motora fina. Deu os primeiros passos na véspera do ano novo, com 1 ano e dois meses. Desde então não pára. Corre o tempo todo! E eu tenho que correr junto, claro. Gosta de assistir a “O bombeiro Sam”, canta a musiquinha e tudo, “Pocoyo”, “O jardim dos sonhos” e “Raa Raa, o leão barulhento”. Ai, ele está uma gracinha, só vendo mesmo. Eu poderia escrever um testamento sobre cada detalhe, mas é melhor me controlar. Então, vamos por partes.

Brasil

Matias e o primo na casa da vovó.

Matias e o primo na casa da vovó.

Estivemos no Brasil entre julho e agosto para exibir o rebento. Foram 3 semanas corridas, intensas, às vezes estressantes, mas muito gostosas. Matias pôde rever os avós brasileiros, rever e conhecer os tios e conhecer o único primo brasileiro. E conhecer o restante da família, claro. Meus primos, meus meio-irmãos, meus tios e tias, alguns amigos etc. Matias adorou os churrascos. Arroz e feijão. Fazer bagunça com a vovó, visitar o vovô, brincar com o primo, andar de ônibus e trem – que pra ele é um evento social, foi à praia. Nós tivemos alguma dificuldade com o fuso, e em manter a rotina dele. Foi bastante doloroso pra mim. No Brasil tudo acontece à noite. Festas de crianças podem começar às 19 horas. As festas da minha família só esquentam mesmo lá pelas 21 horas, quando não lá pelas 23 horas. Mas Matias vai pra cama cedo. Quando dorme às 21 horas eu já me descabelei toda. Geralmente, entre 19 e 20 horas Matias já está na cama. Difícil conciliar. E tudo no Brasil é longe também. Às vezes tínhamos que ir embora bem cedo pra chegar a tempo de coloca-lo na cama e evitar uma crise de choro por exaustão. Levamos a cadeirinha do carro daqui, levamos também o carrinho safado de viagem – que não foi usado nem 1 vez. Matias só queria andar, e na maioria das vezes o canguru era mais prático que o carrinho.

Brincando com o trem que ganhou do Vovô Chico.

Brincando com o trem que ganhou do Vovô Chico.

Creche

Brincando no ginásio com o grupo da creche.

Brincando no ginásio com o grupo da creche.

Matias trocou de creche esse ano. No ano passado ele frequentou uma Creche Familiar, com 8 crianças. A creche ficava perto do meu trabalho. Ao final do ano já estava ficando complicado viajar com Matias. Depois que começou a andar, ficar sentado por mais de 20 minutos era bastante desafiador. Com a graça de Deus, conseguimos vaga na creche da universidade que fica entre a nossa casa e o ponto de ônibus. Show! Essa creche tem mais de 100 crianças! Mas o grupo de Matias tem 21 crianças e fica dividido em dois, sendo o grupo dele o menor, com 8 crianças. A creche é bem legal e eles seguem a Teoria do Apego! Amei! Quando chegamos do Brasil, fomos direto pra adaptação na creche. Por sorte eu fui convocada para a greve de professores e deu pra acompanhar as primeiras 3 semanas dele na creche. Matias se adaptou bem, mas relutou em dormir na creche. Ao final de 4 semanas eu estava quase voando no pescoço dos assistentes por isso. Matias não dormia na creche e chegava em casa uma pilha. Como Morten viaja toda semana, eu fico muito sozinha com Matias. Eu não estava aguentando! Mal conseguia fazer janta, e quando fazia era com Matias no meu colo. Foi super cansativo. A solução foi começar a acorda-lo às 6 da manhã pra garantir que a soneca se tornasse irresistível na creche. Desde então, Matias dorme que é uma beleza e é outra criança quando chega em casa.

Amamentação

Matias ainda mama! Yes! E pensar que meu tímido plano era amamentar por 6 meses. A OMS recomenda amamentação em livre demanda até pelo menos 2 anos, mais se possível. Isso eu consegui! Matias fica bem sem mamar durante o dia, enquanto está na creche. Come tudo o que dão lá. Ele mama no caminho pra casa, se eu for busca-lo, ou quando chega em casa nos dias que Morten vai busca-lo. Depois mama pra dormir, e algumas poucas vezes, ou talvez uma vez, durante a noite (eu não sei ao certo quantas vezes ele mama durante a noite porque ele não me acorda). Ou seja, livre demanda pura. Ele esteve resfriado duas vezes seguidas essas últimas semanas, e foi bom saber que ele pelo menos estava mamando, porque não tinha apetite pra mais nada. Por enquanto o plano é o desmame natural. Ele ainda não reflete sobre mamar. Então não vejo razão para desmama-lo, nem pra falar sobre isso ainda. Ele nem se importa de mamar na creche, com outras crianças maiores olhando. Ainda diz pra eles: “Não, é meu!”

Cama compartilhada

Ainda em vigor no nosso pequeno reino. Em time que está ganhando não se mexe. Matias dorme bem, nós dormimos bem. Matias está bem apegado e seguro de si. Nós estamos seguros e satisfeitos com a nossa escolha. O pessoal na creche perguntava se Matias não usa chupeta, se não tem um ursinho ou algo que o valha pra ajuda-lo a dormir. Eles sempre ficavam admirados com a resposta. Não, Matias não usa “props” pra dormir. Na creche, eles o colocam na cama, e ele adormece. Sem choro. E se ficar sozinho, dorme ainda mais rápido.

Fralda, desfralde

Matias ainda usa fraldas. E descartáveis por causa da alergia. Matias reagiu mal às de pano e reage mal a qualquer fralda com muito gel, loção, perfume etc. Resumo. Usamos as fraldas mais baratas do mercado. Na creche que ele está, as crianças são incentivadas a usar o vaso. Matias gosta da brincadeira, de jogar papel no vaso e dar descarga. Mas ainda prefere fazer xixi e cocô na fralda. Ele ainda avisa. Antes negava que estivesse fazendo cocô, mas agora já diz que “sim”. Ele gosta de ficar pelado, e ultimamente tem pedido pra ficar pelado um tempo antes de dormir. Ontem ele ficou tanto tempo sem fralda que acabou fazendo xixi na cama enquanto brincava 😦 Enquanto ele não se interessa mesmo por usar o penico e o vaso, vamos deixando ele usar fraldas. Daqui a pouco o inverno está chegando, e aí fica mais difícil fazer o desfralde. Melhor esperar pelo próximo verão.

Alimentação

Matias fez 2 anos anteontem e parece que um botão foi ligado nele. Ele esteve doente, como disse antes, e o apetite desapareceu. Mas desde ontem ele tem comido porções maiores. Ele já pede comida quando está com fome, e o peito se está entediado, triste, com sono, com dor ou depois de ficar muito tempo longe de mim. Durante um período Matias só queria comer cenoura, se negava a comer batata. Agora, não quer cenoura, mas come batata. Adora patê de fígado, carne, milho, ovo e sempre pede arroz e feijão. Mas o campeão: frutas! E pode ser qualquer uma. Ir ao mercado com ele significa comprar alguma fruta, mesmo que a gente já a tenha em casa. A primeira seção, na entrada do mercado, é a de frutas, e Matias começa a gritar: Uva! Banana! Ameixa! Bringebæar! (framboesa) Jordbæar! (morango) Appelsin! (laranja) Blåbær! (mirtilo)… e não tem jeito, sempre tenho que comprar uma fruta que seja. Eu tento evitar que ele coma muita porcaria. Mas é difícil. Porcaria é o que mais se oferece e serve à crianças. Balas, doces, refrigerantes, sorvete, biscoitos etc… Na festinha de aniversário de 2 anos ele pôde tomar “uma dose” de coca-cola com o pai. Às vezes sinto que essa é uma batalha vencida, e não por mim. A pressão é muito grande. Eu chamo Morten de “candy man”. É muita bala de goma, muita coca-cola, muito açúcar, muita batata frita, gordura etc. Ele até que tem conseguido respeitar bastante meu desejo de que Matias não seja imerso nessa dieta de engorda dos infernos que condena crianças à diabetes, obesidade, doenças cardíacas etc. E é importante dizer, não quero que Matias nunca coma essas coisas, mas como dizem, nos primeiros anos de vida a gente define a dieta pro resto da vida. É impossível não comer lixo nessa industrialização global dos alimentos, mas quanto mais consciente ele estiver sobre sua própria dieta, melhor chances ele terá de fazer escolhas mais saudáveis no seu dia-a-dia. Como mãe, me sinto responsável por tomar as melhores decisões por ele até que ele possa decidir por si só. Mas acredito na decisão informada. Não acredito que o tornando escravo da gordura e do açúcar seja uma maneira muito inteligente de ensina-lo a comer de forma saudável. Mas, claro, nada disso é simples, e minhas aspirações sobre ter um filho que não torça o nariz para legumes não estão garantidas de se concretizarem.

Expectativas

Mais um ano começa e espero poder me manter firme no meu desejo de cuidar de Matias, de dar à ele o tempo e o amor necessários pra que ele cresça “em estatura e sabedoria”. É maravilhoso vê-lo se desenvolver, descobrir novas coisas sobre si e sobre o mundo. É bom conhecê-lo melhor a cada dia, porque todo dia uma nova característica da personalidade dele aparece.

Assoprando a velinha. Festinha de 2 anos.

Assoprando a velinha. Festinha de 2 anos.

Comemorando os 2 aninhos completos.

Comemorando os 2 aninhos completos.

Injustiça

Já são 23 dias sem postar, entramos na semana 25 hoje [ou na sexta-feira passada dependendo de como a gente conta]. Já são 3 semanas sem fotos da barriga.

Bom, muita água já passou por debaixo da ponte nesse tempo e não tive tempo sequer para tirar fotos ou atualizar o blog. :-/

Estamos no Brasil numa visita relâmpago – ficamos pouco mais de duas semanas. Assim que chegamos Matias já percebeu a diferença no volume das vozes e do barulho. Todo mundo fala alto, sempre tem uma música alta tocando, barulho de trânsito, o caos residente no Rio. Matias chuta o tempo todo. Fomos ao Viaduto de Madureira no primeiro fim de semana. Matias ficou quietinho… tadinho, aquele som alto o tempo todo. Fiquei com pena dele. Nós chegamos exatamente na semana em que ele deveria começar a distinguir os sons, e pronto, foi direto prum baile charme.

Andar de ônibus é uma aventura, tanto pra gente quanto pra ele. Pra gente porque já não estamos mais acostumados com as arrancadas, freadas e curvas perigosas, e pra ele pelo chacoalhar do ônibus e o barulho estridente do motor. Confesso que o trânsito nessa cidade me estressa. Especialmente porque estou grávida. O motorista carioca desafia a morte cada vez que sai no portão atrás do volante. E é interessante a dificuldade de encontrar um carro com cintos de segurança que funcionem no banco traseiro. Um taxista me perguntou se eu estava com medo de morrer (!!!). Todos ficam surpresos com a pergunta, mas sempre estão certos de que os cintos traseiros funcionam, até que eu sente e constate que O CINTO NAO FUNCIONA!!!

Uma das vozes a que Matias reage claramente é a da minha mãe. Não faço idéia do porquê. Ela fala alto, mas todo mundo fala alto nesse país. Não sei se é o tom da voz, sei lá. Mas se minha mãe estiver falando por perto, Matias começa a chutar e se mexer feito doido. Se ela fica quieta, ele pára. A minha voz e a de Morten não surtem efeito claro nele. Parece que já fazem parte do mundinho dele. Quando um dos meus irmãos chegou, Matias ficou paradinho. Toda vez que ele falava alguma coisa, Matias parava de se mexer. Está sendo interessante observar e sentir as respostas dele aqui de dentro.

E as atividades diárias dele têm sido tantas que eu estou achando uma injustiça que só a mãe possa carregar o bebê. Queria muito que Morten pudesse sentir as mesmas coisas que eu sinto. Por mais que eu queira explicar, nem o uso de todas as palavras do Aurélio vai ser suficiente para descrever as sensações e sentimentos que surgem a partir de um suave mover de um bracinho ou perninha, quem dirá o que surge a partir de um chute bem dado na minha costela. Queria muito poder dividir essas coisas com ele.

A cada movimento meu coração se enche de uma alegria única, mas também de um medinho por ele e por tudo o que ainda está por vir. Quero tê-lo nos braços logo, mas não quero que ele nasça amanhã. Quero que o tempo passe rápido e ele se desenvolva como deve pra vir ao mundo preparado pra vida. Quero ver a boquinha e as expressões faciais dele [É eu sou meio doida por boca, mão e pé de neném]. Quero ouvir o chorinho e os barulhinhos dele. Mas fico pensando que agora vou ter uma pessoa ligada à mim pelo resto da vida. Que vai depender e precisar de mim por um bom tempo… essa responsabilidade traz consigo o medo, mas também o desejo de seguir em frente.

Nessa visita conhecemos também Pedro, nosso sobrinho de 5 anos de idade. O moleque é um terremoto… rs. Uma graça, a cara do pai, mas bem levado.

Estou me descobrindo uma pessoa calma, muito calma. Muita gente diz que eu sou calma, mas não me via como uma pessoa calma. Agora, em contraste com a cultura brasileira febril, começo a pensar que já fui tomada pela parte calmante da cultura norueguesa. Espero passar um pouquinho disso pra Matias.

Como mãe, acho que estou me realizando como mulher.

Fotos no próximo post!