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“Socorro! Meu filho não dorme a noite inteira!”

E nunca vai dormir.

Desculpe, mas essa é a mais pura verdade.

Se você é mãe ou pai e veio parar aqui depois de muitas noites mal ou não dormidas, e está buscando uma forma de fazer com que seu bebê deixe você pregar os olhos por umas horinhas, continue lendo. Não ofereço panacéia, mas uma opção que vale a tentativa.

Ninguém, absolutamente ninguém, dorme “a noite inteira”. Nem você. A grosso modo podemos explicar assim: O sono é dividido em fases e essas fases são entremeadas por momentos de desperte. O conjunto de fases forma um ciclo. A gente acorda, muda de posição, soca o travesseiro, puxa o cobertor, procura o companheiro(a), vai ao banheiro, bebe um copo d’água, ou simplesmente volta a dormir. O sono dos bebês é muito similar  ao sono dos adultos, mas as fases são mais curtas e eles devem se manter no sono leve tanto quanto possível. E os ciclos duram em média 45 minutos se me lembro bem. Para eles, os momentos de excitação, ou desperte, tem um componente preventivo: eles evitam a tão temida morte súbita.

Mas todo mundo fala em bebês que “dormem a noite inteira”. Sim, há bebês que cedo não acordam ninguém, apesar de terem os momentos de desperte. Mas esses são exceção, não regra. Quando o bebê acorda, outras necessidades podem se apresentar: fome, frio, sensação de humidade na fralda, medo, solidão, ou necessidade de reconexão com o cuidador entre outras. Se o bebê acorda e se vê sozinho, seu instinto é chamar o cuidador. Sua única garantia de sobrevivência. Logo, “abre o berreiro”, sua única forma de comunicação. Os pais, estando em outro cômodo, precisam despertar totalmente para atender ao chamado do bebê. E assim começa a saga dos pais exaustos e bebês idem.

Mas por quê cargas d’água a gente coloca os bebês para dormir sozinhos mesmo, hein? Bom, me parece que essa é uma idéia de jerico bem moderna. Coisa do individualismo ocidental. “Cada um por si, Deus por todos”, etc. Mas nós somos pais e queremos o melhor pros nossos guris. Bom, pais exaustos não se encaixam muito bem na minha idéia de “melhor pros filhos”. Pais precisam dormir. Claro que nem todo mundo consegue escapar de bebês com cólica, ou bebês com febre, resfriadinhos etc. Mas se o bebê está e é saudável, os pais devem buscar seu descanso para que estejam prontos pra aguentar o dia com uma criança pequena – e também as noites conturbadas por doenças, picos e saltos.

Mas e daí?

Eu sugiro que você durma! Durma! Mas durma com seu bebê! Isso mesmo! Dê uma de João-sem-braço, finja que nunca ouviu recomendações de colocar seu bebê pra dormir na caminha dele, no quartinho dele. A vida não é um comercial de margarina. Tanto o comercial quanto a margarina são falsos. No mundo real o buraco é muito mais embaixo. Mas você idealizou seu bebê, e junto idealizou o quartinho. Um berço lindo, paredes com cores frias e calmantes, guirlandas, lâmpadas, travesseirinhos, ursinhos… Tudo tão perfeito… Mas a vida não é perfeita e os bebês saem de dentro da gente sem manual de instruções. De que adianta um quartinho lindo e aconchegante e pais que não conseguem desfrutar da cria nem dos quartos? A exaustão também contribui para as separações dos casais.

Então, durma. Leve seu bebê para a sua cama. Ou para uma cama ao lado da sua. Ou coloque colchões pelo chão do quarto e durmam juntos. Compartilhe o sono com seu bebê. O sono compartilhado contribui e facilita a amamentação, que por sua vez, relaxa e induz mamãe e bebê ao sono. Dividir o mesmo quarto torna tanto a mãe quanto o bebê mais conectados. Segundo pesquisas, em 60% dos despertares noturnos, a mãe desperta + ou – 2 segundos depois que o bebê desperta; e nos outros 40%, o bebê desperta + ou – 2 segundos depois que a mãe desperta. Quando você virar para o lado esquerdo, seu bebê também virará. Essa sincronia foi descoberta pelo antropólogo James McKenna, especialista no sono mamãe-bebê da Universidade de Notre Dame. E a sincronia também acontece com o pai. Estando junto da mãe, o bebê se mantém no sono leve por mais tempo, o que também previne a Morte Súbita do Recém-nascido. Ele também mama com mais frequência durante a noite na cama compartilhada, o que regula a produção de leite da mãe.

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Num desses dias de luta. Soneca compartilhada.

 

Seu bebê vai continuar acordando durante a noite, assim como você, mas ele não vai precisar te acordar. Algumas vezes você você vai despertar, mas geralmente não acordará totalmente para amamentar. Os bebês crescem e logo acham o seio sem ajuda.

Dormir com seu bebê não é subversivo ou ilegal. Compartilhar o sono é um ato de amor e sobrevivência praticado por toda a humanidade. A exigência de independência noturna praticada no ocidente vai contra nossa natureza e instintos evolutivos. Ainda hoje muitas culturas praticam o sono compartilhado em todos os continentes. Não há nada de primitivo nisso, nem “pobre fazendo pobrice”.

Se alguém me perguntar quantas vezes meus bebês acordam para mamar durante a noite, a resposta é simples: não sei!

Se não tiver coragem de compartilhar o sono noturno na primeira tentativa, experimente durante uma soneca. Leve o bebê para a sua cama, coloque-o no seio e deixe que ele mame até adormecer. E durma junto! Esqueça os afazeres domésticos. Não adianta a casa brilhar, se você estiver um caco. Durma! Durma com ele.

Se tiver amigos ou parentes que se disponham a ajudar, peça que olhem o bebê ou as crianças por uma hora. Tranque-se no quarto e durma!

Experimente!

Se depois da soneca você tomar coragem para compartilhar o sono também durante a noite ou indefinidamente, sugiro que leia este guia de segurança do Dr. McKenna.

Quanto ao sono compartilhado gerar crianças dependentes, sugiro uma busca no google. Esse é assunto para um próximo post. Mas já adianto que existe uma diferença entre dependência e segurança, e que não, a cama compartilhada não gera crianças mais dependentes do que aquelas que dormiram sozinhas em seus quartos. Estudos revelam que crianças seguras são mais independentes.

E considere que a intimidade do casal vai para além do sexo na cama. Sugiro que restrinja a cama para o sono e o restante da casa para o resto das atividades do casal. 🙂

Todo bebê merece pais descansados.

Bom descanso!

Tabu, criação com apego, volta ao trabalho – 9 meses

Matias completou 9 meses no último dia 10 e muita coisa aconteceu desde os dois últimos posts. Antes de entrar nos assuntos do título, um resumão:

Amamentação: Matias ainda mama e em livre demanda! Nada de mamadeira, nada de Nan e cia. Já come papas doces e salgadas e adora beber água, especialmente em copo aberto. Mas o leite materno ainda perfaz a maior parte da alimentação dele.

O corpo: a barriga, pelo jeito, ficou maior do que era e não vai diminuir mais. Mas já não me importo mais com isso. Passo a maior parte do tempo vestida mesmo!

Fralda: Matias passou a usar fraldas descartáveis. Infelizmente a assadura era causada pelo contato com urina e só desapareceu depois que passamos a usar fraldas descartáveis, recomendação da minha médica de família. Matias faz muito, muito xixi! Nunca mais ficou assado, mas fica com coceira por causa do gel absorvente se eu não puser uma gase entre a fralda e a pele dele.

Carrinho: 100% satisfeita com nosso carrinho. Já viajamos algumas vezes com ele. Infelizmente as companhias aéreas não têm muito cuidado com os carrinhos e o nosso já se perdeu duas vezes durante a viagem. Agora compramos um carrinho guarda-chuva safado pra ser destruído em viagens.

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O post anterior, que foi publicado com atraso de 4 meses, fala das minhas aventuras e desventuras pra colocar Matias pra dormir. Estava implementando o programa da Dana Obleman, mas nosso problema era colocar Matias na cama no início da noite. Ele tirava ótimas sonecas e adormecia sozinho no berço durante a noite, mas uma noite chorou por 3 horas, on and off, antes de dormir no início da noite – comigo ao lado.
O programa (The sleep sense program) é lógico e baseado em ciência. Faz sentido! O que é positivo, apesar de muitas vezes ir contra meu instinto materno. E eu estava satisfeita com os resultados, exceto a luta para colocá-lo na cama no início da noite. Por conta disso, decidimos alterar um pouco o programa e fazer algo que funcionasse para Matias.

Ciência x instinto

Infelizmente muitos dos “conselhos” que se ouvem hoje, de familiares à médicos, excluem o instinto. É complicado pra uma mãe de primeira viagem não seguir um conselho dado por um médico, conselho esse que muitas vezes é baseado numa ciência antiquada, ou mesmo nas crendices do arco da velha. A mãe de primeira viagem não reconhece seu instinto maternal e, muitas vezes tem esse instinto aleijado já de início por um parto cirúrgico.

Desde minha gravidez, tenho meu instinto como meu primeiro norte. Os médicos podem dizer o que quiserem, baseados nas mais variadas experiências de milhares de mulheres. Essas experiências não são minhas e os filhos não são o meu. Norteada pelo instinto tive o parto que desejei e, desnorteada por alguns momentos depois do nascimento de Matias, entrei na nóia dos treinamentos de bebês.

Como primeiro passo em direção à uma rotina que se adaptasse a nós e a Matias, resolvemos que ele adormeceria na nossa cama e ficaria lá até que nós fôssemos pra cama, quando o colocaríamos no berço. Logo Matias ficou doente e não o colocamos no berço. Essa foi minha primeira noite muito bem dormida desde que matias tinha 1 mês e meio quando o passei para o berço. A noite seguinte me deu a sensação de liberdade! Me libertei da insegurança de mãe de primeira viagem.

Tabu

Ainda hoje ouço a voz da minha mãe dizendo: não o coloque pra dormir na sua cama em hipótese alguma! Desculpe, mãe, mas meu instinto me diz pra fazer exatamente isso. Graças à Deus vim parar num país onde se prega que um bebê NUNCA pode ser mimado, que o bebê deve dormir no mesmo quarto que os pais até completar um ano, e que, se possível, pode-se dividir a cama com o bebê, desde que se sigam instruções de segurança.

Dividir a cama com o filho é um tabu. Muitas mães o fazem, mas não falam. Têm medo da reação das pessoas. O sistema individualista atual vigente em muitas culturas exige que a criança se torne independente o quanto antes, a começar por dormir sozinha, longe dos pais. Esse sistema é contrário à nossa biologia, e porque não dizer, uma violência contra a criança.

Os seres humanos nascem ainda incompletos, e simplesmente porque não há como um bebê nascer totalmente formado sem matar a mãe. Somos pequenos, a passagem é pequena demais. Nascemos antes de estarmos totalmente formados, indefesos e incapazes. Se houvesse espaço suficiente, um bebê poderia permanecer na barriga da mãe até que se completassem 12 meses de gestação. Já pensou?! Mas a natureza é perfeita! Aos 9 meses damos a luz seres que ainda precisam do aconchego materno por pelo menos mais três meses. Isto significa pelo menos três meses no colo, com contato físico 24/7, alimentação em livre demanda etc. Tudo como se o bebê ainda estivesse na barriga da mãe.

Mas depois desses três meses uma outra parte do desenvolvimento começa a despontar, a psiquê. O bebê começa a alinhar seu “eu” com o da mãe. Os ciclos de sono se alinham, ele responde mais claramente à energia da mãe, se excitada, se irritada, se calma, se amorosa. O bebê absorve todo esse conhecimento através da mãe (e do pai também). Assim se lapida um novo ser humano em termos psicológicos. É sabido que a falta de contato físico com os pais gera psicopatas, pessoas incapazes de sentir empatia pelos outros.

Criação com apego

Durante essa jornada em busca do melhor para Matias e pra nossa pequena família, lembramos que o psicólogo do Centro de Família mencionou diversas vezes a “teoria do apego” e a “criação com apego” (attachment parenting). Ele desenhou diversas vezes no quadro a base e o mundo em volta. Falou sobre segurança na base, e curiosidade sobre o mundo em volta. Resolvi buscar informações específicas sobre isso.

Esses seriam os pais alternativos: carregam os filhos feito canguru o dia inteiro, dividem a cama, promovem a amamentação em detrimento dos substitutos, não usam violência na educação dos filhos, retardam a entrada na creche/escola etc. Ôpa! Descobri que esses somos nós!

A criação com apego não tem regras, mas é extremamente instintiva e intuitiva. Ela não é permissiva nem autoritária, mas autoritativa. Quer dizer, a criança não pode tudo, nem deixa de poder “só porque eu disse que não”. Ela envolve o respeito pela criança como pessoa que sente, que pensa, que faz, envolve um relacionamento pais-filho tão estreito que mecanismos de inibição do mal-comportamento e apreciação do bom comportamento são específicos para cada criança. Trocando em miúdos, são pais que explicam o porquê das coisas. Infância sem “por quês” vira quartel.

Nos descobrimos adeptos inconscientes do estilo de criação. Joguei o programa da Dana no lixo, Matias dorme com a gente, ele está sempre no canguru, já tínhamos feito o “bonding” quando matias nasceu (e minha proibição às visitas ajudou muito), Matias só recebeu e recebe leite materno, voltei a atender imediatamente ao choro dele (nada de deixar ele chorando até dormir), e de quebra, desde que Matias voltou a dormir com a gente, eu consegui reorganizar minha vida. Ficou muito mais fácil cuidar de mim, de Morten e da casa enquanto cuido de Matias. Matias acorda entre uma e duas vezes depois que nós vamos pra cama, e na maioria das vezes eu nem vejo. Ele acorda, mama e volta a dormir sem chorar ou me acordar. Tenho tido ótimas noites de sono (e isso é crucial para uma bipolar).

Volta ao trabalho

Mas, como nem tudo é perfeito, Matias vai precisar ir pra creche a partir do mês que vem. Meu instinto materno me diz pra ficar em casa até ele completar 3 anos, mas infelizmente preciso trabalhar. Ao que tudo indica vamos conseguir vaga na cidade onde vou trabalhar e isso é ótimo. Vou estar perto caso ele precise de mim, e vamos ficar menos horas longe um do outro. O apego já foi estabelecido, agora é trabalhar para mantê-lo apesar da distância física.

Agora surgem novos desafios. Adaptação dele na creche e minha adaptação às horas sem ele. Até hoje o máximo de horas que fiquei longe dele foram 4 horas. E foram terríveis. Estava fazendo prova e só pensava nele, se ele estava bem, se estava com fome, se tinha dormido, se Morten tinha lembrado de trocar a fralda etc. Não preciso dizer que me dei mal nas provas! E agora ele vai estar sozinho com estranhos. Vou me roer por dentro, mas tenho que aceitar e me acostumar. E não tem jeito: nenhuma mãe confia que qualquer outra pessoa possa cuidar bem do filho dela. Não há ninguém nesse mundo melhor que eu pra ler Matias e dar o que ele precisa. Mas a vida é assim, e eu não vou ficar pra semente. Mais cedo ou mais tarde esse processo vai acontecer – preferia que fosse tarde, bem tarde. Estou me empenhando em ser a base, o porto seguro pra que ele possa começar a bater suas asinhas pra cada vez mais longe, mas sempre encontrar o caminho de volta.

O difícil

Entender por quê as pessoas acham que filhos são um estorvo! As pessoas falam como se Matias fosse uma pedra no meu/nosso caminho. Matias foi, além de planejado, desejado. Eu prefiro carregar Matias no canguru, empurrar o carrinho e colocar minhas sacolas no carrinho. É mil vezes mais gostoso (e mais ergonômico também) ter ele coladinho em mim do que um monte de sacolas com coisas dentro. Às vezes não consigo tomar banho antes de colocá-lo na cama, mas fico toda contente de ter passado o dia brincando com ele, mesmo suja! Ah, e ele dorme com a gente, né. Cama compartilhada não serve para os casais que SÓ fazem sexo na cama. Nem nisso ele atrapalha a gente.

Na verdade eu não preciso entender porquê as pessoas acham isso, só preciso que elas parem de presumir que Matias é uma inconveniência pra nós.

Minhas expectativas

Me aperfeiçoar como mãe a cada dia. Porque Matias cresce e muda um pouquinho a cada dia. Todo dia tenho algo novo a aprender sobre ele.

Matias - 9 meses

Matias – 9 meses

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PS.: Importante dizer que cada mãe é uma mãe. Só você sabe o que é melhor pra você e pro seu bebê. As razões para a escolha de cesárea, Nan, colocar a criança em seu próprio quarto etc são inúmeras e não me competem. Dou graças à Deus porque tenho tido a oportunidade de fazer as coisas como desejo. O importante é que você esteja satisfeita com a solução que melhor funcionar pra você! :-p

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Para mais informações sobre Criação com apego, visite: Ask Dr. Sears (em inglês), o blog da Cientista que virou mãe (em português) e Evolutionary Parenting (em inglês).