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O ciúme do irmão mais velho

E vamos falar do elefante no meio da sala. Vamos falar de Matias e a reação dele com a chegada dos irmãos.

“É imprescindível ensinar nossos filhos a oferecer, a cuidar dos demais de acordo com as capacidades de cada um (…). Quando compreende que tem algo a oferecer, se transforma em uma criança feliz (…). O nascimento de um bebê permite aos adultos exercer a tarefa de fortalecer a irmandade, colocando os irmãos maiores no lugar destacado que ocupam na visão dos menores. Esse lugar preferencial é, em geral, de admiração (…). Em vez de procurar sempre o que a criança quer receber, saturando-a com presentes e atendendo a qualquer pedido desmedido, devemos coloca-la em posição de oferecer (…).
Laura Gutman em A maternidade e o encontro com a própria sombra, p. 215

Bom, como contei no relato do parto, naquela fatídica noite Matias adormeceu sobre o puff da sala com o pão na boca. O avô veio ficar com ele que dormiu bem. Na noite seguinte os avós preferiram leva-lo para a casa deles em vez de ficarem aqui. Foi a primeira vez que ele dormiu sozinho, sem um de nós dois. Parece que tudo correu bem, exceto pelo fato de ele ter “expulsado” a avó do próprio quarto.

Logo no dia seguinte ao parto ele pôde nos visitar no hospital. Confesso que não lembro bem como foi isso. Mas lembro que não houve nada negativo em relação aos irmãos. Ele estava curioso e, se me lembro bem, segurou até um dos dois no colo.

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Viajando com o papai. Soube mais tarde que ele não estava acreditando em algo que o pai contou, por isso essa expressão incrédula.

Eu tinha lido algumas coisas sobre “como contornar o ciúme” e tal, mas sabia que teríamos que observar as reações dele para agir da melhor maneira. Ele já vinha perdendo terreno desde a gravidez. Participar das ultras, poder sentir os bebês chutando na minha barriga foram formas gentis de introduzir os bebês à realidade dele antes do parto. Depois de um tempo ele falava para minha barriga “Ei! Vocês não podem ficar chutando a barriga da minha mãe, não! Isso dói!”

Eu não sabia bem o que esperar, e não tinha condições de me ocupar muito dele nas primeiras semanas.  Morten era pai e mãe dele. E já próximo ao parto, Morten já era o porto seguro dele. Já chamava pelo pai quando acordava no meio da noite e já tinha aceitado que eu não o poria na cama como antes. Algumas vezes não aceitou meu consolo. E depois das duas primeiras semanas livres de Morten que voltou ao trabalho, eu voltei a ficar sozinha com as crianças e minha mãe. A partir daí Matias começou a reaver um pouco do território perdido. Eu voltei a coloca-lo na cama, mesmo que correndo no começo.

As mães costumam funcionar com sentimento de culpa, então retêm o filho mais velho em casa para que não se sinta deslocado, ou não pense que não o ama tanto como antes. O fato é que a criança fica horas esperando que a mãe acabe de amamentar, que coloque o bebê para dormir, que tome banho porque ainda está de camisola… E, quando mal começaram a compartilhar o lanche, o bebê volta a acordar! A mãe tem a sensação de ter cuidado do filho que ficou em casa, mas para a criança teria sido mais proveitoso sair para passear com a avó e voltar depois para se relacionar durante um tempo curto, mas produtivo, com uma mãe mais aliviada.
Ibid., p. 216.

Logo nas primeiras semanas ouvimos algumas vezes ele afirmar que queria “ir morar com os avós”. Quando voltava de lá, chorava. Não queria vir pra casa. Ficava chateado com as visitas que o esqueciam e só tinham olhos pros bebês. Em algumas ocasiões tomei os bebês das visitas para amamenta-los para que elas não tivessem outra opção além de dar atenção para ele. É interessante observar como bebês são ímãs. Eles atraem as atenções mesmo daqueles informados, dos que planejam dividir a atenção entre todas as crianças.

Apesar do ciúme, Matias nunca demonstrou sentimentos negativos ou fez algo maldoso com os bebês. As reações eram [e são] sempre direcionadas a nós. Na reunião na creche nos perguntaram se ele estava reagindo negativamente em casa, porque na creche ele era o irmão mais velho orgulhoso. Contava, cheio de orgulho, que tinha gêmeos. E isso eu observei na primeira vez que o levei a creche com os bebês. Quando chegamos na creche, ele ia andando na minha frente, apontando pros bebês no wrap, e anunciando à todos que passavam pela gente “Olha! Esses são os MEUS gêmeos!” Outra vez fui busca-lo e os bebês estavam no carrinho que ficou do lado de fora. A primeira coisa que ele me perguntou foi “Mãe, cadê meus gêmeos?”

Na verdade eu tentei fazer com que ele se sentisse parte “do grupo dos adultos”. Ele nos ajudaria a cuidar dos gêmeos. Nossa retórica era a de que ele agora era um rapazinho e ia ensinar as coisas aos gêmeos. E isso de ser “um rapazinho” foi usado em situações positivas e negativas. Desde a mudança ele tem o próprio quarto e dormiu lá uma noite inteira algumas vezes, mas com a proximidade do parto, voltou a vir para nossa cama durante a noite. Ele tinha começado a se interessar pelo desfralde. Mas desde o parto tem sido um passo a frente, dois atrás. Mesmo na creche soube que as tentativas têm sido frustradas ultimamente. Voltamos à estaca zero quanto ao desfralde. Uma vez eu disse que Alexander o ensinaria a usar o vaso. Ele rapidamente disse “Não! Sou eu quem vai ensinar as coisas, eu sou o irmão mais velho!” Quanto ao quarto, ele adormece lá, mas ainda vem pra nossa cama em algum momento durante a noite.

A rotina de dormir sofreu alterações. Quando eu estou sozinha com os três, a rotina é enxugada ao máximo. Troco fralda/dou banho, escovo os dentes, dou fluor, leio um livro, faço uma oração com ele e deixo o quarto enquanto ele ainda está acordado. No começo ele pedia para continuar lendo um livro, cantava e falava sozinho até adormecer. Agora ele adormece minutos depois de eu sair. Às vezes ele pede logo pra ir pra minha cama e dormir no meu quarto, com Cecilie e Alexander. Mas de modo geral, fica lá até que acorde no meio da noite. Já com o pai ele ficou mais exigente. O pai muitas vezes adormecia antes dele, cansado de esperar que ele dormisse. As coisas ficaram tão mais complicadas que agora Morten também sai do quarto enquanto ele está acordado. Mas somos diferentes também, e isso faz com que ele use estratégias diferentes com cada um. Eu sou mais dura. Se digo “não”, é “não”. Morten diz “não” e o “não” pode virar um “talvez”, ou mesmo um “sim” se ele pedir muito [:-p].

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Contando uma história pros irmãos.

Hoje ele se movimenta entre os times. Às vezes está no nosso time. Às vezes se isola. Às vezes monta seu próprio time com os gêmeos, e esse é o mais complicado, engraçado e bonito de se ver. Quando eu peço à ele que olhe os gêmeos pra eu ir ao banheiro, perco os gêmeos quando volto. Se um dos dois começa a chorar eu não posso tirar o bebê de perto dele, porque “ele está cuidando dos gêmeos”. Às vezes ele entabula uma conversa com os bebês… conta o que fez na creche, pergunta se eles querem brincar com Lego… eu me divirto. E agora, se Cecilie começa a chorar enquanto ele os olha, é comum ouvi-lo dizer “Cecilie, shhh! Pare de chorar! Não fique triste! Shhh!” E se eu pergunto da cozinha se tudo vai bem, ele responde rápido que “sim”, mas que “Cecilie estava meio triste e que ele já a consolou”.

De modo geral o ciúme apareceu e aparece em diferentes trajes, mas nada que não seja contornável. E a cada dia que passa, as coisas melhoram um pouco mais. É muito legal vê-lo preocupado com os irmãos. Ouvi-lo, todo animado, dar bom-dia para Cecilie e Alexander assim que acorda. Às vezes ele os acorda para brincar com eles – mesmo no meio da noite. Vira e mexe quer coloca-los no colo. Especialmente Cecilie… aliás, Cecilie. Está sendo interessante ver os três homens da casa voltados para ela o tempo todo. Mas ela será assunto para um dos próximos posts!