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15.09.15 – O segundo grande evento

A anunciação

Fomos para o controle com a médica e, por intervenção divina, a médica que me atendeu foi a mesma de quem já falei no VLOG. Uma senhora, experiente, chefe etc. Ela fez as novas medidas dos bebês. Alexander estava 15% menor e Cecilie 16%. Tudo completamente normal. Ambos seguindo sua curva de crescimento individual. Ela concordou comigo que o melhor é mesmo que os bebês fiquem na barriga tanto quanto possível, e que eu não precisaria de epidural, a menos que fosse necessário. Concordamos também que o ideal seria que o parto iniciasse por si só, contei que já havia entrado nos pródromos e ela então marcou a indução para o dia em que completaríamos 39 semanas. Eu estava disposta a aceitar a semana 38, mas ela também queria me dar tempo suficiente para entrar em trabalho de parto naturalmente. Ao final do controle, depois de sanar todas as nossas dúvidas, jogar por terra a idéia tosca de indução na semana 37, e dissolver toda nossa preocupação quanto ao crescimento dos bebês, ela disse: você vai parir como uma deusa!

14.09.15

Fui para mais um controle com a parteira. Fui direto para a sala de CTG. Duas parteiras tentando encontrar e separar os batimentos cardíacos dos dois. No processo, constatou-se que minhas contrações estavam bastante regulares e um tanto fortes. A parteira sugeriu que eu ficasse no hospital por mais umas horas para ver se entraria mesmo em trabalho de parto. Morten estava em Stavanger, eu precisava fazer janta para Matias, meu sogro ia busca-lo na creche dali duas horas. Achei melhor vir para casa. Não acreditei que aquelas contrações fossem fortes o suficiente.

Vim para casa e não consegui fazer a janta. Sugeri de última hora ir jantar na casa dos meus sogros. Fui com Matias para lá. As contrações não cessavam, nem ficavam mais espaçadas. Pensei em vir para casa, tomar um banho e ver como elas se comportariam. Minha sogra checou os horários dos trens e vôos de Stavanger para Kristiansand. Vim embora para casa com Matias. Estranhamente, ele estava tão cansado que adormeceu sobre o puff da sala com o pão na boca.

Comecei a contar o tempo das contrações. Elas vinham com intervalos de 3 a 4 minutos e duravam 1 minuto e meio. Eu não conseguia fazer mais nada, mas ainda queria o banho. Liguei para o hospital. A parteira do outro lado da linha disse que fosse para lá. Não tinha feito a mala, estava sozinha com Matias – que adormecera na sala, e eu não sabia como conseguiria leva-lo para cama – tinha que pedir a Morten que viesse o mais rápido possível. Ele comprou a passagem de avião. Tudo muito apertado. Tinha pouco tempo para ir pro hotel, juntar as coisas e ir pro aeroporto.

A parteira pediu que eu não tomasse banho em casa, mas que o fizesse no hospital. Liguei pro meu sogro para que ele ficasse com Matias. Fui fazer a mala. Matias não acordava nem a porrete. O coloquei no colo, subi as escadas e o coloquei na nossa cama. Sussurrei que o avô viria ficar com ele, que a mamãe ia pro hospital, mas ele não ficaria sozinho. Ele continuou dormindo.

Pedi o táxi. Meu sogro chegou, mais nervoso que eu. O táxi demorou, chovia. Quando avistei o táxi, lembrei-me que Morten estava com meu cartão. Não tinha dinheiro comigo. Como ia pagar pela corrida? Perguntei ao motorista se era possível pagar por fatura, ou que ele voltasse ao hospital em três horas, quando Morten já teria chegado com meu cartão. Meu sogro só resmungava com o motorista e dizia que eu estava parindo e que ele tinha que me levar pro hospital. Nada me parecia tão precipitado, mas já havia entendido que todos ao meu redor estavam muito mais ansiosos que eu. Parecia que eu estava a ponto de parir ali mesmo, antes de entrar no carro. O motorista só mandou que eu entrasse no carro e disse que depois resolveríamos. Assinei um termo de compromisso de que pagaria pela corrida mais tarde e deixei meus dados com o motorista.

Chegando no hospital, fui para o quarto. Estava com 3 cm de dilatação. Fui posta no CTG de novo. Um médico veio fazer uma ultra para determinar a posição dos bebês e ajudar a parteira com o CTG que mais uma vez coincidia. As contrações se mantiveram. Morten chegou. Por volta da meia-noite cheguei a 4 cm de dilatação. Os dois médicos do plantão vieram me visitar e falar um pouco sobre o que aconteceria. “É, esse parto acontece ainda essa madrugada”, disse o obstetra chefe. Começamos a nos preparar. E, enfim, pude tomar uma ducha. A água quente aliviava as dores das contrações. Aliviava tanto, que tudo parou.

As contrações continuavam fortes, mas se tornaram mais espaçadas e irregulares.

Era notória a ansiedade das parteiras que torciam e faziam o que podiam para que o parto acontecesse durante aquele plantão. O plantão noturno acabou, novas parteiras e novos médicos chegaram, e eu ainda estava lá, emperrada nos 4 cm.

15.09.15

Em cada plantão eu tinha uma parteira dedicada. Ela não atendia a mais ninguém, só a mim. A parteira que chegou pela manhã me colocou amarrada ao CTG, sem muita chance de pausa. Perguntei quem era o obstetra chefe daquele plantão. Era ela, a mesma que tinha feito meu último controle. “Nascendo neste plantão, fico tranquila”, pensei com meus botões. Mas a médica nem teve chance de me ver. A dilatação estava estacionada em 4 cm. Nada acontecia. Mas as contrações continuavam. O catéter da epidural foi posto no lugar às 11h45 e um teste foi feito. Minha perna direita ficou dormente e eu fiquei um pouco “aluada”. E passamos por mais uma troca de plantão.

Por volta das 15h30 conhecemos Ranghild. Minha nova parteira dedicada. Pedi que me tirasse do CTG. Eu precisava trabalhar com a dor, e amarrada na cama estava muito complicado. Queria andar, estar livre pra deixar que meu corpo ditasse suas regras. Ranghild me deu uma pausa pra ir ao banheiro e me movimentar um pouco. Mas eu desejava fugir das amarras da cama até o parto. Ela queria fazer uma leitura aceitável do CTG antes de me deixar livre. Me ofereceu bola, “prekestolen”, banho… mas ela, como as anteriores, não conseguia separar os batimentos cardíacos dos bebês e logo, os 20 minutos esperados presa ao CTG, tornaram-se  2 horas de monitoramento.

Com o aumento da intensidade das contrações, e o aumento da minha frustração por não poder trabalhar com a dor, entrei triunfante no segundo estágio da dor do parto: a raiva. De repente me vi com as dores do parto, amarrada à máquina, sem absoluta possibilidade de lidar com a dor de forma alternativa. Minha vontade era de bater na parteira e no meu marido, quebrar as janelas no soco. E eu dizia isso! Alto. Muitas vezes. Lembro de ouvir a parteira dizer: “Nossa, tô até com medo. Não vou chegar perto de você, não.” E riam.

A realidade bateu à minha porta, nua e crua. Mandei chamar o anestesista. A tão desdenhada epidural agora se fazia necessária. Eu não tinha condições de enfrentar as crescentes dores sem alternativa de alívio. O anestesista veio logo, mas, na minha cabeça, esperei por uma eternidade. Morten fazia massagens na minha lombar, o que me garantia alívio imediato, mas ele também ficava cansado, e minha vontade de bater em qualquer um deles aumentava cada vez que ele parava ou mudava a força ou o local da massagem.

O anestesista chegou, todo sorridente. Se apresentou e perguntou: “Tudo bem com você?” Minha dor respondeu: “Tudo ótimo! Tudo maravilhoso, não tá vendo?” Depois dos comentários que eu não ouvi, ele continuou o interrogatório. “Você é saudável? Tem alguma alergia?” Minha impaciência respondeu em voz alta: “Sou saudável, sim, exceto por essa loucura que acompanha a dor!” Na minha cabeça eu já tinha repetido, no mínimo umas três vezes: “Cala a boca e me dá logo essa epidural!” Eram pouco mais de 18h.

Ranghild tentava, sem sucesso, separar as leituras do CTG dos bebês. Chamou então o médico de plantão para que fizesse uma ultrassonografia. Eram 19h30. Essa ultrassonografia não só mostrou que os dois estavam bem, mas também que Cecilie tinha mudado de posição. Ela, que tinha estado em posição cefálica por semanas, havia virado. Estava na transversal, com o bumbum mais baixo que a cabeça. Tudo indicava que o parto dela seria pélvico. Ao mesmo tempo, observamos que a posição de Alexander, muito baixa na minha pélvis, dificultava mante-lo no CTG por cima da barriga.

Resolvemos então estourar a bolsa para que pudéssemos monitora-lo pela cabeça. Eram 20h. Um cabo com uma agulha na ponta foi inserido na cabeça dele. Assim não havia dúvida de seus batimentos cardíacos e sabíamos que aquele encontrado por cima da barriga era de Cecilie. Ainda assim pudemos observar que os batimentos estavam mesmo muito próximos. Ainda estava com 4 cm de dilatação. Alexander continuava encaixado e pronto para nascer. O líquido amniótico estava limpo.

Depois de estourar a bolsa o trabalho de parto voltou a ficar regular. As contrações ficaram mais frequentes, 4 a cada 10 minutos com duração de 60 segundos cada. O efeito da epidural era interessante. Eu não sentia a dor das contrações, mas sentia que iam e vinham. Agradecia a Deus e ao mundo pela epidural. Amarrada aos cintos do CTG, e com o fio na cabecinha de Alexander, minhas opções de movimentação eram bastante limitadas.

Pensava comigo que eu tinha aceito esse parto clinico. Tinha feito as pazes com aquilo que não poderia controlar. Mas estava contente de sentir o trabalho de parto, apesar da epidural e de todo o ambiente controlado e estéril ao meu redor. Faria o melhor possível com as opções que tinha. Não gostaria de deixar aquele quarto com meus filhos nos braços me sentindo roubada. O parto era dos meus filhos e eu ainda era a protagonista. Sentia meu corpo trabalhar. Acompanhava seu ritmo. Comecei a sentir pressão na pélvis.

Cheguei aos 10 cm de dilatação às 22h15min. Às 22h30min Ranghild ligou para a equipe. Logo o quarto, que era menor do que aquele em que Matias nasceu, se encheu de gente. Duas médicas, pediatras, enfermeiras. Éramos ao todo 8 pessoas no quartinho, e mais duas a caminho. As médicas eu já conhecia dos controles. Uma tinha feito meu check-up na semana 27, quando o canal cervical diminuiu, e a outra era uma nerd, super ocupada com a ciência e em fazer tudo perfeito. O plantão de Ranghild já estava se encerrando, mas ela ficou.

E de repente, para minha surpresa, senti vontade de empurrar.

Tinha em minha cabeça as imagens dos filmes e seriados em que, durante o parto com epidural, a mulher não sabe quando deve empurrar e precisa confiar nos aparelhos para empurrar na hora certa. Este não era meu caso. Não sentia dor, mas a vontade de empurrar estava lá.

Muitas instruções. Ultrassonografia constante. Foi confirmado que Cecilie estava pélvica e as médicas então nos explicaram o que aconteceria com ela. Alexander estava pronto pra nascer, de cabeça. Mas Cecilie teria o cordão umbilical pressionado entre o pescoço e a abertura vaginal, o que faria com que ela ficasse sem oxigênio por um curto momento. Manobras específicas seriam feitas para a retirada da cabeça que é a maior circunferência a passar pelo canal vaginal durante o parto, e por isso ela nasceria “mole, tonta, talvez até desmaiada” foram as palavras da médica. Pronto. Já sabia o que esperar.

Às 23h comecei a empurrar. Alexander veio ao mundo como esperado. De cabeça. Tudo tranquilo. Lembro de ouvir todos falando, e as vozes ficando cada vez mais distantes. Eu fechava os olhos e me concentrava em fazer o que meu corpo mandava. Todos falavam ao mesmo tempo. Enquanto eu empurrava Alexander para fora de mim, a médica nerd acompanhava Cecilie com o aparelho de ultra-som. Eu não dava um pio. Só avisava “vou empurrar”, e elas diziam “empurre sempre que der vontade”. E eu empurrava. Tomava ar, e empurrava mais.

Às 23h11min nasceu Alexander. As contrações cessaram.

Não tive tempo de vê-lo. Morten logo o teve nos braços. Eles foram para outra sala com ele enquanto as médicas e parteiras ainda observavam Cecilie. As médicas falavam entre si, e lembro de ouvi-las dizer que esperariam que ela viesse naturalmente, que não a “buscariam”. As idas e vindas do aparelho de ultra-som sobre a minha barriga continuavam. Morten voltou com Alexander, e o tive nos braços pela primeira vez. Logo observei que a respiração dele estava curta, superficial. Chamei Morten de volta para que o levasse ao pediatra imediatamente. Nesse meio tempo, os batimentos de Cecilie começaram a cair. Alexander saiu da sala novamente nos braços do pai e eu voltei a observar o que acontecia a meu redor.

A médica estava de pé, na minha frente e olhava minhas entranhas como quem assiste TV. E conversava com a outra médica. “Sim, estou vendo o pé dela. Ela já está descendo. Tenho que esperar o quadril.” Voltei a sentir vontade de empurrar. “Pode empurrar se tiver vontade”, disse ela. Ranghild permaneceu ao meu lado o tempo todo. Instruindo-me a só ouvir a médica que estivesse entre as minhas pernas e ninguém mais. Mas eu ouvia a todos, e respondia à todos. Cecilie desceu e ela finalmente pôde segura-la pelo quadril. Me fechei dentro de mim mesma mais uma vez. Silêncio dentro de mim, caos do lado de fora. Empurrava. Respirava, Empurrava. Vi os movimentos específicos que a médica fazia para tirar a cabecinha de Cecilie de dentro de mim. Até que saiu.

Às 23h32min nasceu Cecilie. De bumbum pra lua. Mole. Branca. Mole, muito mole.

Foi logo levada para a sala onde Alexander estava. A correria para cuidar de mim permaneceu. Mais uma parteira chegou. A preocupação era de que eu não sangrasse muito. Logo iniciaram ocitocina na minha veia. As placentas foram expulsas. Coladas uma à outra. A nova parteira decidiu me dar “uns pontinhos estéticos”, ela disse. Não houve laceração alguma. Os bebês voltaram. Foram postos simultaneamente em meus seios para mamar. Ofereci o seio aos dois que sugavam com uma voracidade de criança grande.

No dia seguinte ouvi que Alexander estava mesmo com a respiração superficial, mas que, assim que Cecilie entrou no quarto, todos os sinais vitais dele se estabilizaram imediatamente. A pediatra se disse espantada, porque lhe pareceu que ele sabia que ela precisaria dos aparelhos mais que ele e lhe deu o lugar na mesa de ressuscitamento. De acordo com Morten, Cecilie logo ficou corada e acordou. Não saíram do primeiro passo no processo de ressuscitamento – que é praxe em caso de parto pélvico.

Eu ainda fui perseguida pela parteira do plantão por algumas horas para garantir que eu não apresentaria hemorragia. Eu só queria me trancar num quarto com meus filhos e dormir. Dormir. Dormir.

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Como eles não esperaram a vovó chegar para nascer, não tiramos muitas fotos do evento.

Um abraço.