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A honestidade norueguesa I

No último fim de semana Morten comprou um jornal que eu não costumo ler. É sempre sensacionalista, e gosta de espalhar o medo na população: “Não coma estes peixes!”, “Não use estes remédios!”, “A temporada de carrapato começa mais cedo esse ano.” etc., e sempre tem a foto de uma mulher nua na capa, seja pra falar de exercícios físicos, ou como evitar o câncer – seja lá qual for a relação entre a foto e o assunto. Enfim, um Extra da vida, só que é o segundo maior jornal da Noruega, e um artigo de Morten tinha sido publicado naquele dia.

Bom, no encarte de fim de semana saiu uma matéria grande com pessoas importantes no cenário norueguês que têm filhos com alguma falha cromossômica. Como eu já citei antes, esse assunto é quente por aqui porque ainda há o debate sobre grátis ultrassonografia na semana 12 de gestação. Esse tipo de matéria já havia saído em outros jornais com outras personalidades que tiveram o mesmo destino com relação a um ou mais filhos.

O que é comum a todas essas matérias é o que eu considero a “honestidade norueguesa”. A honestidade em dizer que “se eu tivesse tido a oportunidade de saber que meu filho seria assim na semana 12, eu teria escolhido o aborto”. Toda vez que eu leio alguma entrevista em que as pessoas dizem algo do gênero, meu coração se aperta. Não por eles que são tão honestos consigo mesmos, mas pelos filhos que também vão ler aquele jornal e que vivem sob o olhar frustrado dos pais. Em muitos casos, eles dizem pros filhos, durante a entrevista, com todas as letras “você não é o que eu pedi à Deus”. Espero que o retardamento, seja ele em que nível for, os proteja de entender o significado dessas palavras e dos olhares frustrados que forem lançados sobre eles ao longo da vida. E uma longa vida. Em uma das entrevistas o pai tinha pouco mais de 80 anos e o filho 50, com algum tipo de falha cromossômica.

Uma das personalidades entrevistadas dessa vez é a ministra da saúde. Ela tem defendido a ultrassonografia na semana 12 para que as mulheres possam ter tempo de escolher o que fazer, tempo de amadurecer a idéia de ter um filho com Síndrome de Down por exemplo, ou de realizar um aborto dentro do tempo indicado. Eu venho acompanhando o debate, e ela nunca mencionou que ela também tem uma filha com falha cromossômica. Nesta entrevista ela posa junto à filha perto do bloco de apartamentos da instituição em que a filha mora. Ela diz que procura não misturar a experiência de vida dela com o trabalho, por isso a filha não se torna tema nos debates. Mas é por causa da filha que ela entende bem a situação de uma mãe hoje, e acredita no direito de escolha de cada uma – direito que ela não teve porque no tempo dela não se fazia ultrassom.

Uma outra personalidade é o diretor da Telenor (companhia telefônica estatal). Ele conta que é frustrante ter um filho assim, e ele não foi um bom pai, sempre deixou a maior parte do cuidado com os filhos para a esposa, mas se tivesse o emprego que tem hoje, seria impossível ter um filho com nescessidades especiais. Ele diz que quando se tem uma surpresa dessas, a única opção é ser forte. E que a primeira vez que viu o instinto materno da esposa em relação ao filho, foi quando a irmã mais velha esbarrou no moisés dele que estava sobre a bancada da cozinha, e o garoto com poucas semanas de vida caiu no chão. A partir dali ele aceitou que teria que ser o pai do garoto também. Hoje ele leva o filho pra esquiar, e conta como é irritante e frustrante o fato de ele não conseguir realizar manobras simples com o ski, como subir um morrinho. Hoje ele amarra o garoto na cintura e arrasta ele morro acima.

Enfim, são histórias de sofrimento que todos dizem que teriam evitado se tivessem tido a chance – não por eles, mas pelos filhos. Mas nenhum pai ou mãe diz não amar seu filho. Eles os amam como aos outros filhos, mas sabem que as exigências dessas crianças equivalem ao dobro, senão ao triplo do que uma criança “normal” exige. E sabem que estas exigências não diminuem com a idade dos filhos, mas aumentam. E a Noruega é um país onde recursos econômicos e ajuda do governo não são problema. Imagine pais na mesma situação no Brasil?

Essa semana o STF aprovou O DIREITO DE ESCOLHA de mães que carreguem filhos anencéfalos no ventre. Antes elas eram obrigadas a passar por um calvário que pode durar mais de 9 meses- ou uma “gravidez funeral”, como disse uma avó -, ou se tornar criminosas. O STF não está ordenando que todas as grávidas de anencéfalos devam fazer fila na frente do hospital público e abortar. O STF está devolvendo às mulheres um direito que é delas: o de escolher.

E não pense que esta escolha é fácil. Não pense que toda grávida que faz aborto (de filhos com problemas ou não) acha que está evacuando enquanto aborta. Como mulher grávida, acho que posso dizer que para a maioria de nós a discussão religiosa sobre “ser um ser humano ou não” é tão irrelevante que nem faz parte das considerações quando se cogita a possibilidade de aborto. Nós não carregamos um feto, nós não carregamos um ser humano, nós carregamos nossos filhos! E da mesma maneira como é difícil perder um filho que tem 20, 30 ou 40 anos, é também difícil, e talvez ainda mais difícil, perder o filho que a gente nunca teve a chance de colocar no colo.

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PS.: Quero deixar claro, mais uma vez, que sou contra o aborto sem justificativa, mas respeito a decisão de cada mulher. Não sou feminista, em absoluto. Sou cristã e sou pró-escolha. As histórias das personalidades norueguesas não é aqui usada para defender o aborto. Essas pessoas vivem suas vidas dentro do possível, com filhos já adultos com nescessidades especiais. Eles não morreram disso, mas também não viveram nem vivem num mar de rosas. Só eu posso dizer se eu aguentaria um tranco desses, você não.

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Fotos amanhã!

Enfim, segundo trimestre!

Yeay!

E para comemorar, uma ultrassonografia recheada de boas notícias e pulos de alegria!

Na segunda-feira, 26 de março, fizemos a segunda ultrassonografia, com 12 semanas e 1 dia. Foi emocionante. A ultra durou os 7 minutos mais intensos pra nós até agora. Pela primeira vez vimos o milagrinho como “gente”. Quer dizer, na ultra anterior ele ainda parecia um girino, e só pudemos ver o coraçãozinho bater. Dessa vez pudemos ver além do coração, a cavidade dos olhos, o cérebro, a boca, os dentes, os ossinhos, as mãos, os dedinhos, as perninhas, a bexiga e… o nariz! Ainda estou impressionada com o “osso nasal” dele. Pareceu tão grande! Mas o perfil estava proporcional, apesar de o rosto ainda não estar definido. Bom, Morten tem o nariz um tanto avantajado, mas observo que as crianças aqui nascem com narizes bem pequenos, e eles só ficam grandes mesmo na adolescência. Já vi fotos de Morten em que o nariz dele parece mais com o meu, meio “batatinha”. Crianças de descendência africana já vêm com a fornalha armada. Pouco muda depois do nascimento.

O ginecologista estava bastante ocupado em ver a nuca, o osso nasal e o cérebro porque é nesses pontos que se vêem os indícios de falhas genéticas, como a síndrome de down. Eu não tinha lido sobre isso antes de ir pra ultra, então não sabia o que procurar, e o médico não fez alarde, nem citou a síndrome ou comentou que estava procurando por indícios. Ao final da ultra, quando eu perguntei, bem claramente, ele voltou para mostrar e explicar. Bom, da nuca até a cabeça espera-se ver pouco líquido, espera-se ver o osso nasal e o cérebro sem concentrações de líquido. Com a graça de Deus, o milagrinho tinha uma quantidade mínima de líquido na nuca – menos de 0,5 mm, enquanto uma criança com chance de alteração genética pode apresentar 10mm, por exemplo -, não tinha nenhuma concentração de líquido em torno ou dentro do cérebro, e o osso nasal estava lá – enquanto crianças com alterações não têm o osso nasal na 12a semana, elas têm o rosto “chato”.

A possibilidade de alteração genética me ocorreu no meio da noite anterior à ultra. Me perguntei como reagiria, como seria pra mim ouvir do médico que meu milagrinho poderia apresentar alguma alteração cromossômica. Acho que precisaria de acompanhamento psicológico, não porque tenho medo do que as pessoas vão pensar de mim, mas teria medo e me sentiria culpada por trazer ao mundo uma criança que, por mais que eu a protegesse, sofreria com a maldade dos outros. Aqui na Noruega, crianças com síndrome de down por exemplo, dependendo do nível de comprometimento cognitivo, vivem como todo mundo. Elas não se escondem. E como qualquer um, saem de casa, trabalham e vão viver suas vidas, independente dos pais. Mas também sofrem. Nos últimos meses uma atriz que tem síndrome de down começou uma campanha para que as pessoas não abortem filhos com alterações cromossômicas como a dela. [O caso é mais complicado do que parece, e está relacionado à um pedido das mulheres para ter uma ultrassonografia gratuita antes da semana 13 – no caso de uma criança que vá morrer no ventre, ou que apresente risco para a mãe ou que tenha síndromes mais sérias, elas querem saber em tempo de fazer o aborto sem que isso prejudique a fertilidade delas e antes que elas se apeguem ao bebê. Hoje só temos direito a ultrassonografia gratuita na semana 19, e aí, muitas vezes, já é tarde, e elas têm menos tempo de pensar e decidir se levam a gravidez a diante ou abortam. Ao mesmo tempo, uma adolescente que engravida e não quer ter o filho – seja ele saudável ou não -, pode, até a semana 13, ir ao médico e fazer um aborto.] Um aborto nunca passou pela minha cabeça, a menos que fosse necessário por questões médicas. Mas não seria fácil ouvir nenhum dos dois “vereditos” do médico. Perguntei à Morten se ele tinha pensado sobre isso em algum momento. Ele disse que sim, por 5 segundos antes de dormir, mas que isso não seria problema :-).

Bom, com a graça de Deus, o milagrinho não apresenta indícios de alterações cromossômicas, se mexeu bastante durante a ultra e está bem maior do que da última vez. Antes media pouco mais de 1 centímetro, agora já mede 6. Esperávamos que ele medisse em torno de 5. Aí pensei: Oooops, e ele só tem uma porta de saída, espero que não fique muito grande! Kkkkkkkk coitada de mim! Tão pequena… Mas Morten é grande, tem ossos grandes e nasceu com quase 4 kg. Uffa!

Mas foi engraçado. O médico não sabia o que fazer. Eu só ria olhando a tela e perguntava o tempo todo “tá vendo?” pra Morten, que respondia impaciente “tô, tô!” O médico começava a explicar uma coisa, o bebê pulava e ele tinha que começar de novo. Enquanto ele explicava, Morten interrompia com um trilhão de perguntas, e às vezes não ouvia a resposta porque eu perguntava se ele estava vendo. O médico tinha que explicar de novo… foi divertido.

Eu fiz uma edição do vídeo da ultra. Gravamos com o iPod, mas estávamos ocupados curtindo a ultra, então a gravação ficou meio “marro-meno”. O vídeo está no youtube, ao som de “Moves like Jagger” (se mexe como (Mick) Jagger) do Maroon 5 com a Christina Aguilera.

Ah, e não vimos o sexo! O médico nem tentou. Ele se mexeu bastante e as pernas até estavam abertas o tempo todo, mas viradas para trás. O médico disse que ficava com medo de dar palpite e estar errado, então preferiu nem tentar ver. Só vimos a bundinha numa hora em que ele se virou de costas.

A próxima ultra é dia 15 de maio. Ela é a toda poderosa que vai definir a data prevista do parto baseada nas medidas do bebê, e aí, não tem erro. Se virmos um pintinho é menino, se virmos uma baratinha é menina, e ponto final. Nada de dúvidas. E Morten não quer fazer outra ultra só pra ver o sexo no mês que vem.

Então, para a família Mesquita de plantão, podem começar suas apostas no bolão. Dia 15 de maio sai o resultado. Pelo que sei, estão “Todos contra um”. Todos acham que é menino, e só Fight acha que é menina… Quem dá mais??? Ah, e não podemos ignorar que Dudão acha que são dois! Kkkkkkkk

E aqui vão também as fotos da semana. Infelizmente a barriga tem duas “bolas” hoje, a de baixo é o bebê, a de cima é meu café da manhã que leva no mínimo duas horas pra ser digerido. Kkkkkkkk